A
água mineral é hoje associada ao estilo de vida
saudável e ao bem-estar. As garrafinhas de água
mineral já se tornaram acessório dos esportistas,
e, em casa, muita gente nem pensa em tomar o líquido
que sai da torneira compra água em garrafas
ou galões. Nos últimos dez anos, em todo o planeta,
o consumo de água mineral cresceu 145% e passou
a ocupar um lugar de destaque nas preocupações
de muitos ambientalistas. O foco não está exatamente
na água, mas na embalagem. A fabricação
das garrafas plásticas usadas pela maioria das marcas
é um processo industrial que provoca grande quantidade
de gases que agravam o efeito estufa. Ao serem descartadas,
elas produzem montanhas de lixo que nem sempre é reciclado.
Muitas entidades ambientalistas têm promovido campanhas
de conscientização para esclarecer que, nas
cidades em que a água canalizada é bem tratada,
o líquido que sai das torneiras em nada se diferencia
da água em garrafas. Organizações européias
e americanas até estimulam as pessoas a escrever a
seus restaurantes favoritos pedindo que suspendam a venda
de água mineral e, dessa forma, contribuam com a preservação
do planeta.
As campanhas têm
dado resultado nos lugares onde a preocupação
ambiental já ganhou a adesão das multidões
e os moradores confiam na água encanada. A partir do
próximo sábado, os órgãos públicos
de São Francisco, nos Estados Unidos, estarão
proibidos de comprar água mineral para seus funcionários.
Outras grandes cidades americanas, como Los Angeles e Salt
Lake City, já adotaram a mesma medida. Apenas nos Estados
Unidos, os processos de fabricação e reciclagem
das garrafas plásticas consumiram 17 milhões
de barris de petróleo em 2006. Esses processos produziram
estimados 2,5 milhões de toneladas de dióxido
de carbono e outros gases do efeito estufa, poluição
equivalente à de 455.000 carros rodando normalmente
durante um ano. O dano é multiplicado por três
quando se consideram as emissões provocadas pelo transporte
e refrigeração das garrafas.
O problema comprovado
e imediato causado pelas embalagens de água é
o espaço que elas ocupam ao ser descartadas. Só
no Brasil, que recicla menos da metade das garrafas PET que
produz, mais de 4 bilhões delas viram lixo todos os
anos. Como demoram pelo menos 100 anos para se degradar, elas
fazem com que o volume de lixo no planeta cresça exponencialmente.
Quando não vão para aterros sanitários,
os recipientes abandonados entopem bueiros nas cidades, sujam
rios e acumulam água que pode ser foco de doenças,
como a dengue. A maioria dos ambientalistas reconhece, evidentemente,
que no Terceiro Mundo, com vastas regiões nas quais
não é recomendável consumir água
diretamente da torneira, quem tem poder aquisitivo para comprar
água mineral precisa fazê-lo por uma questão
de segurança. De acordo com um relatório da
ONU divulgado recentemente, 170 crianças morrem por
hora no planeta devido a doenças decorrentes do consumo
de água imprópria.
Um estudo apresentado
neste ano na Royal Geographical Society, na Inglaterra, chamou
atenção para o fato de que a contaminação
da água potável por arsênio em inúmeros
países, principalmente na Ásia e na África,
poderá aumentar consideravelmente os casos de câncer
nos próximos anos. Mesmo assim, ao comprar água
mineral nesses países, não se tem segurança
de estar consumindo um produto saudável. Estima-se
que quase metade da água vendida como mineral em Pequim
seja de má qualidade. A questão é tão
grave que o governo chinês elaborou um plano para reforçar
o controle de procedência das garrafas de água
por meio de etiquetas eletrônicas durante as Olimpíadas
de Pequim, no ano que vem. Espera, dessa forma, impedir a
circulação de produtos adulterados.
No Brasil, o termo
água mineral acabou se tornando referência para
designar diferentes tipos de água engarrafada. A rigor,
a expressão identifica a água proveniente de
nascentes ou aqüíferos subterrâneos e que
contém minerais como cálcio, potássio
e sulfato de sódio. Cada água, dependendo de
sua composição mineral, pode ter um sabor característico.
A água mineral também pode ser produzida artificialmente
por meio da adição de sais ou gases à
água tratada. Nesse caso, é chamada de água
adicionada de sais. Ao contrário do que ocorre no Brasil,
onde as minerais representam quase a totalidade do mercado,
a maior parte do mundo consome outro tipo de água engarrafada:
a purificada. Ela é a água da torneira submetida
a processos de filtragem e tratamentos químicos que
variam conforme cada fabricante. As marcas mais vendidas estão
nas mãos de apenas quatro grandes empresas: Nestlé,
Danone, Coca-Cola e PepsiCo, em ordem de porcentual de participação.
O restante do mercado mundial é formado pelas águas
purificadas e fortificadas por vitaminas, estimulantes naturais,
como a cafeína, e extratos de ervas com propriedades
terapêuticas. Segundo os médicos, a quantidade
de minerais contida tanto nas águas de nascentes e
aqüíferos quanto nas purificadas é muito
pequena para torná-las mais saudáveis do que
a água da torneira. Diz o fisiologista Paulo Zogaib,
professor de medicina esportiva da Universidade Federal de
São Paulo: "Não há pesquisas científicas
que comprovem que essas águas são melhores para
a saúde. O importante é manter o corpo hidratado
com água de procedência segura".
A crença
nos benefícios da água mineral remonta à
Antiguidade, quando se disseminou o costume de beber água
de fontes consideradas terapêuticas ou utilizá-la
em banhos especiais. Dizia Píndaro, poeta grego que
viveu no século V antes de Cristo: "O mais nobre
dos elementos da natureza é a água". No
século XIII, as águas de San Pellegrino, região
próxima a Milão, na Itália, e de Fiuggi,
ao sul de Roma, já eram consideradas milagrosas para
tratar uma série de males. Michelangelo foi a Fiuggi
para se tratar de pedras nos rins. No século XIX, as
visitas periódicas a estâncias hidrominerais,
inspiradas nas antigas termas romanas, tornaram-se um hábito
bastante difundido. No verão, Vichy, na França,
costumava receber Napoleão III e sua corte, além
de outros 300.000 visitantes que acreditavam nos benefícios
da água local. Nesse período, as águas
de algumas dessas estâncias já eram engarrafadas
e vendidas. O vidro das garrafas, no entanto, dificultava
o transporte, além de encarecer o produto. A partir
do século XIX, o advento das rodovias e da industrialização
facilitou o comércio e permitiu que a venda de águas
se tornasse um negócio lucrativo. Hoje, com o culto
à saúde na ordem do dia, a mística em
torno das águas minerais se mantém. Para desgosto
dos ambientalistas.
O apelo exótico
da selva
EQUA retirada
do solo
da Amazônia e distribuída nos EUA
a partir de abril
Num mundo
em que as roupas e os acessórios servem para
demonstrar a que tribo se pertence, não basta
tomar água mineral é preciso escolher
a marca certa. Os famosos de Hollywood já elegeram
a sua: Bling, cuja garrafa esbranquiçada
de vidro, naturalmente leva aplicações
de cristal e custa a bagatela de 50 dólares.
Entre os simples mortais, um critério freqüente
para escolher a mineral que combine com a própria
personalidade é a origem do produto. Quanto mais
exótica, melhor. A Fiji é extraída
de um aqüífero formado numa antiga cratera
vulcânica na Ilha de Viti Levu, no Arquipélago
Fiji. A Ty Nant vem do País de Gales, aquela
charmosa parte da Grã-Bretanha que há
séculos tem aspirações separatistas
o que tem seu charme numa Europa Ocidental de
fronteiras já bem delimitadas.
Um dos lançamentos
mais aguardados dos últimos tempos entre as águas
de luxo é a Equa. Ela é extraída
de uma fonte no coração da Floresta Amazônica
brasileira. Sua história começa com o
americano Jeff Moat, que trabalhou durante quinze anos
em Manaus, onde tinha uma firma de exportação
de pescados. Dois anos atrás, de volta ao Brasil,
ele teve a idéia de analisar amostras das águas
amazônicas. "As análises feitas em
laboratórios americanos da fonte da Equa mostram
que essa é a água mineral mais pura do
mundo", exagera Moat. A Equa chegará ao
mercado americano em abril do ano que vem, ao custo
de 8 dólares a embalagem de 750 mililitros. O
lançamento no Brasil está previsto para
maio de 2009.
Assim como
ocorreu com as águas engarrafadas tradicionais,
o mercado das águas de luxo cresceu nos últimos
anos. "O preço mais elevado desses produtos
faz com que, apesar do número pequeno de consumidores,
o setor movimente uma quantia significativa", disse
a VEJA Gary Hemphill, diretor da consultoria americana
Beverage Marketing, especializada em bebidas. Com a
multiplicação das águas minerais
chiques, já surgiram até especialistas
em degustá-las os sommeliers do H2O,
presentes em alguns restaurantes americanos de luxo.
"A água mineral será amanhã
o que hoje é o vinho", diz Michael Mascha,
fundador de um site dedicado a avaliar águas
minerais de todo o planeta.
Paula
Neiva
BLING sucesso entre
os famosos
de Hollywood Origem Estados Unidos Preço 50 dólares (750 ml)
FIJI o fascínio
dos mares do sul ajuda nas vendas Origem Ilhas Fiji Preço
1,5 dólar (330 ml)
VOSS a embalagem
lembra o frio nórdico Origem Noruega Preço 1,6 dólar (375 ml)
TY
NANT garrafa com
design premiado Origem País de Gales Preço 3 dólares (710 ml)