A maioria dos atletas
da natação define seu estilo preferido aos 15
ou 16 anos de idade. Gustavo Borges foi um grande campeão
no nado livre. Fernando Scherer bateu recordes no estilo livre
e também no borboleta. Com Thiago Pereira, foi diferente.
Aos 21 anos, ele brilha nos nados livre, borboleta, peito
e costas. Thiago é um fenômeno. Não é
tão alto, nem tem os braços tão longos
como Borges ou Scherer. Seu diferencial está nas pernas.
Elas são ligeiramente curvadas para trás. Seus
pés se espicham como os de uma bailarina equilibrando-se
na ponta dos dedos. Essa característica produz uma
batida na água com maior amplitude. O resultado é
um conjunto de membros inferiores com potência e maior
capacidade de flexão. Com isso, o nadador ganha uma
propulsão extraordinária, poupando a carga dos
braços e se cansando menos. A compleição
física privilegiada ajudou Thiago a dominar melhor
a técnica de diversos estilos de natação
e fez dele um atleta nascido para medley, ou "quatro
estilos", a prova mais nobre das piscinas. Fez dele um
campeão e um recordista mundial.
O sucesso de Thiago
trouxe consigo a inevitável e desafiadora comparação
com o americano Michael Phelps, recordista mundial de nado
medley nas categorias 200 e 400 metros. Phelps é considerado
o melhor nadador de todos os tempos. Há uma semana,
o brasileiro superou uma de suas marcas pela primeira vez.
Bateu o recorde mundial nos 200 metros medley em piscina curta,
na Copa do Mundo, em Berlim. Bateu também o recorde
da competição nos 400 metros. Thiago se acha
em condições de melhorar essa marca na etapa
de Belo Horizonte da Copa do Mundo de piscina curta. Nas provas
disputadas em piscinas de dimensões não olímpicas
de 25 metros , o nadador bate mais vezes os pés
na parede durante as viradas. Isso lhe dá maior impulsão.
Por isso, para brilhar nas Olimpíadas de Pequim, em
que as provas são disputadas em piscinas de 50 metros,
Thiago tem ainda de aprimorar outros fundamentos.
Desde criança,
ele tem o dom para o esporte. Estreou em 1999, com apenas
13 anos, e teve seu primeiro grande resultado em 2003, nos
Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo, quando conquistou uma
medalha de prata e outra de bronze. Nas Olimpíadas
de Atenas, em 2004, Thiago conseguiu o quinto lugar na categoria
200 metros medley. Até 2005, no entanto, faltavam-lhe
técnica e maturidade. Naquele ano, jogando futebol
com amigos, deslocou a rótula e por pouco não
teve de abandonar a carreira. Foi ali que sua história
virou. "Aquilo me ajudou a acordar", lembra Thiago.
A temporada de 2007
foi a melhor de sua carreira, com a conquista de seis medalhas
de ouro no Pan do Rio. Hoje, ainda com o rosto de garoto,
brinco na orelha e gosto por programas noturnos, Thiago tem
consciência de seu valor como atleta. Sua única
torcedora no passado, a mãe, hoje tem sempre abundante
companhia. Além disso, Thiago agora tem patrocinadores
e eles cobram resultados. "Ele era muito instintivo.
Mas, na natação, chega um momento em que é
preciso usar a razão. Thiago está nesse caminho",
diz Ricardo de Moura, coordenador técnico da Confederação
Brasileira de Desportos Aquáticos. Com treinamento
duro, sua evolução foi formidável ao
longo dos anos. Entre 2001 e 2007, ele conseguiu melhorar
seu desempenho em dezesseis segundos nos 200 metros medley
(veja
o quadro). É tempo suficiente para singrar
meia piscina olímpica.
Atualmente, o atleta
nada cinco horas por dia, de segunda a sábado. Para
um nadador de alto nível, o treinamento não
apenas ajuda a manter a forma física, mas também
serve para melhorar a qualidade, freqüência e amplitude
dos movimentos com o objetivo de nadar mais rápido
com menor dispêndio de energia. Hoje ele consegue atravessar
uma piscina de 25 metros com cinco braçadas no estilo
borboleta, e sua capacidade de recuperação entre
uma volta e outra é comparável à de Michael
Phelps. "Natação é matemática.
Com amplitude e freqüência você consegue
melhorar a velocidade", diz seu técnico, Fernando
Vanzella. A diferença de Thiago para o americano? Nos
200 metros medley, os dois nadam em velocidades parecidas
até a quarta volta, quando Phelps se distancia. O brasileiro
precisa dar mais braçadas para vencer a mesma distância
percorrida pelo americano. A amplitude da remada de Phelps
é superior. A oito meses das Olimpíadas de Pequim,
a meta de Thiago é diminuir essa diferença e
aprender a usar os braços com a mesma eficiência
das pernas. Quem o conhece não duvida da sua capacidade
de superação.