Quase
ninguém sai de casa sem carregar dois acessórios
básicos da vida moderna o cartão de crédito
e o celular. Que tal unir os dois num só aparelho?
Essa fusão começou a ser testada em grande escala
neste mês na França. O responsável pela
experiência, o consórcio Payez Mobile, reúne
as quatro maiores operadoras de telefonia móvel e os
seis maiores bancos do país. Nos próximos seis
meses, um grupo de 1 000 pessoas utilizará o celular
para comprar de tudo, de croissant a pasta de dentes, em 200
lojas de cidades francesas. O uso do telefone para pagamento
de contas já existe em vários países,
inclusive no Brasil, com diversas modalidades e tecnologias.
O sistema francês utiliza um pequeno emissor adicionado
ao SIM card, o chip que guarda os dados do telefone. De tamanho
minúsculo, ele estabelece a ligação sem
fio entre o celular e as máquinas de cartões
de crédito das redes Visa e MasterCard num raio de
15 centímetros (veja
como o sistema funciona).
O objetivo da experiência
francesa não se resume a conferir o desempenho do equipamento.
O projeto é colocar o país na vanguarda da tecnologia
aplicada ao celular e transformá-lo em uma referência
desse tipo de pagamento na Europa. A França tem bons
antecedentes no campo da inovação na área
de comunicações. Na década de 70, quando
a internet ainda estava restrita às universidades,
os franceses desenvolveram o Minitel, um serviço de
videotexto extremamente popular no país. O pagamento
de contas pelo celular é um negócio em expansão
global estima-se que vá movimentar 37 bilhões
de dólares no próximo ano , e não
será fácil para a França liderar esse
processo fora da Europa. O sistema atualmente com maior número
de usuários é o japonês, implantado em
2004 pela gigante NTT DoCoMo. É utilizado por 20 milhões
de pessoas até para pagar a passagem no metrô.
Em termos operacionais é igual ao francês. A
diferença está na tecnologia. Em vez de um acréscimo
ao SIM da rede GSM, o emissor japonês usa um chip criado
pela Sony, chamado FeliCa.
Itsuo
Inouye/AP
No Japão, telefone paga passagens
de trem
Desde setembro, a operadora Oi presta um serviço similar
nos doze estados brasileiros onde atua. Chama-se Oi Paggo.
Em termos de tecnologia, o processo é bastante simples:
os débitos são autorizados por meio de mensagens
de texto. O processo é similar ao empregado pelas empresas
de cartões de crédito. Inicialmente, o cliente
é submetido a uma avaliação de crédito
e recebe autorização para gastar dentro de determinado
limite. Ao vender um produto, o comerciante envia uma mensagem
ao número do celular do comprador com o valor a ser
debitado à vista ou em parcelas. O comprador
então autoriza o pagamento por meio de uma senha. Um
detalhe: não é preciso estar na loja. O débito
pode ser autorizado remotamente. Basta receber a mensagem
e digitar a senha correta. A Oi tem 340.000 clientes cadastrados
nesse serviço, usado em 13.000 estabelecimentos comerciais,
e movimentou 5 milhões de reais com o sistema no mês
passado. "No começo, as pessoas usam o telefone
para fazer pequenas compras, como pagar um táxi ou
encher o tanque de combustível do carro. Depois os
valores aumentam e o celular vira um cartão de crédito
como outro qualquer", diz Leonardo Caetano, gerente de
Mobile Payment da Oi.
Em todos os modelos
de pagamento por celular, a segurança é feita
pela autenticação prévia dos telefones,
pelo uso de senhas, pela confirmação dos débitos
e pelo emprego de mensagens criptografadas. No primeiro semestre,
a empresa britânica VoicePay anunciou a criação
de uma tecnologia que pode trazer uma garantia adicional a
esse tipo de pagamento. Nesse caso, o débito é
autorizado a partir do reconhecimento da voz do dono da conta.
Para isso é feita uma análise biométrica
da voz, à semelhança do que ocorre com a impressão
digital. São analisados 117 parâmetros do som
emitido por uma pessoa. Nick Ogden, um dos fundadores da VoicePay,
tem um argumento a favor do produto: "O uso de celulares
cresce, e eles têm um número menor de teclas.
Isso torna o reconhecimento por voz a melhor solução".
É um bom argumento.
Na África,
o celular substitui os caixas eletrônicos
George
Esiri/Reuters
Telefone móvel: usos inesperados
entre os africanos
Apenas
duas em cada dez famílias na África têm
conta bancária. Na Suazilândia, o pequeno
reino encravado no território da África
do Sul, uma mulher precisa do consentimento do pai,
do marido ou de um irmão para conseguir um empréstimo
bancário. Por onde se vá no continente,
o risco de ser assaltado é enorme. Limites como
esses têm conferido especial destaque ao celular
como instrumento de pagamento de contas entre os africanos.
No Quênia, o telefone substitui até caixas
eletrônicos. Antes de partirem numa viagem, é
comum que as pessoas façam depósitos nas
operadoras de telefonia móvel. Ao chegarem ao
destino, o crédito é convertido em dinheiro
numa loja da operadora. Dessa forma, o viajante não
corre o risco de perda ou roubo da quantia ao longo
do trajeto. Os créditos nos celulares pré-pagos
também são usados na compra de produtos
de pequeno valor.
O número
absoluto de celulares é relativamente pequeno
na África apenas 190 milhões de
aparelhos numa população que ultrapassa
900 milhões de pessoas. Só a Oceania tem
uma quantidade menor. Mas, entre 2001 e 2006, o continente
apresentou o maior ritmo de crescimento de telefones
móveis em todo o mundo, em torno de 660%. É
uma boa notícia para os africanos. Um estudo
do economista Leonard Waverman, da London Business School,
indica que o crescimento de 10% no número de
telefones celulares produz um avanço de 0,6%
no produto interno bruto (PIB) de um país em
desenvolvimento. O paradoxal é o uso na África
de uma moderna tecnologia para recriar o sistema medieval
das cartas de crédito, que está na origem
do sistema bancário.