O
contato com a cultura global costuma despertar reações
contraditórias no mundo muçulmano. Diante dos
produtos, tendências e tecnologias que dominam a vida
moderna, os muçulmanos ortodoxos têm duas saídas.
Uma é a proibição pura e simples. Há
fatwas (decretos islâmicos) recentes abominando
desde a vacinação infantil até os desenhos
animados. Outra solução, mais saudável,
é adaptar as invenções modernas às
tradições muçulmanas. Nessa linha, a
fabricante de automóveis Proton, da Malásia,
anunciou no início deste mês o projeto de fabricar
um carro islâmico. O "islâmico" do veículo
não vai além de alguns acessórios, como
a bússola no painel. Com ela, o motorista saberá
a exata direção de Meca, para onde poderá
se voltar para fazer as cinco rezas diárias obrigatórias.
O Proton islâmico, que deve ser produzido na cidade
de Daman, na Arábia Saudita, também virá
com um compartimento especial para guardar o Corão,
o livro santo do islamismo, e outro para véus femininos.
"Para as montadoras, fazer em um carro mudanças
cosméticas como essas custa muito menos do que desenhar
um modelo e permite criar do zero um nicho de mercado",
explica o paulista Juliano Alquati, analista da CSM Worldwide,
consultoria especializada na indústria automobilística.
No Brasil, um exemplo dessa estratégia foi acrescentar
espelho ao pára-sol do motorista para convencer as
mulheres a comprar determinado modelo de automóvel.
O carro islâmico
será vendido na Turquia, no Irã e em outros
países do Oriente Médio e não sairá
por mais de 15.000 dólares, o que o enquadra na categoria
dos modelos populares. A justificativa para haver um automóvel
feito sob medida para muçulmanos está no caráter
onipresente da religião de Maomé. O islamismo
regula os mínimos detalhes do cotidiano de um fiel,
desde a forma de lavar as mãos até o que se
pode ou não ler no banheiro. Talvez pelo fato de o
cristianismo não ser uma religião tão
normativa, ninguém ainda pensou em fabricar um veículo
exclusivo para católicos. Em junho, curiosamente, o
Vaticano divulgou o decálogo do motorista, inspirado
nos dez mandamentos. Entre outras orientações,
o texto recomendava que as pessoas fizessem o sinal-da-cruz
antes de iniciar uma viagem e, durante o trajeto, orassem
e rezassem o rosário. Os xeques foram, literalmente,
mais longe na tentativa de colocar um pouco de religião
em situações inusitadas. Na Malásia,
um país onde 60% da população é
muçulmana, foi criado um software para resolver a questão
de como um astronauta poderia fazer para rezar cinco vezes
por dia voltado para Meca. Pelos cálculos do programa,
as preces obrigatórias deveriam ser feitas no curto
dia de noventa minutos da estação espacial.
A confusão seria tão grande que o software foi
descartado, e o Conselho Nacional de Fatwas Islâmicas,
da Malásia, publicou um livreto intitulado Obrigações
Muçulmanas na Estação Espacial Internacional.
Antes de tornar-se o primeiro astronauta malaio a visitar
a estação, no mês passado, Sheikh Muszaphar
Shukor foi informado de que não precisaria se ajoelhar
no espaço, mas rezar da melhor forma possível
em gravidade zero.