Apenas mais policiados.
Famosos americanos mostram o que acontece quando a sociedade não
acha aceitável beber e dirigir
Suzana
Villaverde
Jeff
Topping/Reuters
Mike
Tyson 1 dia de prisão, 360 horas
de serviço comunitário e 3 anos de liberdade assistida
A
cena é inesquecível. Com os músculos estourando os modestos
limites do macacão listado, algemas cor-de-rosa combinando com as meias
(equipamento-padrão da prisão pouco ortodoxa no Arizona para a qual
foi despachado), o ex-campeão de boxe e habitual freqüentador de delegacias
Mike Tyson cumpriu na semana passada 24 horas de recolhimento por dirigir bêbado
e drogado. A pena foi curta, mas serviu para lembrar o que Tyson tem em comum
com celebridades encrencadas. Mel Gibson, Lindsay Lohan, Kiefer Sutherland, Paris
Hilton, Nicole Richie, Mickey Rourke, Nick Nolte... a lista de famosos parados,
multados, fichados e, eventualmente, presos nos Estados Unidos por dirigir embriagados
é uma obra em aberto, com novos personagens a cada semana. Tanto boletim
de ocorrência pelo mesmo motivo indica que muitas celebridades acham que
podem tudo e abusam? Sem dúvida. Mas também que nos Estados Unidos
pegar na direção depois de beber em excesso é ofensa séria,
pela qual famosos e não famosos são punidos: em 2005, 1,4 milhão
de americanos foram autuados sob a notória sigla DUI Driving Under
the Influence, dirigir sob influência de bebida ou droga.
Mesmo
quando a pena é simbólica (fora o vexame de aparecer no BO com uma
cara estranha, como se vê nas fotos abaixo, exceto no caso da imutável
Paris Hilton), vale pelo exemplo. Ressalve-se que nenhum dos famosos aqui mencionados
provocou acidentes, muito menos fez vítimas, crimes que no Brasil costumam
cair no esquecimento. Até nos casos que seguem todas as instâncias
judiciais, a tendência é a punição branda, com multas
em cestas básicas, seguindo a lógica da comparação
e da benevolência: há crimes mais pavorosos e as penitenciárias
estão cheias (nos Estados Unidos também; por isso, Mike Tyson passou
seu dia de castigo num acampamento-prisão improvisado para contornar a
superlotação). Um levantamento feito pela Secretaria de Estado de
Saúde de São Paulo em 2004, com base em dados do Instituto Médico-Legal,
mostrou que 42,7% dos acidentes ocorridos no segundo semestre daquele ano tiveram
relação com o consumo de álcool. De modo mais metódico
e abrangente, pesquisadores da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad)
da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), acompanhados de policiais,
passaram fins de semana do ano passado abordando e testando o nível alcoólico
de 1.372 motoristas na cidade de São Paulo; constataram que 20% estavam
acima do limite permitido de 0,6 grama de álcool por litro de sangue. Para
comparar: a média mundial de excesso de álcool ao volante é
de 2%. "Foi uma pesquisa absolutamente banal, que, no entanto, nunca tinha
sido feita no Brasil. Aqui, não existem dados nem fiscalização
sobre beber e dirigir", diz Ronaldo Laranjeira, psiquiatra da Uniad.
O sistema de crime e castigo vigente nos Estados Unidos é produto da decisão
da sociedade, em geral surgida localmente, como é próprio da democracia
de base. A Califórnia, com a maior concentração de carros
(e de famosos), foi pioneira. Em 1980, depois que um motorista bêbado atropelou
e matou uma garota de 13 anos, foi criado o Mothers Against Drunk Driving (MADD),
movimento que fez campanha por leis mais rígidas contra a venda e o consumo
de bebidas e por maior fiscalização. A mudança de mentalidade
se difundiu e, embora o consumo de álcool não seja nada inibido,
o número de mortes causadas por motoristas bêbados caiu 44% no país.
"Aqui, a polícia, o serviço social, as organizações
comunitárias, o serviço de saúde, o governo, o Judiciário
e muitos outros órgãos e entidades tratam do problema. Tentamos
atacá-lo de todos os lados", disse a VEJA Chris Cochran, porta-voz
do Office of Traffic Safety da Califórnia. Em Los Angeles, o limite permitido
de álcool no sangue é 0,8 g/litro, o equivalente a quatro copos
de cerveja para um homem de 75 quilos. A pena, se não houver vítimas,
é multa e liberdade condicional na primeira vez e cadeia na segunda
pouco mais de vinte dias, dos quais a maioria cumpre no máximo metade.
Donos de bares e casas noturnas podem até ser processados se não
aconselharem clientes que beberam demais a tomar um táxi ou chamar
a polícia quando a pessoa se recusa. A cidade de 3,9 milhões de
habitantes tem 9.517 policiais encarregados de identificar infratores, através
de patrulhas, vigilância eletrônica e denúncias de comportamento
irregular. No ano passado, 5.435 pessoas foram autuadas por dirigir bêbadas,
entre elas o bando de famosos que teima em não contratar motorista (compreensível
dá para imaginar os livros que iriam escrever e as entrevistas que
iriam vender). "Eles acham que estão acima de tudo e de todos",
diz o fotógrafo argentino Pablo Grosby, que mora em Los Angeles há
vinte anos e já correu atrás de muita celebridade embriagada. "E,
na verdade, a maioria não tem condição de dirigir nem em
estado normal", brinca.
Fotos AP,
Reuters e Getty Images
Mel
Gibson 3 anos de liberdade assistida,
90 dias de reeducação, 1 ano de tratamento
Lindsay
Lohan 10 dias de serviço comunitário,
3 anos de liberdade assistida
Mickey
Rourke Preso, solto sob fiança,
aguarda julgamento
Nicole
Richie 82 minutos de prisão,
18 meses de reeducação, 3 anos de liberdade assistida
Nick
Nolte 3 anos de liberdade assistida,
3 meses de tratamento
Paris
Hilton 23 dias de prisão, multa
de 1 500 dólares