BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
ACESSO LIVRE
Conheça as seções e áreas de VEJA.com
com acesso liberado
REVISTAS
VEJA
Edição 2036

28 de novembro de 2007
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
COLUNAS
Stephen Kanitz
Millôr
André Petry
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
SEÇÕES
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA.com
Holofote
Contexto
Radar
Veja essa
Gente
Datas
Auto-retrato
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
Publicidade
 

Trânsito
Eles não são piores

Apenas mais policiados. Famosos americanos
mostram o que acontece quando a sociedade
não acha aceitável beber e dirigir


Suzana Villaverde

Jeff Topping/Reuters
Mike Tyson
1 dia de prisão, 360 horas de serviço comunitário e 3 anos de liberdade assistida


A cena é inesquecível. Com os músculos estourando os modestos limites do macacão listado, algemas cor-de-rosa combinando com as meias (equipamento-padrão da prisão pouco ortodoxa no Arizona para a qual foi despachado), o ex-campeão de boxe e habitual freqüentador de delegacias Mike Tyson cumpriu na semana passada 24 horas de recolhimento por dirigir bêbado e drogado. A pena foi curta, mas serviu para lembrar o que Tyson tem em comum com celebridades encrencadas. Mel Gibson, Lindsay Lohan, Kiefer Sutherland, Paris Hilton, Nicole Richie, Mickey Rourke, Nick Nolte... a lista de famosos parados, multados, fichados e, eventualmente, presos nos Estados Unidos por dirigir embriagados é uma obra em aberto, com novos personagens a cada semana. Tanto boletim de ocorrência pelo mesmo motivo indica que muitas celebridades acham que podem tudo e abusam? Sem dúvida. Mas também que nos Estados Unidos pegar na direção depois de beber em excesso é ofensa séria, pela qual famosos e não famosos são punidos: em 2005, 1,4 milhão de americanos foram autuados sob a notória sigla DUI – Driving Under the Influence, dirigir sob influência de bebida ou droga.

Mesmo quando a pena é simbólica (fora o vexame de aparecer no BO com uma cara estranha, como se vê nas fotos abaixo, exceto no caso da imutável Paris Hilton), vale pelo exemplo. Ressalve-se que nenhum dos famosos aqui mencionados provocou acidentes, muito menos fez vítimas, crimes que no Brasil costumam cair no esquecimento. Até nos casos que seguem todas as instâncias judiciais, a tendência é a punição branda, com multas em cestas básicas, seguindo a lógica da comparação e da benevolência: há crimes mais pavorosos e as penitenciárias estão cheias (nos Estados Unidos também; por isso, Mike Tyson passou seu dia de castigo num acampamento-prisão improvisado para contornar a superlotação). Um levantamento feito pela Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo em 2004, com base em dados do Instituto Médico-Legal, mostrou que 42,7% dos acidentes ocorridos no segundo semestre daquele ano tiveram relação com o consumo de álcool. De modo mais metódico e abrangente, pesquisadores da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), acompanhados de policiais, passaram fins de semana do ano passado abordando e testando o nível alcoólico de 1.372 motoristas na cidade de São Paulo; constataram que 20% estavam acima do limite permitido de 0,6 grama de álcool por litro de sangue. Para comparar: a média mundial de excesso de álcool ao volante é de 2%. "Foi uma pesquisa absolutamente banal, que, no entanto, nunca tinha sido feita no Brasil. Aqui, não existem dados nem fiscalização sobre beber e dirigir", diz Ronaldo Laranjeira, psiquiatra da Uniad.

O sistema de crime e castigo vigente nos Estados Unidos é produto da decisão da sociedade, em geral surgida localmente, como é próprio da democracia de base. A Califórnia, com a maior concentração de carros (e de famosos), foi pioneira. Em 1980, depois que um motorista bêbado atropelou e matou uma garota de 13 anos, foi criado o Mothers Against Drunk Driving (MADD), movimento que fez campanha por leis mais rígidas contra a venda e o consumo de bebidas e por maior fiscalização. A mudança de mentalidade se difundiu e, embora o consumo de álcool não seja nada inibido, o número de mortes causadas por motoristas bêbados caiu 44% no país. "Aqui, a polícia, o serviço social, as organizações comunitárias, o serviço de saúde, o governo, o Judiciário e muitos outros órgãos e entidades tratam do problema. Tentamos atacá-lo de todos os lados", disse a VEJA Chris Cochran, porta-voz do Office of Traffic Safety da Califórnia. Em Los Angeles, o limite permitido de álcool no sangue é 0,8 g/litro, o equivalente a quatro copos de cerveja para um homem de 75 quilos. A pena, se não houver vítimas, é multa e liberdade condicional na primeira vez e cadeia na segunda – pouco mais de vinte dias, dos quais a maioria cumpre no máximo metade. Donos de bares e casas noturnas podem até ser processados se não aconselharem clientes que beberam demais a tomar um táxi – ou chamar a polícia quando a pessoa se recusa. A cidade de 3,9 milhões de habitantes tem 9.517 policiais encarregados de identificar infratores, através de patrulhas, vigilância eletrônica e denúncias de comportamento irregular. No ano passado, 5.435 pessoas foram autuadas por dirigir bêbadas, entre elas o bando de famosos que teima em não contratar motorista (compreensível – dá para imaginar os livros que iriam escrever e as entrevistas que iriam vender). "Eles acham que estão acima de tudo e de todos", diz o fotógrafo argentino Pablo Grosby, que mora em Los Angeles há vinte anos e já correu atrás de muita celebridade embriagada. "E, na verdade, a maioria não tem condição de dirigir nem em estado normal", brinca.

Fotos AP, Reuters e Getty Images

Mel Gibson
3 anos de liberdade assistida,
90 dias de reeducação, 1 ano de tratamento

Lindsay Lohan
10 dias de serviço comunitário,
3 anos de liberdade assistida

Mickey Rourke
Preso, solto sob fiança,
aguarda julgamento
Nicole Richie
82 minutos de prisão,
18 meses de reeducação,
3 anos de liberdade assistida
Nick Nolte
3 anos de liberdade assistida,
3 meses de tratamento
Paris Hilton
23 dias de prisão,
multa de 1 500 dólares




Publicidade

  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |