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28 de novembro de 2007
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Internacional
A batalha da França

Com apoio popular, Sarkozy vence sindicatos
e pode começar a modernização do país


Duda Teixeira

Charles Pltiau/Reuters
Eric Gailard/Reuters
Ferroviários em Nice e Sarkozy (à esquerda): privilégios em jogo


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Conheça o país: França

Apenas seis meses depois da posse, o presidente Nicolas Sarkozy aposta seu governo numa disputa de tudo ou nada. Nas últimas duas semanas, a França foi paralisada por uma greve no setor de transportes, logo estendida a outros servidores públicos. No auge da paralisação, metade dos trens suburbanos deixou de funcionar e Paris padeceu sob um congestionamento de 400 quilômetros. O motivo oficial da greve é a oposição sindical aos planos do presidente de extinguir o regime especial de aposentadoria para alguns funcionários públicos, entre eles os trabalhadores de ferrovias. Estes podem tornar-se pensionistas com 37 anos e meio de contribuição, enquanto o restante da população precisa de quarenta anos. Na verdade, há muito mais em jogo. Desde a campanha eleitoral, Sarkozy promete uma "ruptura" com o passado para dar início a um processo de modernização da França. O projeto do governo inclui o enxugamento da máquina pública e um corte nos privilégios usufruídos pelos funcionários do estado.

A França não era paralisada com tal intensidade desde 1995, quando três semanas de greves forçaram o presidente Jacques Chirac a recuar em reformas similares. Tradicionalmente, o poder das multidões nas ruas impede qualquer modernização nas relações trabalhistas. Desta vez, porém, o resultado aponta em outra direção. "Não nos renderemos", tem repetido o presidente francês, parafraseando o primeiro-ministro inglês Winston Churchill durante o avanço das forças nazistas na Europa, na II Guerra. Sua força vem do apoio da maioria da população. Em geral tolerantes com causas sociais, os franceses estão fartos de greves a troco de qualquer coisa. Na sexta-feira passada, os trabalhadores do setor de transportes e de energia começaram a retornar ao batente mesmo sem o governo atender a suas reivindicações. Ao vislumbrarem a vitória do presidente, os jornais franceses passaram a comparar Sarkozy com a primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher. Nos anos 80, a Dama de Ferro quebrou a espinha dorsal do sindicalismo inglês, criando condições para o crescimento econômico da Inglaterra. Sarkozy vive o seu "momento Thatcher".

O confronto com os sindicalistas era uma batalha anunciada. Durante a campanha eleitoral, Sarkozy expôs claramente seu programa de reformas. A França é a sexta maior economia e tem uma indústria avançada, mas o crescimento é pífio. Some-se a isso uma estrutura trabalhista cara e engessada e o resultado é a dificuldade em criar novos empregos. Um dos entraves é o estado paquidérmico, cada vez mais insustentável. Os gastos governamentais representam 53% do PIB francês, contra 21% no Brasil. Os franceses elegeram Sarkozy para reformar essa estrutura obsoleta. Há dois meses, ele anunciou o fim das aposentadorias especiais, repetindo uma medida tentada sem sucesso doze anos antes pelo seu antecessor, Jacques Chirac. "Este é o momento em que se decidirá se Sarkozy será um presidente forte, com um legado relevante, ou se irá sucumbir como Chirac", disse a VEJA o cientista político francês Olivier Ruchet, da Universidade Sciences-Po, em Paris.

O presidente leva uma vantagem que Chirac não tinha: o apoio da população. Seis de cada dez franceses são contra a greve. Apenas um em cada dez funcionários públicos desfruta a regalia da aposentadoria especial. Entre os beneficiados estão cenógrafos da Ópera de Paris e condutores de trem, merecedores do benefício por supostamente exercerem funções perigosas. A paciência popular com os grevistas esgotou-se depois que linhas do TGV, o trem de alta velocidade do qual os franceses se orgulham, foram sabotadas. Os sindicatos ainda terão a oportunidade de negociar com o governo nas próximas semanas, mas tudo indica que Sarkozy cederá pouco. Até porque suas reformas são modestas: enquanto os franceses se aposentam em média com 55 anos, a Inglaterra fixou a idade mínima para aposentadoria em 68 anos e a Alemanha, em 69. "Sarkozy está tentando algo tão pequeno que para o resto do mundo até soa ridículo", disse a VEJA o chileno Salvador Valdés, da Universidade Católica do Chile, especialista em questões trabalhistas internacionais. Essa medida modesta, contudo, é uma verdadeira revolução para os padrões sociais da França.




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