Apenas seis meses
depois da posse, o presidente Nicolas Sarkozy aposta seu governo
numa disputa de tudo ou nada. Nas últimas duas semanas,
a França foi paralisada por uma greve no setor de transportes,
logo estendida a outros servidores públicos. No auge
da paralisação, metade dos trens suburbanos
deixou de funcionar e Paris padeceu sob um congestionamento
de 400 quilômetros. O motivo oficial da greve é
a oposição sindical aos planos do presidente
de extinguir o regime especial de aposentadoria para alguns
funcionários públicos, entre eles os trabalhadores
de ferrovias. Estes podem tornar-se pensionistas com 37 anos
e meio de contribuição, enquanto o restante
da população precisa de quarenta anos. Na verdade,
há muito mais em jogo. Desde a campanha eleitoral,
Sarkozy promete uma "ruptura" com o passado para
dar início a um processo de modernização
da França. O projeto do governo inclui o enxugamento
da máquina pública e um corte nos privilégios
usufruídos pelos funcionários do estado.
A França
não era paralisada com tal intensidade desde 1995,
quando três semanas de greves forçaram o presidente
Jacques Chirac a recuar em reformas similares. Tradicionalmente,
o poder das multidões nas ruas impede qualquer modernização
nas relações trabalhistas. Desta vez, porém,
o resultado aponta em outra direção. "Não
nos renderemos", tem repetido o presidente francês,
parafraseando o primeiro-ministro inglês Winston Churchill
durante o avanço das forças nazistas na Europa,
na II Guerra. Sua força vem do apoio da maioria da
população. Em geral tolerantes com causas sociais,
os franceses estão fartos de greves a troco de qualquer
coisa. Na sexta-feira passada, os trabalhadores do setor de
transportes e de energia começaram a retornar ao batente
mesmo sem o governo atender a suas reivindicações.
Ao vislumbrarem a vitória do presidente, os jornais
franceses passaram a comparar Sarkozy com a primeira-ministra
inglesa Margaret Thatcher. Nos anos 80, a Dama de Ferro quebrou
a espinha dorsal do sindicalismo inglês, criando condições
para o crescimento econômico da Inglaterra. Sarkozy
vive o seu "momento Thatcher".
O confronto com
os sindicalistas era uma batalha anunciada. Durante a campanha
eleitoral, Sarkozy expôs claramente seu programa de
reformas. A França é a sexta maior economia
e tem uma indústria avançada, mas o crescimento
é pífio. Some-se a isso uma estrutura trabalhista
cara e engessada e o resultado é a dificuldade em criar
novos empregos. Um dos entraves é o estado paquidérmico,
cada vez mais insustentável. Os gastos governamentais
representam 53% do PIB francês, contra 21% no Brasil.
Os franceses elegeram Sarkozy para reformar essa estrutura
obsoleta. Há dois meses, ele anunciou o fim das aposentadorias
especiais, repetindo uma medida tentada sem sucesso doze anos
antes pelo seu antecessor, Jacques Chirac. "Este é
o momento em que se decidirá se Sarkozy será
um presidente forte, com um legado relevante, ou se irá
sucumbir como Chirac", disse a VEJA o cientista político
francês Olivier Ruchet, da Universidade Sciences-Po,
em Paris.
O presidente leva
uma vantagem que Chirac não tinha: o apoio da população.
Seis de cada dez franceses são contra a greve. Apenas
um em cada dez funcionários públicos desfruta
a regalia da aposentadoria especial. Entre os beneficiados
estão cenógrafos da Ópera de Paris e
condutores de trem, merecedores do benefício por supostamente
exercerem funções perigosas. A paciência
popular com os grevistas esgotou-se depois que linhas do TGV,
o trem de alta velocidade do qual os franceses se orgulham,
foram sabotadas. Os sindicatos ainda terão a oportunidade
de negociar com o governo nas próximas semanas, mas
tudo indica que Sarkozy cederá pouco. Até porque
suas reformas são modestas: enquanto os franceses se
aposentam em média com 55 anos, a Inglaterra fixou
a idade mínima para aposentadoria em 68 anos e a Alemanha,
em 69. "Sarkozy está tentando algo tão
pequeno que para o resto do mundo até soa ridículo",
disse a VEJA o chileno Salvador Valdés, da Universidade
Católica do Chile, especialista em questões
trabalhistas internacionais. Essa medida modesta, contudo,
é uma verdadeira revolução para os padrões
sociais da França.