Nova denúncia derruba ministro
de Lula e atribui a tucanos a paternidade do valerioduto
Alexandre
Oltramari
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Rafael Neddermeyer, Sergio Lima/Folha Imagem
Apontado
como um dos mentores do esquema de arrecadação de fundos, Mares
Guia caiu
O escândalo
do mensalão, que veio a público há dois anos e meio, continua
produzindo baixas no governo e revelando reputações fora dele. Na
semana passada, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza,
denunciou à Justiça quinze pessoas sob a acusação
de peculato e lavagem de dinheiro nas eleições ao governo de Minas
Gerais em 1998. Um dos denunciados é o ministro de Relações
Institucionais, Walfrido Mares Guia, que pediu demissão na quinta-feira
ao presidente Lula assim que o caso foi divulgado. Outro acusado ilustre é
o senador tucano Eduardo Azeredo, candidato derrotado do PSDB ao governo de Minas
e principal beneficiário das fraudes relatadas ao Supremo Tribunal Federal
(STF) pelo procurador. Classificados na denúncia como "ávidos
por recursos", os dois foram acusados de utilizar os serviços do lobista
Marcos Valério para desviar verbas públicas, lavar o dinheiro e
aplicar o butim na campanha de Azeredo, da qual o agora ex-ministro foi um dos
coordenadores. O procurador afirma na denúncia que o esquema foi "a
origem e o laboratório" do mensalão petista. Embora em grau
e proporções diferentes, PSDB e PT, assim, se tornaram sócios
na Justiça da mesma tecnologia de fraude e desvio de dinheiro público.
A
denúncia ainda precisa ser recebida pelo STF para que Mares Guia, Azeredo
e companhia se tornem réus em um processo criminal, mas o estrago político
já foi feito. Mares Guia era o principal articulador político de
Lula no Congresso Nacional, onde o governo sua para aprovar a prorrogação
da CPMF, que garantirá uma receita de 40 bilhões de reais por ano
até 2011. Em sua carta de demissão, o ministro diz que a acusação
é injusta e improcedente. Ele afirma que deixa o cargo para evitar que
um assunto alheio ao governo cause embaraços ao presidente. É pouco
provável que cessem os embaraços federais com o mensalão,
seja ele petista, seja tucano. José Dirceu, como se sabe, foi alvejado
por Roberto Jefferson em 2005. Mares Guia, portanto, é o segundo articulador
político do governo abatido pelo envolvimento com as estripulias de Marcos
Valério e pode não ter sido o último. Para o lugar
dele, Lula convocou o deputado federal José Múcio, do PTB de Pernambuco.
Múcio é um experiente negociador, e, como líder do governo
na Câmara, vinha fazendo um trabalho de alta eficiência e resultado.
Ele era líder do PTB na Câmara quando seu colega de partido Roberto
Jefferson denunciou o mensalão e confessou ter recebido 4 milhões
de reais do esquema. No auge do escândalo, parlamentares disseram ter presenciado
a partilha do dinheiro no gabinete de Múcio não se sabe se
ele estava presente feita pelo então tesoureiro do PTB, Emerson
Palmieri. Múcio admite apenas ter ouvido "rumores" sobre o mensalão.
José
Múcio, ex-líder do PTB de Roberto Jefferson, fará a articulação
política: experiência no ramo
A
queda do principal ministro político de Lula não foi comemorada
pela oposição, assim como a acusação contra o senador
tucano não foi comemorada pelo governo. No dia em que realizava sua convenção,
que decidiu quem comandará o partido pelos próximos dois anos, o
PSDB passou boa parte do tempo dando explicações sobre o envolvimento
do senador Eduardo Azeredo com o esquema. Ex-presidente do partido, Azeredo aparece
na denúncia criminal apresentada ao STF pelo procurador Antonio Fernando
numa situação duplamente constrangedora. Ele era governador de Minas
Gerais na época em que o esquema desviou pelo menos 3,5 milhões
de reais de empresas estatais. E, como candidato a reeleição, era
o principal beneficiário da dinheirama que irrigou as arcas clandestinas
de sua campanha. O Ministério Público acredita ter encontrado provas
de que Azeredo permitiu os desvios e ainda se empenhou pessoalmente em dissimular
a origem criminosa dos recursos. Seus correligionários tiveram reações
distintas. "Não tenho dúvida de que ele não teve benefício
pessoal", disse o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, como
se desviar dinheiro para campanha fosse um crime menor. "Quem tem culpa no
cartório paga. Se houver culpa, o que vai fazer? Que assuma a responsabilidade",
afirmou o ex-presidente Fernando Henrique. Azeredo se defendeu dizendo que era
apenas candidato a governador e que não tinha como saber o que acontecia
em sua campanha. É a mesma desculpa usada pelo presidente Lula no caso
do mensalão federal, quando ele se disse traído por seus companheiros
de partido.