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Tales
Alvarenga
O bode da esquerda
"Chamar o governo brasileiro de
neoliberal é como apresentar Adam
Smith como o fundador do marxismo"
Não sei o que você
pensa sobre a esquerda, mas sei o que a esquerda pensa sobre você.
A esquerda pensa que você acredita em qualquer lorota. Na
semana passada, apareceu um novo culpado pelo achincalhamento petista.
O problema, segundo essa nova interpretação, não
é roubalheira do PT. O pecado original foi a cúpula
do PT ter aderido à direita. Veja o que escreveu um dos papas
da sociologia brasileira, o ex-petista Francisco de Oliveira: "O
'escândalo' maior não reside na revelação
das 'mutretas' escandalosa não é a desconstrução
do PT, é a construção da vitória de
Lula e de seu governo em bases neoliberais". No capitalismo contemporâneo,
acrescenta Francisco de Oliveira, o Estado não governa para
a sociedade. Curva-se aos interesses econômicos e faz a sociedade
curvar-se com ele.
A academia fugiu da escola. Os
professores não sabem mais do que estão falando. O
neoliberalismo prega a redução do Estado na economia
e na sociedade e uma ampla abertura ao exterior. O Estado, para
ser neoliberal, deveria cuidar só da Justiça, polícia,
Exército, diplomacia, arrecadação de impostos
e mais uma ou duas tarefas típicas do ente governamental.
Isso não é o que se vê no Brasil.
O oposto do neoliberalismo é
o Estado forte que nada concede ao mercado. Alguns dos mais extremados
expoentes dessa categoria são os modelos cubano e norte-coreano,
além dos sistemas implantados no século passado por
Stalin, Mao, Pol Pot e Hitler. Pode-se ter certeza de que o professor
Francisco de Oliveira, sumidade em seu campo de estudo, não
está sugerindo que o Brasil siga esses exemplos. Frei Betto,
o guia espiritual de Lula, acha que o Brasil deveria mirar-se no
exemplo de Fidel Castro, mas Frei Betto não é nenhum
Francisco de Oliveira. Então, o que estaria pregando o eminente
sociólogo da USP? Um Brasil, por assim dizer, capitalista
mas nem tanto?
Informo aos detratores da utopia
neoliberal, como Francisco de Oliveira, que o Brasil é um
dos países menos neoliberais do mundo. Há formas objetivas
de medir isso. O governo brasileiro, fechado e centralizado, se
apossa de 36% do PIB em impostos. Toma para si 68% da poupança
destinada ao crédito no país. Tem a mais alta carga
de juros do planeta. É um dos países mais burocratizados
do mundo. Cobra 100% de encargos sobre os salários dos trabalhadores,
contra 9,5% no Chile. "Em 2003, o Brasil foi o sétimo país
com menor fluxo de comércio e o terceiro com menores importações,
como proporção do PIB, de um conjunto de 145 países",
escreve Armando Castelar Pinheiro, economista do Ipea.
Num levantamento deste ano sobre
o grau de liberdade econômica feito pelo Instituto Fraser,
do Canadá, o Brasil aparece como um dos menos livres do mundo,
em 88º lugar, numa lista encabeçada por Hong Kong, o
mais aberto, Cingapura, Nova Zelândia, Suíça
e Estados Unidos. O Brasil, no fim do ranking, é mais fechado
do que a China comunista e a Índia, de tradição
socialista. Chamar o governo brasileiro de neoliberal é como
apresentar Adam Smith como o fundador do marxismo. E, para não
perder o fio da meada, o mal do PT não foi o neoliberalismo.
Foi roubalheira mesmo.
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