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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro Por
falar em pizza "Como vamos fazer uma operação
'mãos limpas' se as mãos da classe média estão sujas? Se tivermos uma operação
mãos limpas, as nossas elites deverão ser as primeiras a entrar na faxina"
Estava sozinho
na minha mesa da pizzaria. Inevitavelmente, bisbilhotava as conversas da família
na mesa ao lado. Estavam indignados com o mensalão e outras manifestações
de corrupção e desonestidade da nossa classe política.
A conversa mudou.
O médico e professor narrava um episódio em que discutira com um
amigo ou parente acerca de um atestado médico para justificar faltas ao
trabalho. Deu um por três dias, mas a pessoa queria para a semana toda.
O atestado afirmava que o paciente tinha um caso de conjuntivite. Para dar mais
credibilidade, receitou também um colírio, mas advertiu que não
era para usar, já que não tinha nada no olho. Ilustração
Ale Setti
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A
conversa saltou da indignação, diante das estripulias do PT, para
o riso, no caso do atestado. Não parece haver ocorrido a nenhum dos presentes
que tanto o escândalo do mensalão quanto o atestado falso são
casos claros de roubo. Quem recebe o atestado está roubando dinheiro da
empresa, e quem o dá é cúmplice do roubo. Não é
menos que isso, não é menos roubo. Não é o roubo in
extremis, para sobrevivência, o único perdoável. Ali eram
todos de classe média. A
cola é roubo de conhecimento, para passar sem saber, isto é, enganar
o sistema de controle de qualidade da escola. Quem cola está fraudando
a meritocracia da escola, em que a nota é a recompensa pelo esforço
de estudar e aprender. Professor
que não dá aula na hora em que deveria dar está roubando
tempo do Estado e do aluno, pois tempo é o que compra o seu salário.
Professor de tempo integral na universidade pública que não cumpre
seu horário de permanência está roubando dinheiro (= tempo)
do erário público. O que faz esse mesmo professor quando a sua empregada
não cumpre seus horários? Quando
o pivete rouba a bolsa da nobre senhora é crime sem perdão. Quando
a empregada leva a comida da casa da patroa é fraqueza de caráter
dos pobres. Mas não se fala em roubo quando a madame ou seu marido deixam
de pagar os impostos devidos, subornam o guarda para não pagar multa, fazem
contrabando ou subfaturam compras. É como se roubar do Estado não
fosse crime (mas o próprio Estado induz à sonegação,
criando impostos que levariam à falência muitas empresas pequenas,
se elas fossem pagá-los). Como
vamos fazer uma operação "mãos limpas" se as mãos
da classe média estão sujas e ela não vê a diferença
entre atestado falso, roubo de tempo, superfaturamento e desfalques em estatais?
Quando são os pobres ou os ilustres parlamentares, é crime. Quando
é o cidadão ou sua família, é o jeitinho, é
a vitória da astúcia sobre o sistema. Se tivermos uma operação
mãos limpas, as nossas elites deverão ser as primeiras a entrar
na faxina. Além
do desencanto e revolta, de extraordinária importância, há
pelo menos dois resultados pouco auspiciosos desse relativismo moral. Na operação
da economia, é preciso desviar enormes recursos para controlar e fiscalizar.
São recursos que poderiam gerar riquezas, mas que são usados para
impedir que um roube do outro. Como entenderam os países protestantes (que
têm os menores níveis de corrupção), honestidade vira
riqueza. Outra
conseqüência péssima é que as regras de funcionamento
do serviço público se tornam restritivas e travadas, na vã
tentativa de impedir a malversação de recursos e os desfalques.
As proteções são frágeis e facilmente contornadas
pelos pilantras. Mas, na ânsia de proteger os cofres públicos de
uns poucos desonestos, acabam por impedir a máquina governamental de cumprir
seu papel. Qualquer administrador público em Brasília sabe muito
bem: ou se arrisca, operando na margem da legalidade, ou quase nada poderá
fazer. Uma
loja de departamentos americana muito bem-sucedida a Nordstrom distribui
aos funcionários um cartão com seu código de conduta para
todos os assuntos da empresa. O texto é breve: "Em caso de dúvida,
use o bom senso". Pena que o nosso serviço público não possa
receber um tal cartão, pois os regulamentos impedem o uso do bom senso.
Claudio de Moura Castro é economista (claudiodmc@attglobal.net) |