|
|
Televisão
Em Roma, como os romanos Autenticidade
e audácia são as armas com que a série da HBO quer renovar
o épico 
Isabela Boscov
Fotos divulgação  | ção
 | | Júlio
César (Hinds) encerra sua campanha na Gália: o império do ponto de vista do poder
e também da plebe, personificada pelos legionários Tito e Lúcio (à dir.)
|
Enquanto
suas escravas cirzem ou abanam leques ao pé de sua cama, Atia, sobrinha
de Júlio César, transa vigorosamente com um mercador de cavalos
e, antes que tudo termine, já garantiu um abatimento no preço
de uma belíssima montaria para mandar de presente ao tio, que está
terminando uma longa campanha na Gália, e assim garantir também
os seus favores. A exemplo de outras produções da HBO, como Família
Soprano, Deadwood ou Angels in America, a série Roma,
que estréia no próximo dia 9, às 22 horas, não é
de recorrer a meias-palavras ou sugestões veladas, nem muito menos de se
acovardar diante da complexidade de seu tema. Capturada entre 52 a.C. e 44 a.C.
os anos que abrangem a audaciosa tomada de poder por César até
seu assassinato , esta não é uma Roma de ideais elevados e
togas imaculadas. De um momento de prazer na cama a um complô no Senado,
tudo aqui é regido pela política, pelo interesse mercantil ou pela
mera necessidade de assegurar a sobrevivência num mundo em transformação
veloz algo que o espectador moderno entende até melhor do que gostaria.
Nos doze capítulos dessa primeira
temporada (já foi dado o sinal verde à produção de
uma segunda), a Roma de César parece ao mesmo tempo mais autêntica
e mais contemporânea do que nunca: o mármore branco de sua fabulosa
arquitetura se espraia em vielas e cortiços, a beleza das roupas vai só
até a barra enlameada pelo caminhar nas ruas imundas, e patrícios
e plebeus não vivem na tranqüilidade de uma ordem social preestabelecida,
mas em sobressalto mútuo e constante. Trata-se, enfim, de uma metrópole
muito semelhante às atuais do Terceiro Mundo. Esse, aliás, é
o aspecto realmente inovador da série. Quem conduz o olhar do espectador
não são os poderosos, mas dois homens saídos da plebe: os
legionários Lúcio Voreno (Kevin McKidd), um centurião caxias,
e Tito Pullo (Ray Stevenson), um soldado cafajeste. Unidos por uma circunstância
fortuita o resgate do garoto Caio Octávio (Max Pirkis), filho de
Atia, que virá a se tornar o imperador Augusto , Lúcio e Tito
retornam a Roma depois de mais de uma década de guerra na Gália
com um duplo desafio. Primeiro, encontrar seu caminho num mundo que já
não reconhecem mais; segundo, sobreviver ao fato de terem sido lançados
no centro dos tumultuosos acontecimentos do período.
Divulgação  |
| Polly, como a calculista Atia, e Purefoy, como Marco
Antônio: uma Roma sem ideais elevados | Roma
estreou nos Estados Unidos em 28 de agosto, com bons índices de audiência.
Mas, mesmo para a gigante da televisão paga HBO, a série representa
um risco considerável. Desde Gladiador, a paciência da platéia
vem sendo testada em uma fiada de épicos históricos decepcionantes,
como Tróia e Alexandre. É preciso, portanto, persuadi-la
de que Roma oferece algo inédito (e oferece, reconheça-se).
A essa dificuldade soma-se outra a do volume do investimento. Ao custo
de 100 milhões de dólares, a primeira temporada da série
é a mais cara da história da televisão (perde apenas para
Band of Brothers, também da HBO, uma série fechada em dez
capítulos, que consumiu 125 milhões). É fácil ver
onde esse dinheiro todo foi parar. Os sets construídos nos estúdios
da Cinecittà, em Roma, são os maiores em funcionamento no mundo.
Espalhados por uma área de 2 hectares, incluem desde prostíbulos
toscos e latrinas públicas até réplicas em escala de dois
para três do Fórum, do Senado e do Templo de Júpiter. As peças
de algodão, linho e seda usadas nos quase 4.000 figurinos foram importadas
da Índia e tingidas a mão, uma a uma, para reproduzir a rusticidade
da tecelagem da época. Como numa produção de cinema de primeira
linha, todos os objetos de cena foram especialmente confeccionados inclusive
as moedas de denários, cunhadas no Vaticano. "Cada episódio de Roma
equivale a um filme", disse o ator Ray Stevenson à revista Newsweek.
"A diferença é que nós somos melhores e levamos três
dias, não duas semanas, para fazer uma tomada complicada", ironiza.
A produção impecável,
porém, é apenas um dos pontos do tripé em que a HBO apóia
seu imenso sucesso. Os outros dois, ainda mais relevantes, são a excelência
dos roteiros e a qualidade das interpretações. Há cerca de
uma década, a rede transformou seus métodos. Sua cúpula hoje
não se dedica a guiar e supervisionar o trabalho dos roteiristas, mas a
garantir que a visão deles seja transferida na íntegra para a tela.
Como não é financiada por publicidade, mas, sim, pelos seus 27 milhões
de assinantes (isso só nos Estados Unidos) e pelos números assombrosos
da venda de seus produtos em DVD, a rede pode se dar a esse luxo, e o aproveita
ao máximo. É comum que novas temporadas de suas séries mais
populares, como Família Soprano, sejam adiadas por prazo indeterminado,
até que os autores se sintam satisfeitos com o que está na página.
Bruno Heller, o roteirista de Roma, trabalhava no projeto desde 1998
uma latitude impensável na televisão aberta.
A HBO tem sido regiamente compensada por sua ousadia. Estima-se que, em 2004,
tenha apresentado um lucro (frise-se: lucro, não faturamento) de 1 bilhão
de dólares, um recorde jamais igualado por nenhuma rede americana de televisão
aberta. Ela se tornou, além disso, uma verdadeira devoradora de prêmios,
e por isso não tem dificuldade em atrair talento. Seus testes de elenco
para Roma, por exemplo, foram realizados ao mesmo tempo que os de outra
série com a mesma premissa a malsucedida Empire, que a rede
ABC exibiu alguns meses atrás. A HBO saiu vencedora em todos os páreos.
De Ciarán Hinds (Júlio César) a James Purefoy (Marco Antônio)
e os excelentes Max Pirkis e Polly Walker (que brilha como Atia), seu elenco reúne
vários dos nomes mais cobiçados do teatro e da televisão
ingleses. Muito mais do que vestir uma toga de forma convincente, o que se exige
deles é dar carne e sangue à filosofia que norteia todas as produções
bem-sucedidas da rede: a de que o drama da história só se realiza
plenamente quando vivido no íntimo de um personagem. Graças a esse
apuro, as maquinações de Pompeu Magno (Kenneth Cranham) para trair
seu antigo aliado César resultam tão cheias de risco e tensão
quanto os entrechos mais comezinhos como o inferno conjugal que o centurião
Lúcio Voreno experimenta ao reencontrar, como estranha, a mulher por quem
fora apaixonado uma década antes. Do Senado às mansões e
aos cortiços, o que não falta em Roma é drama.
| Um caso de amor e ódio
AFP  | Divulgação
 | | A
Roma americana: forte mas também devassa, como em Calígula (à esq.),
e corruptora de valores, como em Gladiador | O
produtor americano olha a fantasia do garçom que o serve, numa visita a
Roma, e desdenha: o padrão da toga não era romano, mas grego. A
blague de A Doce Vida é o comentário do italiano Federico
Fellini sobre a fixação de Hollywood por Roma de tanto admirá-la,
tornaram-se mais realistas que os próprios reis. Roma sempre foi a imagem
que todos aqueles que aspiram a ser império desejam ver no espelho. É
natural, assim, que o cinema, o braço cultural mais forte da potência
em que os Estados Unidos se constituíram no pós-guerra, tenha tantas
vezes se debruçado sobre os césares. O que há de curioso
nessa corte é a ambivalência que sempre a sublinhou. Ao mesmo tempo
em que se inebria em reproduzir as demonstrações do poderio romano
as legiões, os louros e a democracia , Hollywood sempre traiu
também a aversão pelos seus aspectos mais insalubres. Roma, no cinema
americano, é a algoz do monoteísmo judeu e cristão (por exemplo,
em Ben-Hur), o centro do qual emanavam crueldade e devassidão (como
em Calígula, dirigido pelo italiano Tinto Brass mas financiado por
Bob Guccione, dono da revista masculina Penthouse), e o império
que corrompeu a santidade do poder ao se viciar nas seduções fáceis
do entretenimento e da massificação (na visão pós-moderna
de Gladiador). Pode-se dizer que, aos olhos dos americanos, Roma contém
simultaneamente sua maior ambição o "destino manifesto" de
liderar entre os líderes e seu maior temor: a subversão dos
valores puritanos. Roma, a série, não se furta também
a ser metáfora dos Estados Unidos, mas o faz com considerável sofisticação.
Este é um império que, em sua sanha de se expandir, perdeu seu centro
moral e a órbita que ele passará a descrever só pode
ser, portanto, trágica. | | |