Edição 1924 . 28 de setembro de 2005

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Livros
A marca da suástica

Em seu novo livro, Philip Roth subverte
a história ao montar um cenário em que
os Estados Unidos se aliam à Alemanha
nazista contra os russos – e os judeus


Carlos Graieb


Sara Krulwich/The New York Times
Roth: Roosevelt derrotado nas urnas

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Trecho do livro

Philip Roth é um cara-vermelha. O termo remete a uma célebre classificação dos escritores americanos, feita na linguagem do bangue-bangue. De um lado encontram-se os caras-pálidas. De outro, os peles-vermelhas. Os primeiros são autores como Henry James, cheios de tato e refinamento. Os segundos são da estirpe de Mark Twain, mais vibrantes e agressivos. Um cara-vermelha é um mestiço: alguém que tenta conciliar essas maneiras antagônicas de ver o mundo e escrever sobre ele. Há mais de quarenta anos, é isso o que Roth tem feito – com enorme sucesso. São dele algumas das páginas mais desvairadas e ultrajantes da ficção contemporânea, e também algumas das mais sutis. Nos Estados Unidos, o autor acumula todas as homenagens literárias possíveis. Aos 72 anos, começa a ter sua obra editada pela Library of America, a coleção que define os clássicos daquele país. No Brasil, porém, Roth sempre contou com um número modesto de leitores. A situação bem que poderia mudar com o lançamento de Complô contra a América (tradução de Paulo Henriques Britto; Companhia das Letras; 488 páginas; 56,50 reais). O romance tem elementos típicos de um livro de Roth: a dissecação das relações familiares num microcosmo judeu, por exemplo, ou a exploração irônica da vida pública americana. O bônus se encontra no mote engenhoso da história: e se, no começo da II Guerra Mundial, os Estados Unidos houvessem eleito como presidente um simpatizante do nazismo?

Em entrevista a VEJA, Roth disse que a idéia para Complô contra a América nasceu com a descoberta de que, às vésperas das eleições americanas de 1940, certos grupos do Partido Republicano tentaram viabilizar a candidatura presidencial do aviador Charles Lindbergh, o primeiro homem a cruzar o Atlântico num vôo-solo. Lindbergh era uma figura magnética, graças a seus feitos aéreos e a uma tragédia pessoal, o rapto e morte de seu filho pequeno. Ele também defendia uma tese que gozava de legitimidade no debate político da época: a de que os Estados Unidos deveriam se manter fora da guerra que devastava a Europa. As máculas em sua biografia eram o anti-semitismo e um laço escuso com o regime de Adolf Hitler, de quem ele aceitou uma condecoração no fim dos anos 30. A candidatura de Lindbergh jamais decolou. No livro de Roth, o aviador entra na disputa e inflige uma derrota amarga a Franklin Delano Roosevelt (o presidente eleito na história real). A conseqüência política, no fronte externo, é a assinatura de um pacto de não-agressão entre os Estados Unidos e os países do Eixo. Internamente, enquanto isso, começa a ganhar força uma ameaça contra os judeus americanos. Entre eles, a família do menino Philip.

Há curiosos retratos de figuras históricas em Complô contra a América, mas eles nascem das memórias de um narrador que as conheceu, na infância, por intermédio do rádio, dos jornais, dos noticiários cinematográficos, das conversas à mesa de jantar. Esse não é o tipo de romance que leva o leitor para os bastidores da política, muito menos para dentro da cabeça dos "grandes personagens". Um livro de Gore Vidal seria assim – mas não um de Philip Roth. Característico do autor é colocar a si próprio no centro da trama. "Eu já tinha o ponto de partida, mas o livro só começou a funcionar realmente quando imaginei meus pais, meu irmão mais velho e a mim, criança, naquele ambiente de tensão", diz ele. Essa duplicação de si mesmo e de seus familiares é abundante nos livros de Roth. Em alguns, como Patrimônio, que fala da velhice de seu pai, ele se manteve próximo dos fatos. Em outros a invenção é delirante. Operação Shylock não tem apenas um, mas dois Roths, um "verdadeiro" e um "impostor" cuja bandeira é desmontar o Estado de Israel. Em Complô contra a América, o autor trabalha com o meio-termo: é fiel ao caráter das pessoas, embora a situação seja irreal. Além disso, a família judia da cidade de Newark, formada por um vendedor de seguros cheio de princípios, uma dona-de-casa dedicada e dois garotos exemplares, reaparece, com diferentes graus de disfarce, nos oito livros em que figura Nathan Zuckerman, o mais constante alter ego (ou "alter cérebro", como ele disse certa vez) do escritor. O jogo de espelhos com duplos ficcionais já causou muita confusão entre os leitores de Roth. É um dos pilares de sua literatura. Para ele, escrever romances é realizar uma espécie de "inquirição imaginativa" da realidade. Como seria o mundo se isso acontecesse? Como seria eu mesmo, se aquela circunstância fosse diferente?

Em anos recentes, Roth passou a dedicar grande atenção à história americana. Antes de Complô contra a América, escreveu uma trilogia de romances em que explora o macarthismo dos anos 50 (Casei com um Comunista), a Guerra do Vietnã (Pastoral Americana) e o escândalo sexual do presidente Bill Clinton (A Marca Humana). "Foram momentos de grande impacto para pessoas de minha geração, momentos de turbulência nos quais a substância moral do país se tornou, de certa forma, palpável", diz ele. É possível detectar nesses livros o desprazer de Roth com vários aspectos da vida pública americana – as manifestações de truculência política, as exibições de santimônia, os flagrantes de hipocrisia moral. Mas os romances não permitem concluir que este seja um escritor com uma visão puramente negativa de seu país. O mesmo vale para Complô contra a América. Roth se lembra da atmosfera dos anos 30, no que diz respeito à questão racial. "O anti-semitismo era uma presença real e ameaçadora. A verdade, porém, é que as instituições do país jamais permitiram que essa ameaça ganhasse uma feição mais concreta", diz ele. Ao final, as instituições americanas também resistem no romance – embora fique a sugestão de que elas são vulneráveis a arranhões. Tentar extrair de Roth qualquer comentário político mais direto é inútil. "Meu modo de me expressar é pela ficção. Meus livros não têm objetivos ulteriores, virtuosos ou não", diz ele. Roth insiste que sua ambição sempre foi ser apenas e tão-somente isto: escritor. No caso de um artista desse naipe, para que, realmente, pedir mais?

 

O aliado alemão

"Em 1941, o pacto teuto-soviético de não-agressão – assinado dois anos antes por Hitler e Stalin – foi rompido quando Hitler ousou empreender a conquista do imenso território que se estendia da Polônia pela Ásia adentro. O presidente Lindbergh falou à nação e surpreendeu até meu pai pela maneira franca como elogiou o Führer: 'Com este ato, Adolf Hitler se afirma como a maior defesa do mundo contra a disseminação do comunismo. Se tivéssemos permitido que nossa nação fosse arrastada para esta guerra mundial do lado de Grã-Bretanha e França, nossa grande democracia estaria agora aliada ao regime malévolo da União Soviética. É bem possível que o Exército alemão esteja lutando hoje numa guerra em que, não fosse ele, caberia aos soldados americanos lutar'."

Trecho de Complô contra a América

 

Vôo da imaginação

Em Complô contra a América, Philip Roth especula como seriam os rumos da II Guerra Mundial se o aviador Charles Lindbergh – um notório anti-semita – tivesse sido eleito presidente dos Estados Unidos em 1940

A HISTÓRIA REAL

Reeleito para um terceiro mandato em novembro de 1940, Franklin Delano Roosevelt não entra imediatamente na guerra, mas apóia os esforços da Inglaterra na luta contra a Alemanha nazista

O Japão ataca Pearl Harbor, no fim de 1941, e os Estados Unidos entram na guerra

Seria impensável que Roosevelt recebesse um alto dignitário nazista na Casa Branca depois de ter declarado guerra à Alemanha


A FICÇÃO DE PHILIP ROTH

Charles Lindbergh derrota Roosevelt nas urnas, com a promessa de manter os Estados Unidos fora da guerra. Logo depois da posse, viaja para a Islândia, para assinar um pacto de não-agressão com a Alemanha de Hitler

O ataque a Pearl Harbor nunca acontece, pois Lindbergh firma um pacto de não-agressão também com os japoneses

Em 1942, Lindbergh recebe o ministro das Relações Exteriores nazista, Joachim von Ribbentrop, para um jantar de gala na Casa Branca

 

 
 
 
 
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