Edição 1924 . 28 de setembro de 2005

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Religião
O teste da batina

O Vaticano quer impedir gays
de virar padres para combater
casos de abuso sexual

Michael Dwyer/AP
O padre Geoghan, acusado de molestar 130 crianças nos Estados Unidos: proteção da Igreja


A Igreja Católica decidiu adotar uma medida extrema para inibir os escândalos sexuais envolvendo padres: dificultar a ordenação de homossexuais. A decisão já foi tomada pelo papa Bento XVI, de acordo com fontes do Vaticano, mas só deve ser anunciada oficialmente nas próximas semanas. Como parte da nova política, a ser aplicada em todo o mundo, uma equipe de religiosos será enviada pelo Vaticano para investigar cada um dos 229 seminários dos Estados Unidos em busca de "indícios de homossexualismo". A intenção é entrevistar cada um dos 4.500 seminaristas e submetê-los a um questionário de cinqüenta perguntas, no qual deverão expor sua opção sexual e sua opinião sobre o celibato. As novas regras determinam que sejam excluídos todos os seminaristas que admitam ser homossexuais, mesmo que se comprometam a manter a castidade. "A questão são as tentações específicas dos seminários, em que só há homens", diz o padre Robert Silva, presidente da Federação dos Padres Americanos. Diferentemente dos seminaristas, os padres não serão expulsos, desde que respeitem o voto de castidade. Padre Silva diz que membros importantes da hierarquia católica americana estão tentando dissuadir o Vaticano de divulgar o documento, sob o argumento de que iria criar mais problemas do que soluções entre o clero.

A Igreja Católica considera o homossexualismo uma depravação grave. Um documento do Vaticano, de 1961, recomenda que seminaristas com "inclinações perversas à homossexualidade ou à pederastia" não sejam ordenados padres. A Igreja Católica nos Estados Unidos nunca seguiu à risca ou de modo uniforme essa determinação. Em muitos seminários não há restrição para candidatos a padres que admitem abertamente ser gays. Não é apenas por isso que os seminários americanos estão recebendo atenção especial do Vaticano. Uma enxurrada de denúncias de abusos sexuais envolvendo sacerdotes, sobretudo casos de pedofilia, mergulhou a Igreja Católica dos Estados Unidos na maior crise de sua história.

Só no ano passado, foram 1.092 acusações contra 756 padres. A maioria dos casos tinha ocorrido anos antes, mas só agora as vítimas tiveram coragem de denunciar os sacerdotes. Boa parte dos processos foi resolvida com o pagamento de indenizações, que custaram à Igreja 1 bilhão de dólares. Pior para o prestígio da Igreja foram as revelações de que no passado muitos padres acusados usufruíram a proteção de bispos e cardeais e, em muitos casos, a única punição foi a transferência para outra paróquia. Esse foi o caso do padre John Geoghan, finalmente condenado pelo abuso de 130 crianças.

 
 
 
 
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