Edição 1924 . 28 de setembro de 2005

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Doação de órgãos: a vida de presente

Transplantes aumentam 10% ao ano.
A fila de necessitados cresce muito mais


Selo de uma campanha de doação: em alta no Brasil

Um levantamento inédito da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, com divulgação prevista para 27 de setembro, Dia Nacional do Doador de Órgãos, mostra que o número de doadores e transplantados cresce ao ritmo de 10% ao ano. Espera-se que 15000 transplantes ocorram em todo o país em 2005. O crescimento se deve à relutância cada vez menor das famílias de pessoas com morte encefálica a autorizar doações. Hoje, de cada quatro famílias, apenas uma recusa a doação. Mas a fila de pacientes à espera de órgãos, em vez de diminuir, aumenta – reflexo do acesso cada vez maior da população carente aos transplantes. A cada mês, 1100 pacientes saem da lista de espera porque conseguem um doador, enquanto entram 2300 novos candidatos. Há 63000 pessoas aguardando algum tipo de transplante em todo o país. "Ainda é preciso melhorar a notificação de possíveis doadores", explica Roberto Schlindwein, coordenador do Sistema Nacional de Transplantes do Ministério da Saúde. Estima-se que, de cada duas mortes de potenciais doadores, só uma seja notificada às centrais estaduais de transplantes.

Nos últimos quatro anos, 1 600 coordenadores foram treinados para atuar em hospitais na detecção de possíveis doadores, consultando também as famílias e encaminhando o processo de doação. O modelo foi copiado da Espanha, um dos países mais eficientes na área de transplantes. No Brasil, em todos os tipos de necessidade, já há filas únicas, por estado. O atendimento obedece a critérios de compatibilidade anatômica, sanguínea e genética. Os médicos também levam em conta a urgência do caso, como um transplante de fígado diante de uma hepatite fulminante. Nessa hipótese, quem solicita a passagem para o topo da fila é o médico da equipe de transplante que trata o paciente e quem a autoriza é a central estadual.

Este guia responde às perguntas mais comuns de potenciais doadores e seus parentes e de candidatos a transplantes. A hora de decidir sobre doar ou não os órgãos após a morte de alguém da família é um momento de muitas dúvidas. O diretor da Unidade de Transplante do Hospital do Rim e Hipertensão, de São Paulo, José Medina Pestana, esclarece algumas das principais no quadro abaixo.

 

COMO TER CERTEZA DE QUE HOUVE MORTE ENCEFÁLICA?
O conceito de morte encefálica é bem estabelecido. Ela é comprovada por testes clínicos, como a checagem de reação à dor, ao calor e ao frio, complementados por eletroencefalograma, arteriografia, angiografia cerebral, entre outros exames. Pelo menos um dos médicos deve ser neurologista, e nenhum deles pode fazer parte da equipe que realizará o transplante.  

É PRECISO QUE A INTENÇÃO DE DOAR SEJA DOCUMENTADA?
Não é necessário nenhum registro em documento. Basta deixar a família avisada. Ela vai considerar isso como último desejo e autorizar a doação.  

QUAIS PARTES DO CORPO PODEM SER DOADAS APÓS A MORTE?
Coração, pulmões, fígado, rins, pâncreas, pele, ossos, córneas, tendões, veias, medula óssea, cartilagens e até mesmo uma estrutura completa (mão, por exemplo). Um único doador, teoricamente, pode ajudar 25 pessoas.  

QUEM NÃO PODE SER DOADOR?
As vítimas de doenças infecciosas, transmissíveis ou câncer generalizado.  

PODE-SE ESCOLHER QUEM SERÁ O RECEPTOR DOS ORGÃOS?
Na doação em vida, sim (veja texto). Na doação após a morte, a família não pode escolher. São obedecidos os critérios de compatibilidade e de urgência, conforme a fila coordenada pelas secretarias estaduais de Saúde.  

QUEM ARCA COM OS CUSTOS DA DOAÇÃO?
Todas as despesas são pagas pelo Sistema Único de Saúde.

O CORPO DEMORA PARA SER LIBERADO?
O processo de documentação da morte encefálica e a retirada dos órgãos levam de doze a dezesseis horas.  

A RETIRADA DOS ORGÃOS DEFORMA O CORPO?
Não.  

QUE ÓRGÃOS PODEM SER DOADOS EM VIDA?
Fígado, medula óssea, pâncreas, rim e até mesmo pulmão. Os textos da página seguinte explicam essas doações em detalhes.

 

Editado por André Fontenelle. Colaborou Bianca Piragibe

 
 
 
 
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