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Medicina Diabetes O
início de uma revolução Os
médicos aprofundam o conhecimento sobre as
causas da doença e novos tratamentos já estão em desenvolvimento
 Paula
Neiva, de Atenas Fabiano
Acorsi
 | "No
início do tratamento do diabetes, não queria aceitar as injeções
de insulina. Achava muito drástico. Mas tive de aceitar e cheguei a tomar
cinco injeções por dia. Era uma situação muito incômoda
não só pelas picadas, mas também pelo constrangimento
de fazer a aplicação em público. Com a insulina inalável,
minha vida mudou. Consegui controlar a glicemia como jamais havia conseguido.
Isso ajudou também a controlar os níveis de triglicérides
e de colesterol." Milton Lopes
Bertolotti, empresário, de 46 anos,
vítima do diabetes desde os 28 |
Uma revolução
está em curso no tratamento do diabetes. Não se via nada igual desde
1921, quando os pesquisadores canadenses Frederick Banting e Charles Best isolaram,
pela primeira vez, o hormônio insulina em laboratório. Medicamentos
mais potentes, eficazes e seguros prometem mudanças drásticas na
qualidade de vida dos doentes. Pesquisas na área da biologia molecular
possibilitam um mergulho cada vez mais profundo na fisiopatologia do mal
ou seja, em suas origens, sobretudo no que diz respeito à relação
do diabetes com os distúrbios cardiovasculares. "É o início
de uma nova era", disse a VEJA o médico Nick Freemantle, professor de epidemiologia
clínica da Universidade de Birmingham, na Inglaterra. O entusiasmo era
um sentimento comum aos participantes do último congresso da Associação
Européia para o Estudo do Diabetes, que reuniu recentemente, em Atenas,
os principais estudiosos do assunto. O diabetes é uma doença crônica
grave e em franca ascensão. Em 2025, os 170 milhões de doentes de
hoje devem chegar a 300 milhões. Apesar da alta taxa de mortalidade em
decorrência do problema, a adesão ao tratamento é baixíssima.
No Brasil, por exemplo, apenas 20% dos pacientes diagnosticados seguem as orientações
médicas à risca. "Um dos aspectos mais importantes das novas terapias
é que elas possibilitam também que esse triste cenário seja
revertido", completa Freemantle. O diabetes se
caracteriza por um defeito no metabolismo da glicose, um tipo de açúcar
que serve de combustível para os mais de 100 trilhões de células
do corpo humano. Para entrar em cada uma delas e fornecer a energia necessária
para a manutenção da boa saúde, é necessária
uma chave, o hormônio insulina. Na falta completa ou parcial dele, a glicose
não tem como entrar nas células e fica concentrada no sangue. Surge
então o diabetes. Há duas versões da doença. O tipo
1, embora menos comum, é o mais agressivo. Por uma falha nas defesas do
organismo, as células do sistema imunológico destroem as células
produtoras de insulina, as ilhotas de Langerhans, encontradas no pâncreas.
Sem as injeções diárias do hormônio artificial, os
pacientes morrem. O diabetes tipo 2, responsável por 90% dos casos, evolui
de forma silenciosa. No início, o pâncreas mantém a produção
de insulina como de hábito. Com o tempo, porém, as células
adiposas e musculares tornam-se resistentes à ação do hormônio.
Os níveis de glicose no sangue aumentam e, para compensar o excesso desse
açúcar, o pâncreas passa a fabricar mais insulina. Tamanha
é a sobrecarga que o número de ilhotas de Langerhans vai encolhendo,
até o momento em que a secreção de insulina se torna insuficiente
para controlar os níveis de glicose. Por isso, mais cedo ou mais tarde,
os portadores do tipo 2 de diabetes têm de recorrer às injeções
de hormônio sintético. Em cinco anos, metade deles não sobrevive
sem as picadas. O principal motivo para a baixa
adesão ao tratamento são as aplicações de insulina.
"Muitos doentes recusam-se a recorrer às injeções, por se
tratar de um recurso incômodo, doloroso e constrangedor do ponto de vista
social", disse a VEJA a médica americana Marcia Testa, professora de bioestatística
da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard. Um dos maiores
desafios da medicina é justamente dar um fim às agulhadas, por intermédio
de formas alternativas de administração de insulina. Ainda não
se inventou uma versão do hormônio em comprimido que, uma vez ingerido,
resista incólume ao ataque das enzimas gastrointestinais. Mas já
existe tecnologia para fabricar uma insulina inalável. A primeira delas
deve chegar ao mercado em 2006 o Exubera, dos laboratórios Pfizer
e Sanofi-Aventis. Há duas semanas, por 7 votos a 2, um comitê de
especialistas da FDA, a agência americana de controle de remédios
e alimentos, recomendou a aprovação do medicamento. De ação
rápida, o Exubera é indicado para o controle das taxas de açúcar
que se elevam logo depois das refeições. O remédio reduz
à metade o número de picadas diárias. Pode parecer pouca
coisa. Para os diabéticos, no entanto, é uma senhora vantagem (veja
quadros). Num organismo sadio, a insulina
funciona de maneira muito precisa, em perfeita sintonia com a produção
de glicose. Acompanha os altos e baixos das taxas de glicose a que o organismo
está sujeito durante o dia e a noite. Controlar os níveis de açúcar
no sangue com o hormônio artificial, no entanto, é dificílimo.
Se ele é administrado um pouco abaixo do necessário, não
faz nenhum efeito. Acima, pode deflagrar uma crise de hipoglicemia, levar ao coma
e até matar. Por isso, investe-se pesado na criação de uma
insulina que acompanhe as oscilações naturais dos níveis
de açúcar no organismo. Também nesse campo a batalha contra
a doença registra conquistas importantes. Já existem as insulinas
de ação rápida e ultra-rápida, para a regulação
dos níveis de açúcar depois das refeições.
Há ainda as de ação lenta, para os períodos de jejum.
Nesse capítulo, a novidade (recebida com euforia no encontro de Atenas)
foi a insulina detemir, do laboratório Novo Nordisk. Derivada da insulina
humana e batizada comercialmente de Levemir, ela tem como principal vantagem a
previsibilidade de sua ação, o que reduz os riscos de hipo e hiperglicemia.
Em meados da década de 80, chegou-se à
conclusão de que o diabetes é fator de risco isolado para infartos
e derrames. Chegou-se a tal certeza com base em grandes estudos populacionais.
Pela observação dos doentes, constatou-se que a probabilidade de
um diabético ser vítima de um evento desse tipo é até
três vezes maior que a verificada em não-diabéticos. Em outras
palavras, 65% dos diabéticos são vítimas de doenças
cardiovasculares e 80% morrem em conseqüência delas. "Pelo simples
fato de ter diabetes, uma pessoa está automaticamente no mesmo patamar
de risco de alguém com glicemia normal, mas que já sofreu um infarto",
disse a VEJA o cardiologista americano Steven Haffner, uma das maiores autoridades
do mundo no assunto. Em quantidades exageradas, as moléculas de glicose
machucam as artérias, o que facilita o depósito de gordura em suas
paredes. Uma das pesquisas mais surpreendentes sobre o impacto do diabetes sobre
a saúde cardiovascular foi divulgada recentemente o Diabetes
Control and Complications Trial. O trabalho foi patrocinado pelo NIH (Institutos
Nacionais de Saúde dos Estados Unidos) e acompanhou 1.400 diabéticos
tipo 1 durante 22 anos. Ao término da pesquisa, os médicos constataram
que a redução dos níveis de açúcar no sangue
leva a uma queda de 43% na incidência de eventos cardiovasculares.
Hoje já está mais do que claro que os laços entre o diabetes
e as doenças cardiovasculares são muito mais estreitos do que se
supunha. Para se ter uma idéia de quão íntima é essa
relação, basta dizer que a resistência à insulina já
é considerada uma ameaça isolada para o coração. Essa
condição pode preceder em até trinta anos o evento cardiovascular.
Por causa dela, metade dos pacientes já apresenta comprometimento coronariano
no momento do diagnóstico de diabetes. "A produção de insulina
está diretamente relacionada à de óxido nítrico pelas
células da parede interna das artérias. Quando uma baixa, a outra
também baixa. E, com níveis reduzidos de óxido nítrico,
as artérias perdem elasticidade e ficam mais suscetíveis ao entupimento",
diz o endocrinologista Freddy Eliaschewitz, pesquisador do Hospital Heliópolis
e da Universidade de São Paulo. Todo esse estrago, enfatize-se, é
provocado num estágio em que o diabetes ainda nem sequer se instalou.
Uma das descobertas mais importantes é que a gordura visceral a
popular "barriga de chope" está na origem de 90% dos casos de diabetes
tipo 2 associados a distúrbios cardiovasculares. Acumulada na cavidade
abdominal, entre o intestino, o estômago e o fígado, ela é
responsável pela produção de quase duas centenas de compostos
extremamente nocivos a todos os tecidos e órgãos. "A gordura visceral
funciona como uma usina de substâncias tóxicas dentro do abdômen",
diz o cardiologista Raul Santos, diretor da unidade clínica de dislipidemias
do Instituto do Coração, em São Paulo. Entre os efeitos nefastos
da gordura visceral está o aumento da concentração de toda
espécie de gordura no sangue, como os ácidos graxos e os triglicérides,
e de glicose, entre outras substâncias. Ao mesmo tempo, ela provoca uma
queda nas taxas dos compostos protetores das artérias, como o HDL, o colesterol
bom (veja quadro). Com
o aumento da obesidade e do sedentarismo, os "barrigas de chope" estão
em franca expansão. Só no Brasil, eles representam 57% da população
adulta. O tamanho ideal de uma barriga? Pelo menos para efeito de saúde,
recomenda-se que a circunferência da cintura seja inferior a 94 centímetros
para os homens e menor do que 80 centímetros para as mulheres.
A gordura visceral é produto da genética, de
hábitos alimentares muito ruins e do sedentarismo. "A melhor imagem para
um 'barriga de chope' é a figura do homem preguiçoso, sentado por
horas na mesa de um bar, enquanto se entope de calabresa e bebe copos e copos
de cerveja", diz o endocrinologista Daniel Lerário, do Hospital Albert
Einstein, em São Paulo. Devido à pouca quantidade de estrógeno
(o hormônio feminino por excelência), os homens e as mulheres menopausadas
são os principais candidatos à "barriga de chope". A falta de GH,
o hormônio do crescimento, também leva ao acúmulo de gordura
visceral. Por isso, ela é mais freqüente entre os mais velhos. Há
a suspeita ainda de que o cortisol, hormônio liberado em períodos
de stress e depressão, também contribui para a formação
da "barriga de chope". A aproximação
cada vez maior do diabetes e das doenças cardiovasculares tem motivado
a indústria farmacêutica a buscar medicamentos de ação
dupla. Ou seja, que sirvam tanto para o diabetes quanto para as doenças
cardiovasculares. O exemplo clássico é o das estatinas. Criadas
para baixar o colesterol, elas ajudam a reduzir drasticamente a probabilidade
de um diabético vir a sofrer de um distúrbio cardiovascular. No
congresso da Associação Européia para o Estudo do Diabetes
foram apresentados os resultados dos estudos com uma nova classe de antidiabéticos
orais, os glitazares. Primeiro representante da categoria, o muraglitazar (Pargluva,
dos laboratórios Bristol-Myers Squibb e Merck & Co.) se propõe
a aumentar a sensibilidade do organismo à ação da insulina
e, conseqüentemente, baixar as taxas de glicose no sangue. Além disso,
reduz os níveis de triglicérides e incrementa os de HDL, o colesterol
bom. Ou seja, é um antidiabético com características de remédio
para o coração. Endocrinologistas e cardiologistas, uni-vos.
UM OUTRO
TIPO DE DIABETES Os endocrinologistas testemunham
um fenômeno alarmante: o surgimento de uma nova modalidade de diabetes,
que atinge pessoas gordas. Conhecida como diabetes tipo 3, ou duplo, a doença
se caracteriza pela associação dos sintomas das versões 1
e 2 o que torna seu controle bastante difícil. Como no diabetes
tipo 1, o sistema imunológico de suas vítimas ataca e destrói
as células pancreáticas produtoras de insulina. Sem as injeções
de hormônio artificial, esses pacientes não sobrevivem. Ao mesmo
tempo, por causa de gordura, o organismo torna-se resistente à ação
da insulina um quadro típico do tipo 2. Dessa combinação,
nasceu a nova modalidade da doença. Um dado inquietante é que há
registros abundantes de diabetes do tipo 3 na população infantil
que também passou a sofrer de obesidade nos últimos anos.
Em palestra no congresso da Associação Européia para o Estudo
do Diabetes, a médica alemã Dorothy Becker, especialista em endocrinologia
pediátrica do Hospital Infantil de Pittsburgh, revelou que, nos centros
de saúde americanos, de cada três crianças com diabetes tipo
1, pelo menos uma já desenvolveu os sintomas da versão 3.
| | Com
reportagem de Giuliana Bergamo |