Edição 1924 . 28 de setembro de 2005

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Comportamento
Todas querem ser Avril

Dos 9 aos 19, uma legião de meninas de
cabelo escorrido imita a cantora "rebelde"


Laura Ming


Lailson Santos
Victoria e Marina (atrás), as fãs mirins: de escova a maionese para alisar a cabeleira


Houve um tempo em que o mundo das meninas adolescentes se dividia de maneira muito nítida entre duas cantoras: de um lado, as fãs da loira-decotada Britney Spears; de outro, as admiradoras de Avril Lavigne, canadense de carinha enfezada e cabeleira de modelo. Hoje, que Britney é uma senhora acima do peso e semi-aposentada, Avril, aos 21 anos, com a aura de contestação e inconformismo precisamente dosada para conquistar as meninas sem apavorar as mamães, reina soberana no mundo teen. Em sua primeira turnê no Brasil, iniciada na semana passada, Avril passou pelo teste definitivo do sucesso de massas: ela não só tem um tsunami adolescente de fãs, como muitas delas fazem de tudo para ficar idênticas ao modelo original. Se a imitação é a forma máxima de elogio, Avril atingiu o auge.

As meninas adoram a cantora por seu arrojo (deixou sua cidadezinha de 5.000 habitantes na vastidão do Canadá aos 16 anos e foi para Nova York fazer carreira), pela atitude (destaca que compõe as próprias músicas, ao contrário "das outras"), por seu visual (muito preto, coturnos, tachas) e, acima de tudo, por conciliar a imagem de rebeldia com uma carinha linda. Enfim, uma não-patricinha que poderia ser patricinha, se quisesse. Agora, que está no topo, Avril se dá ao luxo de introduzir alguma sutileza no pacote. "Tive uma infância ótima, sou feliz, não tenho motivos para estar revoltada", declarou, em entrevista a VEJA. Para as fãs, diga o que disser, Avril é Avril. "Ela é polêmica. Vende música, não o corpo", encanta-se Luciana Mayernyik, 17, que construiu um site em homenagem à cantora, em que vende camisetas com seu retrato.

Até o mercado de instrumentos musicais sente a influência da epidêmica Avril. "Em dois anos, aumentou 40% a procura de guitarras por meninas", diz o vendedor João Eduardo Rocha, da loja Gang, em São Paulo. Lá, ao lado dos modelos tradicionais, figuram guitarras cor-de-rosa, de correias coloridas, com purpurina e lantejoula. "Para as meninas, o importante é ser bonita", explica Rocha. É o caso de Maria Fernanda Gamero, 12, que pediu – e ganhou – uma guitarra preta e branca para tocar as músicas de Avril com a amiga e igualmente guitarrista Michele Dherghan, 12. As duas, como dez entre dez fãs de Avril, sonham em montar uma banda. Michele procurou na internet dicas de como fazer a maquiagem da cantora e completa o visual com uma gravatinha (outra marca registrada) com a figura do cachorrinho Snoopy, "roubada" do irmão mais novo. No guarda-roupa de Maria Fernanda também predominam a calça de camuflagem, o tênis All Star, a munhequeira e outros acessórios típicos. "Cada vez que eu ouço, mais gosto. Queria ser ela", suspira a menina. A mãe, a advogada Fabíola Palma, 39, resistiu, mas acabou aceitando. "No começo, achava o estilo exagerado. Agora, quando vejo algum acessório de caveira, compro, porque sei que ela vai gostar." Avril, a própria, claro que não assina embaixo de nada disso. "Mudo o tempo todo. Neste momento, nem sei qual é o meu estilo", disse na entrevista a VEJA.


Fotos Lailson Santos
Em ação: Luciana vende camisetas no site, Michele e Maria Fernanda tocam guitarra

Quanto mais sucesso Avril faz (seu primeiro disco, Let Go, vendeu 14 milhões de cópias; o segundo, Under my Skin, já está em 17 milhões), mais se amplia e mais jovem fica seu fã-clube. Victoria Cestari, 9 anos, ganhou de aniversário um ingresso para o show em São Paulo – o primeiro da sua vida – e ficou num estado próximo ao êxtase. A mãe, Cláudia, considera que, se ídolo é inevitável, melhor que seja a canadense de muita maquiagem mas zero de decotes. "Prefiro que ela goste da Avril do que de bandas como Rouge, de apelo sensual", conta Cláudia, que traduz as letras das músicas para a filha. O guarda-roupa se transformou: "Não uso mais saia nem vestido e não deixo minha mãe me comprar nada rosa". Cláudia faz escova para alisar o cabelo cacheado de Victoria; a amiga e colega de fã-clube Marina Gasparini, 9, queria mais: "Ouvi dizer que Avril passa maionese no cabelo, mas minha mãe não me deixou tentar", reclama. Quando as duas brincam, fingem que as bonecas são roqueiras ou imitam uma banda. "Fiz até uma guitarra de papel", diz Marina, enquanto espera a de verdade "no ano que vem".

Longe da família, para estudar numa cidade próxima, a mineira Renata Tostes, 17, diz que parece estar menos sozinha quando escuta Avril. "Sinto que é uma amiga que eu tenho", diz, resumindo o universo de projeções que constrói os ídolos. O apelo de Avril não tem fronteiras. Divanir Bernardes, dono de uma agência de viagens em Goiânia especializada em caravanas para espetáculos, vendeu oitenta pacotes, que variam de 400 a 800 reais, para a apresentação em São Paulo – a maioria para adolescentes entre 15 e 18 anos. Ídolos que despertam enorme fervor – e o irrefreável desejo de imitação – entre crianças e adolescentes costumam causar ansiedade em pais mais preocupados. De Sandra Dee a Madonna, de Xuxa a Carla Perez (lembram-se?), o fenômeno se perpetua. A psicóloga Ceres Araujo acalma os ansiosos. Crianças se projetam em ídolos para se liberar da onipresença dos pais, explica. "É a necessidade de conquistar autonomia como pessoa", diz ela. Nem adianta tentar reprimir. "Quanto mais for criticada, mais ela vai se interessar." Ceres oferece um consolo aos pais desanimados: a fase costuma passar no fim da adolescência.

Com reportagem de Paula Aoyagui

 

FÁCIL DE IMITAR

Fã que é fã da cantora Avril Lavigne
segue um código que inclui


Henning Kaiser/AFP


VISUAL

Bermudão, calça larga com corrente
Gravata
Coturno
Pulseira de rebite, correntes no pescoço
Olhos beeeem maquiados
Cabelo beeeem liso
Unhas pintadas de preto
Preto, preto, preto

 

ATITUDE

Falar "o que pensa"
Jurar que não está nem aí para a imagem
Torcer o nariz para patricinhas
Montar uma banda

 

 
 
 
 
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