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Comportamento
Todas querem ser Avril
Dos 9 aos 19, uma legião de meninas de
cabelo escorrido imita a cantora "rebelde"

Laura Ming
Lailson Santos
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| Victoria e Marina (atrás), as fãs mirins:
de escova a maionese para alisar a cabeleira |
Houve um tempo em que o mundo das meninas adolescentes se dividia
de maneira muito nítida entre duas cantoras: de um lado,
as fãs da loira-decotada Britney Spears; de outro, as admiradoras
de Avril Lavigne, canadense de carinha enfezada e cabeleira de modelo.
Hoje, que Britney é uma senhora acima do peso e semi-aposentada,
Avril, aos 21 anos, com a aura de contestação e inconformismo
precisamente dosada para conquistar as meninas sem apavorar as mamães,
reina soberana no mundo teen. Em sua primeira turnê no Brasil,
iniciada na semana passada, Avril passou pelo teste definitivo do
sucesso de massas: ela não só tem um tsunami adolescente
de fãs, como muitas delas fazem de tudo para ficar idênticas
ao modelo original. Se a imitação é a forma
máxima de elogio, Avril atingiu o auge.
As meninas adoram a cantora por
seu arrojo (deixou sua cidadezinha de 5.000 habitantes na vastidão
do Canadá aos 16 anos e foi para Nova York fazer carreira),
pela atitude (destaca que compõe as próprias músicas,
ao contrário "das outras"), por seu visual (muito preto,
coturnos, tachas) e, acima de tudo, por conciliar a imagem de rebeldia
com uma carinha linda. Enfim, uma não-patricinha que poderia
ser patricinha, se quisesse. Agora, que está no topo,
Avril se dá ao luxo de introduzir alguma sutileza no pacote.
"Tive uma infância ótima, sou feliz, não tenho
motivos para estar revoltada", declarou, em entrevista a VEJA. Para
as fãs, diga o que disser, Avril é Avril. "Ela é
polêmica. Vende música, não o corpo", encanta-se
Luciana Mayernyik, 17, que construiu um site em homenagem à
cantora, em que vende camisetas com seu retrato.
Até o mercado de instrumentos
musicais sente a influência da epidêmica Avril. "Em
dois anos, aumentou 40% a procura de guitarras por meninas", diz
o vendedor João Eduardo Rocha, da loja Gang, em São
Paulo. Lá, ao lado dos modelos tradicionais, figuram guitarras
cor-de-rosa, de correias coloridas, com purpurina e lantejoula.
"Para as meninas, o importante é ser bonita", explica Rocha.
É o caso de Maria Fernanda Gamero, 12, que pediu e
ganhou uma guitarra preta e branca para tocar as músicas
de Avril com a amiga e igualmente guitarrista Michele Dherghan,
12. As duas, como dez entre dez fãs de Avril, sonham em montar
uma banda. Michele procurou na internet dicas de como fazer a maquiagem
da cantora e completa o visual com uma gravatinha (outra marca registrada)
com a figura do cachorrinho Snoopy, "roubada" do irmão mais
novo. No guarda-roupa de Maria Fernanda também predominam
a calça de camuflagem, o tênis All Star, a munhequeira
e outros acessórios típicos. "Cada vez que eu ouço,
mais gosto. Queria ser ela", suspira a menina. A mãe, a advogada
Fabíola Palma, 39, resistiu, mas acabou aceitando. "No começo,
achava o estilo exagerado. Agora, quando vejo algum acessório
de caveira, compro, porque sei que ela vai gostar." Avril, a própria,
claro que não assina embaixo de nada disso. "Mudo o tempo
todo. Neste momento, nem sei qual é o meu estilo", disse
na entrevista a VEJA.
Fotos Lailson Santos
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| Em ação: Luciana vende camisetas no site,
Michele e Maria Fernanda tocam guitarra |
Quanto mais sucesso Avril faz
(seu primeiro disco, Let Go, vendeu 14 milhões de
cópias; o segundo, Under my Skin, já está
em 17 milhões), mais se amplia e mais jovem fica seu fã-clube.
Victoria Cestari, 9 anos, ganhou de aniversário um ingresso
para o show em São Paulo o primeiro da sua vida
e ficou num estado próximo ao êxtase. A mãe,
Cláudia, considera que, se ídolo é inevitável,
melhor que seja a canadense de muita maquiagem mas zero de decotes.
"Prefiro que ela goste da Avril do que de bandas como Rouge, de
apelo sensual", conta Cláudia, que traduz as letras das músicas
para a filha. O guarda-roupa se transformou: "Não uso mais
saia nem vestido e não deixo minha mãe me comprar
nada rosa". Cláudia faz escova para alisar o cabelo cacheado
de Victoria; a amiga e colega de fã-clube Marina Gasparini,
9, queria mais: "Ouvi dizer que Avril passa maionese no cabelo,
mas minha mãe não me deixou tentar", reclama. Quando
as duas brincam, fingem que as bonecas são roqueiras ou imitam
uma banda. "Fiz até uma guitarra de papel", diz Marina, enquanto
espera a de verdade "no ano que vem".
Longe da família, para
estudar numa cidade próxima, a mineira Renata Tostes, 17,
diz que parece estar menos sozinha quando escuta Avril. "Sinto que
é uma amiga que eu tenho", diz, resumindo o universo de projeções
que constrói os ídolos. O apelo de Avril não
tem fronteiras. Divanir Bernardes, dono de uma agência de
viagens em Goiânia especializada em caravanas para espetáculos,
vendeu oitenta pacotes, que variam de 400 a 800 reais, para a apresentação
em São Paulo a maioria para adolescentes entre 15
e 18 anos. Ídolos que despertam enorme fervor e o
irrefreável desejo de imitação entre
crianças e adolescentes costumam causar ansiedade em pais
mais preocupados. De Sandra Dee a Madonna, de Xuxa a Carla Perez
(lembram-se?), o fenômeno se perpetua. A psicóloga
Ceres Araujo acalma os ansiosos. Crianças se projetam em
ídolos para se liberar da onipresença dos pais, explica.
"É a necessidade de conquistar autonomia como pessoa", diz
ela. Nem adianta tentar reprimir. "Quanto mais for criticada, mais
ela vai se interessar." Ceres oferece um consolo aos pais desanimados:
a fase costuma passar no fim da adolescência.
Com reportagem de
Paula Aoyagui
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FÁCIL
DE IMITAR
Fã que
é fã da cantora Avril Lavigne
segue um código que inclui
Henning Kaiser/AFP
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VISUAL
Bermudão,
calça larga com corrente
Gravata
Coturno
Pulseira de rebite, correntes no pescoço
Olhos beeeem maquiados
Cabelo beeeem liso
Unhas pintadas de preto
Preto, preto, preto
ATITUDE
Falar "o que pensa"
Jurar que não está nem aí para
a imagem
Torcer o nariz para patricinhas
Montar uma banda
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