Edição 1924 . 28 de setembro de 2005

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Justiça
Na cadeia, Maluf faz política...

...de boa vizinhança. Chama as faxineiras
de princesa e os presos pelo nome


Camila Pereira

 

Felipe Araújo/AE
Maluf: banho de três minutos em chuveiro coletivo

Presos há quinze dias, Paulo Maluf, ex-prefeito de São Paulo, e seu filho Flávio sofreram mais uma derrota judicial na semana passada. Na quarta-feira, o Superior Tribunal de Justiça decidiu manter a prisão preventiva de ambos: negou o pedido de habeas corpus feito por seus advogados. Maluf e o filho estão detidos desde o dia 10 de setembro por intimidação de testemunhas e tentativa de obstrução do trabalho da Justiça, num processo que investiga o desvio de dinheiro público na execução de obras da prefeitura paulistana.

Maluf e Flávio dividem uma cela na sede da Superintendência da Polícia Federal, em São Paulo, com um preso libanês acusado de tráfico de drogas. Maluf parece adaptado à rotina do cárcere. Conversa com todos, chama as faxineiras responsáveis pela limpeza das celas de "minhas princesas" e, segundo um ex-preso ouvido por VEJA (que, por alguns dias, dividiu a cela com o ex-prefeito), dorme "como um anjo". Todos os dias, ao acordar, veste calça e camisa social, da marca Ralph Lauren. Demonstra irritação apenas no momento das refeições e do banho. Não raro, recusa a comida oferecida pelos carcereiros e almoça apenas biscoitos de morango, do tipo wafer. A rotina da chuveirada – quando os presos se postam em fila indiana, com direito a apenas três minutos de banho – também não o agrada. Ele tentou obter autorização para usar o banheiro dos carcereiros. Não conseguiu. O comportamento de Maluf é diferente do exibido por seu filho Flávio. Deprimido, Flávio alterna momentos de choro e completo mutismo. Fala praticamente só com o pai e, nos momentos em que pode sair da cela, faz cooper no pátio, ouvindo música em um iPod.

 

Agliberto Lima/AE
Flávio: pouco sono e três antidepressivos

As celas da Superintendência da PF são divididas em duas alas. A primeira é conhecida por Alphaville, em referência a um condomínio de luxo da região metropolitana de São Paulo. A segunda, com uma quantidade maior de detentos por cela, é chamada de Alfavela. Os Maluf ficaram em Alphaville. Até a semana passada, o ex-prefeito só havia lido jornais e revistas, embora tivesse dado entrevistas dizendo que vinha lendo a Bíblia. Sua chegada à carceragem da PF foi tensa. Muitos dos presos não queriam dividir a cela com ele. Para piorar, as notícias de que a família tinha privilégios fizeram com que os detentos passassem a ser submetidos a um regime mais rigoroso. Telefonemas, por exemplo, antes permitidos uma vez por semana, foram proibidos. Para amenizar a situação, Maluf recorre ao seu estilo característico: distribui apertos de mão, experimenta as comidas que outros presos lhe oferecem e chama todos pelo nome. Até agora, só não aceitou o convite para participar da pelada que acontece todos os dias no pátio. Na semana que vem, seus advogados tentarão uma nova cartada para tirá-lo da prisão: devem entrar com outro pedido de habeas corpus, desta vez no Supremo Tribunal Federal. As chances de ter o pedido aceito são pequenas.

 
 
 
 
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