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Alemanha
Sem um führer
Impasse nas eleições deixa a Alemanha
sem saber quem vai tirar o país
da estagnação econômica

Antonio Ribeiro, de Paris
Torsten Silz/AFP
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| Trabalhadores retiram propaganda eleitoral
de Schroeder e Merkel: nenhum dos dois conseguiu maioria |
Quinze anos depois de reunificar
seu leste comunista com o oeste democrático, a Alemanha está
dividida. Na eleição legislativa da semana passada,
decisiva para a escolha do primeiro-ministro que irá governar
o país nos próximos anos, a democrata-cristã
Angela Merkel venceu o atual chanceler social-democrata, Gerhard
Schroeder, por uma diferença inferior a 1% dos votos
o que equivale a apenas três deputados no Bundestag, o parlamento
alemão. Os dois maiores partidos da Alemanha chegaram à
frente com menos assentos do que tinham no Parlamento anterior.
As pequenas legendas (duas delas de esquerda) cresceram e obtiveram,
juntas, quase 30% dos votos. Com isso, os votos conquistados pelas
duas grandes alianças partidárias rivais foram insuficientes
para poder forjar uma maioria parlamentar absoluta. Criou-se, assim,
uma "guerra dos chanceleres". Tanto Schroeder, primeiro-ministro
há sete anos, quanto Merkel, a candidata da oposição,
não abrem mão de reivindicar as rédeas do governo.
O problema é que qualquer um deles, para poder governar com
uma maioria confortável no Parlamento, terá de fazer
uma coalizão com o partido adversário. Um governo
formado nessas condições tende a ser fraco e instável
demais para conseguir as reformas de que a Alemanha precisa.
A
principal economia européia e terceira do mundo está
estagnada. Nos últimos quatro anos, o crescimento do PIB
alemão foi medíocre. O melhor resultado não
passou de 1,6% do PIB, no ano passado. Entre outros motivos, a estagnação
está relacionada à dificuldade que as empresas alemãs
enfrentam para competir com indústrias instaladas em países
com mão-de-obra mais barata, como a China, e à retração
do consumo interno. A Volkswagen produziu 6 milhões de veículos
no ano passado, mas só conseguiu vender 5 milhões
deles. Hoje as fábricas da montadora trabalham com metade
da sua capacidade de produção. Nos anos dourados do
Wirtschaftswunder o milagre econômico alemão
, entre as décadas de 1950 e 1970, o país cresceu
a uma taxa exuberante de 107%, descontada a inflação
nos primeiros dez anos. Na década seguinte, registrou um
crescimento real de 55%. O mundo ficou boquiaberto com o desempenho
de um país erguendo-se das ruínas da guerra para produzir
carros, máquinas pesadas, aparelhos de precisão, eletrodomésticos,
produtos químicos e usinas de energia. Tudo com a qualidade
Made in Germany.
Desde a reunificação,
quando o território aumentou em 110.000 quilômetros
quadrados e a população em 16 milhões de habitantes,
foi drenado 1,5 trilhão de dólares dos cofres públicos
para estimular o desenvolvimento do leste alemão. A região
transformou-se em um dos parques industriais mais modernos do planeta,
mas investidores estrangeiros e mesmo alguns empresários
alemães preferem ir se instalar nos países vizinhos
do Leste Europeu e nas economias emergentes, onde o custo da mão-de-obra
é mais atrativo. Os encargos trabalhistas na Europa Oriental
são, em média, um terço dos da Alemanha. Isso
apenas alimenta o desemprego alemão, um dos mais altos da
Europa, e cria uma situação em que, para cada trabalhador
com emprego fixo, há um desocupado sendo sustentado pelo
Estado. O envelhecimento da população aumenta o gasto
com aposentadorias e não há uma reposição
da população ativa suficiente para sustentá-las.
O dispêndio com o bem-estar social chegou a um nível
insustentável. Do total arrecadado em impostos, 42% vão
para o pagamento de aposentadorias, 16% são usados para pagar
seguros-desemprego e 21% servem para o serviço da dívida
pública. O restante mal dá para pagar a burocracia
estatal e para investimentos. O déficit público alemão
ultrapassa o limite de 3% negativos a ser respeitado pelos países
da União Européia.
Durante as últimas décadas,
nenhum chanceler teve coragem de reformar para valer o oneroso "modelo
alemão" de Estado, para revigorar a economia e criar novos
empregos. Em 2003, Gerhard Schroeder declarou: "As reformas do Estado
de bem-estar social se tornaram inevitáveis". Em seguida,
introduziu mudanças tímidas, reduzindo o seguro-desemprego
de dezoito para doze meses e obrigando indivíduos sustentados
pelo Estado a procurar emprego. Essas medidas impopulares, somadas
à estagnação econômica, fizeram despencar
o prestígio do chanceler. O seu Partido Social-Democrata
(SPD) perdeu uma eleição regional atrás da
outra. Quando Angela Merkel se tornou candidata da coligação
do Partido Democrata-Cristão (CDU) e da União Social
Cristã (CSU), as pesquisas revelavam uma vantagem de 25 pontos
porcentuais em relação a Schroeder. Para muitos, a
física criada na Alemanha Oriental era um clone de Margaret
Thatcher, a dama-de-ferro da política inglesa que implantou
medidas neoliberais na década de 80. Durante a campanha,
talvez o erro de Merkel tenha sido demonstrar sinceridade demais
em suas intenções de fazer reformas de fato
que poderiam criar empregos, mas balançariam o sistema social
que garante segurança aos alemães do berço
ao túmulo. O Estado de bem-estar social alemão pode
ser insustentável, mas, como há muitos cidadãos
que se beneficiam dele, poucos tiveram coragem de votar por mudança.
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