Edição 1924 . 28 de setembro de 2005

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Alemanha
Sem um führer

Impasse nas eleições deixa a Alemanha
sem saber quem vai tirar o país
da estagnação econômica


Antonio Ribeiro, de Paris


Torsten Silz/AFP
Trabalhadores retiram propaganda eleitoral de Schroeder e Merkel: nenhum dos dois conseguiu maioria

Quinze anos depois de reunificar seu leste comunista com o oeste democrático, a Alemanha está dividida. Na eleição legislativa da semana passada, decisiva para a escolha do primeiro-ministro que irá governar o país nos próximos anos, a democrata-cristã Angela Merkel venceu o atual chanceler social-democrata, Gerhard Schroeder, por uma diferença inferior a 1% dos votos – o que equivale a apenas três deputados no Bundestag, o parlamento alemão. Os dois maiores partidos da Alemanha chegaram à frente com menos assentos do que tinham no Parlamento anterior. As pequenas legendas (duas delas de esquerda) cresceram e obtiveram, juntas, quase 30% dos votos. Com isso, os votos conquistados pelas duas grandes alianças partidárias rivais foram insuficientes para poder forjar uma maioria parlamentar absoluta. Criou-se, assim, uma "guerra dos chanceleres". Tanto Schroeder, primeiro-ministro há sete anos, quanto Merkel, a candidata da oposição, não abrem mão de reivindicar as rédeas do governo. O problema é que qualquer um deles, para poder governar com uma maioria confortável no Parlamento, terá de fazer uma coalizão com o partido adversário. Um governo formado nessas condições tende a ser fraco e instável demais para conseguir as reformas de que a Alemanha precisa.

A principal economia européia e terceira do mundo está estagnada. Nos últimos quatro anos, o crescimento do PIB alemão foi medíocre. O melhor resultado não passou de 1,6% do PIB, no ano passado. Entre outros motivos, a estagnação está relacionada à dificuldade que as empresas alemãs enfrentam para competir com indústrias instaladas em países com mão-de-obra mais barata, como a China, e à retração do consumo interno. A Volkswagen produziu 6 milhões de veículos no ano passado, mas só conseguiu vender 5 milhões deles. Hoje as fábricas da montadora trabalham com metade da sua capacidade de produção. Nos anos dourados do Wirtschaftswunder – o milagre econômico alemão –, entre as décadas de 1950 e 1970, o país cresceu a uma taxa exuberante de 107%, descontada a inflação nos primeiros dez anos. Na década seguinte, registrou um crescimento real de 55%. O mundo ficou boquiaberto com o desempenho de um país erguendo-se das ruínas da guerra para produzir carros, máquinas pesadas, aparelhos de precisão, eletrodomésticos, produtos químicos e usinas de energia. Tudo com a qualidade Made in Germany.

Desde a reunificação, quando o território aumentou em 110.000 quilômetros quadrados e a população em 16 milhões de habitantes, foi drenado 1,5 trilhão de dólares dos cofres públicos para estimular o desenvolvimento do leste alemão. A região transformou-se em um dos parques industriais mais modernos do planeta, mas investidores estrangeiros e mesmo alguns empresários alemães preferem ir se instalar nos países vizinhos do Leste Europeu e nas economias emergentes, onde o custo da mão-de-obra é mais atrativo. Os encargos trabalhistas na Europa Oriental são, em média, um terço dos da Alemanha. Isso apenas alimenta o desemprego alemão, um dos mais altos da Europa, e cria uma situação em que, para cada trabalhador com emprego fixo, há um desocupado sendo sustentado pelo Estado. O envelhecimento da população aumenta o gasto com aposentadorias e não há uma reposição da população ativa suficiente para sustentá-las. O dispêndio com o bem-estar social chegou a um nível insustentável. Do total arrecadado em impostos, 42% vão para o pagamento de aposentadorias, 16% são usados para pagar seguros-desemprego e 21% servem para o serviço da dívida pública. O restante mal dá para pagar a burocracia estatal e para investimentos. O déficit público alemão ultrapassa o limite de 3% negativos a ser respeitado pelos países da União Européia.

Durante as últimas décadas, nenhum chanceler teve coragem de reformar para valer o oneroso "modelo alemão" de Estado, para revigorar a economia e criar novos empregos. Em 2003, Gerhard Schroeder declarou: "As reformas do Estado de bem-estar social se tornaram inevitáveis". Em seguida, introduziu mudanças tímidas, reduzindo o seguro-desemprego de dezoito para doze meses e obrigando indivíduos sustentados pelo Estado a procurar emprego. Essas medidas impopulares, somadas à estagnação econômica, fizeram despencar o prestígio do chanceler. O seu Partido Social-Democrata (SPD) perdeu uma eleição regional atrás da outra. Quando Angela Merkel se tornou candidata da coligação do Partido Democrata-Cristão (CDU) e da União Social Cristã (CSU), as pesquisas revelavam uma vantagem de 25 pontos porcentuais em relação a Schroeder. Para muitos, a física criada na Alemanha Oriental era um clone de Margaret Thatcher, a dama-de-ferro da política inglesa que implantou medidas neoliberais na década de 80. Durante a campanha, talvez o erro de Merkel tenha sido demonstrar sinceridade demais em suas intenções de fazer reformas de fato – que poderiam criar empregos, mas balançariam o sistema social que garante segurança aos alemães do berço ao túmulo. O Estado de bem-estar social alemão pode ser insustentável, mas, como há muitos cidadãos que se beneficiam dele, poucos tiveram coragem de votar por mudança.

 
 
 
 
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