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Brasil Pizza
bianca A operação que
prendeu traficantes ligados a dois dos restaurantes mais badalados do
Rio termina em pastelão, com 2 milhões de reais roubados da
sede da Polícia Federal  Daniela
Pinheiro Ivone
Perez
 | | Fachada
da pizzaria e o bucho com cocaína: 1,6 tonelada da droga afastou a clientela vip
| Ricardo leoni/Ag. O Globo
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Não há
CPI do Mensalão, furacão Rita nem renúncia de Severino. No
Rio de Janeiro o grande assunto é o "caso Satyricon-Capricciosa". A história
tem todos os ingredientes que um grande escândalo merece: envolve nomes
graúdos da sociedade carioca, restaurantes da moda e uma quantidade monstruosa
de cocaína escondida dentro de pedaços de bucho de boi que seriam
exportados para a Europa. Na semana passada, o caso ganhou novos contornos destinados
a apimentar ainda mais as conversas. Todo o dinheiro dos traficantes, amealhado
na bem-sucedida operação policial de captura dos acusados, simplesmente
sumiu da sede da Superintendência da Polícia Federal no Rio. Cerca
de 2 milhões de reais em notas de real, euro e dólar. Quer mais?
Os suspeitos do roubo são sete agentes federais. É ou não
coisa de filme? Mas o que teria sido um louvável trabalho de investigação
da PF se transformou em mais uma chanchada da crônica policial brasileira.
Nas rodinhas sociais, o fato ficou
conhecido como "caso Satyricon" ou "caso Capricciosa" em alusão aos nomes
dos restaurantes de uma das suspeitas de integrar a quadrilha de traficantes internacionais,
a psicóloga Sandra Tolpiakow. Dona-de-casa, praticante de ioga e estudante
de cabala, Sandra foi casada com o chefão do grupo, o português José
Palinhos, com quem tem dois filhos. Até a semana passada, o ex-casal e
outras nove pessoas estavam presos em Goiânia, onde o inquérito foi
instaurado. Sandra é o suposto elo entre o tráfico e o empresário
italiano Miro Leopardi, seu padrasto, que há vinte anos deu início
ao império gastronômico (faturamento mensal estimado em 1,5 milhão
de reais) que engloba cinco pizzarias e dois restaurantes estrelados. Em um domingo
à noite, uma cena usual na pizzaria Capricciosa, no bairro do Jardim Botânico,
é ver Chico Buarque em uma mesa, José Bonifácio de Oliveira
Sobrinho, o Boni, em outra, e Ciro Gomes e Patrícia Pillar mais adiante.
Os restaurantes Satyricon, um em Ipanema e o outro em Búzios, são
ainda mais badalados. Quando esteve no Brasil, a cantora Madonna jantou em um
deles. Assim como os roqueiros dos Rolling Stones.
A PF afirma que Palinhos tem participação nos negócios de
Leopardi, de quem foi sócio em um frigorífico há dez anos.
A prova seriam gravações telefônicas entre ambos, em que combinavam
negócios. Leopardi nega o envolvimento, mas admite ter tratado de um reparo
no restaurante de Búzios com o traficante. "Ele se ofereceu para fazer
algo lá, minha mulher pediu para eu aceitar e não ser grosseiro.
Não tenho absolutamente nada com ele. Os negócios são só
meus. Ganho dinheiro limpo e honesto há 22 anos. Esse sujeito é
indigno, scemo (idiota, em italiano)", disse Leopardi a VEJA. Segundo ele,
Palinhos orbitava em torno de seus negócios apenas por ser pai dos filhos
de sua enteada. "Eu já o tinha proibido de pisar na minha casa, mas minha
mulher e Sandra sempre brigavam comigo. Não gosto dele, nunca gostei",
diz. Na devassa feita no apartamento
de Leopardi a polícia encontrou cerca de 90.000 dólares em dinheiro
escondidos em compartimentos secretos, gavetas de meias e em bolsos de ternos.
"Era uma coisa incrível. A gente dava um soco na parede, tinha um buraco
oco cheio de dinheiro. Dava um chute no chão, também saía
dinheiro", relatou um agente. "É dinheiro de vinte anos de economias. Minha
mulher gosta de guardar dinheiro assim. Tanto que muitas notas eram de 1 e 5 dólares,
gorjetas que os garçons ganhavam de gringos e ela trocava para eles em
reais", conta o empresário. Uma das cenas mais surpreendentes, ocorrida
durante a devassa e descrita por um policial, se deu quando o dinheiro estava
empilhado em cima da mesa. Marly, mulher de Leopardi, acariciava e mandava beijinhos
para as notas. Carlos
Ivani/Ag. O Globo
 | | Leopardi
e sua enteada e sócia Sandra: ele nega envolvimento; ela está presa |
De
acordo com a investigação, a quadrilha de Palinhos trazia a droga
da Colômbia, recheava o bucho com a cocaína no Rio e a mandava para
Lisboa. Lá, comparsas se encarregavam de distribuí-la em toda a
Europa. A 1,6 tonelada apreendida renderia aos bandidos até 120 milhões
de reais. Durante dois anos, a Polícia Federal investigou, seguiu e fotografou
os passos dos integrantes da quadrilha com base em informações enviadas
pela polícia portuguesa. Escutas telefônicas, cartões de crédito
monitorados, bilhetes aéreos rastreados, os suspeitos eram vigiados 24
horas. Foram usados cerca de setenta homens na investigação. "Demoramos
seis meses só para ver o rosto deles", conta o delegado Ronaldo Magalhães,
chefe de Inteligência Policial da Delegacia de Repressão a Entorpecentes.
Foi uma das operações mais caras da PF. Como muitas vezes os agentes
tinham de se passar por clientes e freqüentar os restaurantes da quadrilha,
a conta era alta. "Os agentes me ligavam espantados porque lá a água
custava 15 reais e um prato, 80 reais. Eu falava que podiam gastar", diz Magalhães.
Os sinais exteriores de riqueza dos integrantes da quadrilha eram evidentes. Em
menos de dois anos, amealharam um patrimônio avaliado em pelo menos 50 milhões
de reais. Fazendas em Goiás, uma mansão em Búzios, entre
outros imóveis, além de uma frota de dezoito carros de luxo. Gabriel
de Paiva/Ag. O Globo
 | | O
dinheiro apreendido que desapareceu: polícia bandida |
O sumiço do dinheiro apreendido na casa de outro membro da quadrilha,
o também português Antônio Damaso tornou-se um imbróglio
para a polícia. Os erros se repetiram um atrás do outro desde que
o montante apreendido foi entregue à PF fluminense. Há muito se
sabe que ali está um dos maiores focos de corrupção da corporação
no país. Ainda assim, nenhuma providência foi tomada. O dinheiro
ficou numa sala desprovida de qualquer aparato sofisticado. Só para se
ter uma idéia, a chave do cofre ficou guardada no armário de um
funcionário. "É um exemplo de que a estrutura do Rio está
falida. Todas as operações importantes são conduzidas por
gente de fora do estado. É inadmissível", diz o procurador Gino
Liccione, coordenador do grupo de Controle Externo da Atividade Policial. No que
diz respeito aos restaurantes, os clientes minguaram desde que o caso veio à
tona. Os cerca de 300 funcionários estão preocupados com o futuro
do negócio. No entanto, alguns, em tom de blague, dizem estar aliviados
por, finalmente, poder variar o cardápio. Coincidência ou não,
nos últimos meses o prato mais servido aos empregados da casa era dobradinha.
A iguaria cujo ingrediente principal é... bucho. |