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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Candidato em transe
Maluf faz campanha em que as
malufadas se superam em malufices
com alto grau de malufagem
Aparece-lhe um camelô
pela frente: "Não se preocupe, seu ponto será mantido".
Diante de um motoboy: "É um absurdo a taxa de licenciamento
que lhe cobram". Agora são desempregados que se apresentam:
"Tenho muitos amigos empresários, vou lhes encaminhar o currículo".
Ei-lo de novo em campanha, o inesgotável, o inefável,
o notório, o persistente, o inacreditável Paulo Maluf.
Ei-lo solto pelas ruas de São Paulo, prometendo, exibindo-se,
jactando-se, dizendo que faz e acontece. Outro dia, disse que se
fosse cientista teria descoberto a cura do câncer, tais são
seus poderes e talentos, tais as alturas a que foi destinado pela
fortuna.
Os leitores de outras
cidades não sabem o que estão perdendo. Maluf em campanha
é sempre espetáculo raro. Numa delas, soltou o famoso
"estupra, mas não mata". Noutra, pediu que jamais voltassem
a votar nele, caso o candidato que patrocinava viesse a decepcionar.
O candidato (o pupilo Celso Pitta) decepcionou, e ele revogou o
apelo. Na atual campanha, em que é de novo candidato a prefeito
de São Paulo, ele se supera. Surgiu na pele de um Maluf mais
Maluf ainda, carregado de renovadas malufices, incansável
nas lidas do malufar, imbatível nas artes da malufagem.
Esta campanha vem em seguida
a meses de denúncias dos milhões de dólares
que, em nome dele ou de familiares, estariam aninhados em bancos
do exterior. Nosso personagem se mete então num frenesi com
nítidas características de fuga para diante
acelerar o ritmo, jamais recuar, não dar a impressão
de sofrer algum constrangimento, jamais dar o braço a torcer.
Para bem pôr em prática tal estratégia, apresenta-se
como um Maluf mais dono de si do que nunca, escandalosamente extrovertido,
absurdamente à vontade. De vez em quando, na rua, entre uma
promessa e outra, uma jactância e outra, alguém grita:
"Ladrão!, larápio!, e o dinheiro, hein?!" Não
é com ele. Apruma-se e foge para diante. Numa ocasião,
uma eleitora perguntou-lhe candidamente qual seria o slogan de sua
campanha, e quando ele respondeu ("O bom prefeito está de
volta", ou algo assim) a eleitora comentou: "Ah, pensei que fosse
'Rouba mas faz'". Cara impassível e fuga para diante.
O Maluf que se apresenta
na atual campanha aprimorou as velhas artimanhas. Por exemplo, a
de não responder ao que lhe perguntam, tergiversar, falar,
falar, falar, sem dar brecha ao interlocutor. No programa Roda
Viva, da TV Cultura de São Paulo, perguntaram-lhe se,
a seu ver, os papéis que vieram das autoridades da Suíça
eram falsos. Desde que vive negando o que dizem esses papéis,
a conclusão era apenas lógica. Reação
de Maluf: "É você que está dizendo isso". E
repete, enfático: "É você que está dizendo
isso". E escapa, e envereda por outro assunto, e dispara a torrente
de palavras, nem sempre compromissadas umas com o sentido das outras,
com que constrói um muro verbal de contenção
do adversário, no tom de voz anasalado, as sílabas
minuciosamente escandidas, que por sua vez se constitui numa barragem
de antimísseis contra o avanço inimigo.
No caso, era evidente
que quem estava "dizendo isso" era o perguntador. Mas quem deveria
dizê-lo era ele mesmo. Se foi acusado injustamente, como alega,
num papel vindo de fonte suíça, devia dizer que é
falso. O escritor Gilberto de Mello Kujawski, em artigo no O
Estado de S. Paulo, chamou de "francamente escandalosos" os
expedientes de malufandragem explícita exibidos no Roda
Viva. O vídeo merecia ser estudado por juntas de médicos,
psicólogos, antropólogos, filósofos e lingüistas,
entre outros especialistas. Contém preciosa evidência
das extravagâncias a que pode chegar o bicho homem.
Mas o melhor ainda estava
por vir. Dias depois, de novo em fuga para diante, ei-lo, passo
firme e nariz empinado, cavaleiro sem medo e sem recato, a avançar
dentro de um hospital, corredor após corredor, incontido,
acelerado... até dar com a porta da UTI e ultrapassá-la,
vitorioso, ele e uma comitiva de assessores e cupinchas, mais os
jornalistas em serviço. Agora, circulava entre pacientes
entubados, no espaço onde não se pode entrar, muito
menos sem prévios cuidados, mas que é isso para um
ás das malufiquises? "Maluf, mata os bandidos", balbuciou
um dos pacientes, vítima de assalto a mão armada.
"Com Maluf na prefeitura, a Rota vai para as ruas", respondeu o
campeão das malufunchuras.
Rota, divisão da
polícia paulista com reputação de truculência
bem a gosto da malufilia, está no âmbito do Estado,
não da prefeitura mas quem é Maluf para se
preocupar com tais filigranas? Também não enfatizemos
a desgraçada coincidência de o homem ter morrido no
dia seguinte. Importante a notar, de tudo aqui alinhavado, é
o Maluf de tirar o fôlego que se reapresenta ao eleitorado,
um Maluf que se supera em super-Maluf, desprendido, língua
treinada nas mágicas de dizer e não dizer, talento
desviado da cura do câncer para a consagração
como desbravador de UTIs. O homem é isso, e tudo o mais que
o malufumalorismo permite alcançar.
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