Edição 1864 . 28 de julho de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Candidato em transe

Maluf faz campanha em que as
malufadas se superam em malufices
com alto grau de malufagem

Aparece-lhe um camelô pela frente: "Não se preocupe, seu ponto será mantido". Diante de um motoboy: "É um absurdo a taxa de licenciamento que lhe cobram". Agora são desempregados que se apresentam: "Tenho muitos amigos empresários, vou lhes encaminhar o currículo". Ei-lo de novo em campanha, o inesgotável, o inefável, o notório, o persistente, o inacreditável Paulo Maluf. Ei-lo solto pelas ruas de São Paulo, prometendo, exibindo-se, jactando-se, dizendo que faz e acontece. Outro dia, disse que se fosse cientista teria descoberto a cura do câncer, tais são seus poderes e talentos, tais as alturas a que foi destinado pela fortuna.

Os leitores de outras cidades não sabem o que estão perdendo. Maluf em campanha é sempre espetáculo raro. Numa delas, soltou o famoso "estupra, mas não mata". Noutra, pediu que jamais voltassem a votar nele, caso o candidato que patrocinava viesse a decepcionar. O candidato (o pupilo Celso Pitta) decepcionou, e ele revogou o apelo. Na atual campanha, em que é de novo candidato a prefeito de São Paulo, ele se supera. Surgiu na pele de um Maluf mais Maluf ainda, carregado de renovadas malufices, incansável nas lidas do malufar, imbatível nas artes da malufagem.

Esta campanha vem em seguida a meses de denúncias dos milhões de dólares que, em nome dele ou de familiares, estariam aninhados em bancos do exterior. Nosso personagem se mete então num frenesi com nítidas características de fuga para diante – acelerar o ritmo, jamais recuar, não dar a impressão de sofrer algum constrangimento, jamais dar o braço a torcer. Para bem pôr em prática tal estratégia, apresenta-se como um Maluf mais dono de si do que nunca, escandalosamente extrovertido, absurdamente à vontade. De vez em quando, na rua, entre uma promessa e outra, uma jactância e outra, alguém grita: "Ladrão!, larápio!, e o dinheiro, hein?!" Não é com ele. Apruma-se e foge para diante. Numa ocasião, uma eleitora perguntou-lhe candidamente qual seria o slogan de sua campanha, e quando ele respondeu ("O bom prefeito está de volta", ou algo assim) a eleitora comentou: "Ah, pensei que fosse 'Rouba mas faz'". Cara impassível e fuga para diante.

O Maluf que se apresenta na atual campanha aprimorou as velhas artimanhas. Por exemplo, a de não responder ao que lhe perguntam, tergiversar, falar, falar, falar, sem dar brecha ao interlocutor. No programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, perguntaram-lhe se, a seu ver, os papéis que vieram das autoridades da Suíça eram falsos. Desde que vive negando o que dizem esses papéis, a conclusão era apenas lógica. Reação de Maluf: "É você que está dizendo isso". E repete, enfático: "É você que está dizendo isso". E escapa, e envereda por outro assunto, e dispara a torrente de palavras, nem sempre compromissadas umas com o sentido das outras, com que constrói um muro verbal de contenção do adversário, no tom de voz anasalado, as sílabas minuciosamente escandidas, que por sua vez se constitui numa barragem de antimísseis contra o avanço inimigo.

No caso, era evidente que quem estava "dizendo isso" era o perguntador. Mas quem deveria dizê-lo era ele mesmo. Se foi acusado injustamente, como alega, num papel vindo de fonte suíça, devia dizer que é falso. O escritor Gilberto de Mello Kujawski, em artigo no O Estado de S. Paulo, chamou de "francamente escandalosos" os expedientes de malufandragem explícita exibidos no Roda Viva. O vídeo merecia ser estudado por juntas de médicos, psicólogos, antropólogos, filósofos e lingüistas, entre outros especialistas. Contém preciosa evidência das extravagâncias a que pode chegar o bicho homem.

Mas o melhor ainda estava por vir. Dias depois, de novo em fuga para diante, ei-lo, passo firme e nariz empinado, cavaleiro sem medo e sem recato, a avançar dentro de um hospital, corredor após corredor, incontido, acelerado... até dar com a porta da UTI – e ultrapassá-la, vitorioso, ele e uma comitiva de assessores e cupinchas, mais os jornalistas em serviço. Agora, circulava entre pacientes entubados, no espaço onde não se pode entrar, muito menos sem prévios cuidados, mas que é isso para um ás das malufiquises? "Maluf, mata os bandidos", balbuciou um dos pacientes, vítima de assalto a mão armada. "Com Maluf na prefeitura, a Rota vai para as ruas", respondeu o campeão das malufunchuras.

Rota, divisão da polícia paulista com reputação de truculência bem a gosto da malufilia, está no âmbito do Estado, não da prefeitura – mas quem é Maluf para se preocupar com tais filigranas? Também não enfatizemos a desgraçada coincidência de o homem ter morrido no dia seguinte. Importante a notar, de tudo aqui alinhavado, é o Maluf de tirar o fôlego que se reapresenta ao eleitorado, um Maluf que se supera em super-Maluf, desprendido, língua treinada nas mágicas de dizer e não dizer, talento desviado da cura do câncer para a consagração como desbravador de UTIs. O homem é isso, e tudo o mais que o malufumalorismo permite alcançar.

 
 
 
 
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