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Televisão
Em busca do programa ideal
Uma pesquisa indica a receita para um
bom programa infanto-juvenil e quais
as atrações que mais se aproximam dela

Ricardo Valladares
Há quase um ano, a ONG Midiativa e o
instituto de pesquisas MultiFocus trabalham num grande estudo sobre
a qualidade da programação infanto-juvenil na televisão
brasileira. A primeira fase da pesquisa foi concluída em
março e resultou numa tábua de regras que deveriam
ser seguidas na criação de um "programa ideal" para
crianças e adolescentes. Agora, uma segunda fase do estudo
está pronta, será divulgada num evento no próximo
dia 2 e mostra o que acontece quando atrações reais
da TV são confrontadas com aqueles mandamentos, ordenados
numa hierarquia (veja
quadro). Foram ouvidas 270 pessoas das classes A, B e C
pais, mães e filhos na faixa etária entre os
4 e os 17 anos, que se reuniram diante da televisão para
avaliar cinqüenta atrações (é claro que
o papel dos mais novos era simplesmente dizer se gostavam ou não
do que estava no ar). A conclusão é que existe, sim,
uma programação na TV aberta que os pais consideram
de qualidade e a garotada aprova, mas ela se ocupa muito mais de
mandamentos tidos como "secundários" do que dos "essenciais".
Em outras palavras, há muito mais programas que "têm
fantasia", "são atraentes" e "não são apelativos"
do que aqueles que "confirmam valores", "incentivam a auto-estima"
ou "preparam para a vida". "Os pais não demonizam a televisão.
Pelo contrário, eles gostariam que ela fosse uma aliada mais
efetiva no trabalho de transmitir ensinamentos aos seus filhos",
diz Beth Carmona, presidente da Midiativa e da emissora pública
TVE.
As famílias que integraram a pesquisa
foram divididas em três grupos, de acordo com a faixa etária
dos filhos: dos 4 aos 7 anos, dos 8 aos 11 e dos 12 aos 17. Para
que um programa fosse ligado a um certo mandamento, era preciso
que ao menos metade dos participantes de cada grupo fizesse essa
associação. Em todos os casos, houve mandamentos que
ficaram ignorados. Por exemplo, das doze atrações
direcionadas ao público mais novo (entre as quais desenhos
como Os Anjinhos, shows de auditório como Xuxa
no Mundo da Imaginação e novelinhas como Ilha
Rá-Tim-Bum), nenhuma foi considerada apta a cumprir os
objetivos de preparar para a vida, despertar o senso crítico
e mostrar a realidade. No outro extremo, nenhum dos programas vistos
pela garotada entre 12 e 17 anos satisfaz o propósito de
incentivar a auto-estima de seu público. Mas é claro
que também há destaques positivos. Criado uma década
atrás pela TV Cultura, emissora educativa do Estado de São
Paulo, o Castelo Rá-Tim-Bum continua muito apreciado
pelas crianças e elogiado pelos pais, embora hoje em dia
só passe em reprises. Ele é tido como um programa
de qualidade para meninos e meninas entre os 4 e os 11 anos (veja
quadro). Além disso, a julgar pelos resultados da pesquisa,
foi uma pena a decisão da apresentadora Eliana de deixar
o público infantil para concentrar-se nos adolescentes. Seu
programa Eliana na Fábrica Maluca, extinto em março,
satisfazia várias regras de qualidade em seu nicho, dos 8
aos 11 anos. Outro sucesso é o Fantástico. Segundo
pais e filhos, a "revista eletrônica" da Rede Globo cumpre
nada menos do que sete mandamentos de um programa de qualidade.
Só lhe faltam fantasia e o poder de incentivar a auto-estima
e gerar identificação entre os jovens de 12 e a 17
anos.
O caso do Fantástico, um programa
que agrada aos jovens embora não seja feito especialmente
para eles, chama atenção para outro fenômeno
identificado pela pesquisa: há pouquíssimas opções
direcionadas a crianças e adolescentes na televisão
noturna. E elas fazem falta. Basta dizer que, segundo um levantamento
patrocinado em 2003 pelos canais brasileiros de TV paga, e que serviu
de subsídio ao estudo Midiativa/MultiFocus, quase 40% das
crianças de até 11 anos ficam na frente da televisão
diariamente até as 23 horas. Obviamente, essa proporção
cresce à medida que a idade aumenta, e passa-se das crianças
aos adolescentes. Estes últimos, aliás, são
os que têm menos programas especificamente voltados para eles
no cardápio das grandes emissoras. Dos dez programas preferidos
pelos jovens entre 12 e 17 anos, somente dois Malhação
e Altas Horas, ambos da Globo se dirigem a eles.
"A televisão brasileira tem um débito com a criança
e o jovem. Já está mais do que na hora de começar
a pagar essa dívida", diz Beth Carmona, que anuncia para
setembro a conseqüência final da pesquisa patrocinada
pela Midiativa: a entrega de um prêmio àqueles que
têm se empenhado em criar uma televisão de qualidade
para a meninada brasileira.
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