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Livros
Tinta chinesa, pincel francês
Espelhando-se em Flaubert, a escritora
Shan Sa recria os tempos da dinastia Tang

Jerônimo Teixeira
A escritora Shan Sa, hoje com 31 anos, tinha
18 quando trocou a China pela França. Viajou pouco tempo
depois do massacre de estudantes que protestavam contra o regime
comunista na Praça da Paz Celestial, em 1989. O clima opressivo
daqueles dias certamente contribuiu para que ela se decidisse pelo
exílio, mas a escritora está longe de ser uma refugiada
política. Ela visita livremente o país natal, onde
encontra inspiração para sua literatura. Apesar da
temática chinesa, seus quatro romances são escritos
no francês dos escritores que ela mais admira, Flaubert e
Mérimée. Internacionalizada, mas com um olho oblíquo
nas tradições de seu país, Shan Sa não
deixa de ser um emblema das ambigüidades da China, um país
em transição, que continua repressivo ao mesmo tempo
que se abre para o mundo ou pelo menos para o mercado mundial.
A autora diz que, em suas visitas mais recentes, tem até
se surpreendido com a liberdade que os chineses têm para falar
cotidianamente sobre política. Mas não, Shan Sa não
tem nenhum plano de retornar.
Além
de escrever, a moça também pinta. Viveu dois anos
em um chalé na Suíça, como secretária
do pintor francês Balthus. "Ele me ensinou a viver na beleza",
rememora Shan Sa. Em Imperatriz (tradução
de Cristina Guimarães Cupertino; Ediouro; 352 páginas;
49,90 reais), seu mais recente romance, essa atmosfera de beleza
se traduz em descrições pictóricas da China
da dinastia Tang. O livro conjuga ambientes intimistas e fôlego
épico para contar a história de Luz, uma concubina
que ascende a imperatriz da China no século VII. A tinta
é chinesa, mas o pincel é francês percebe-se
um toque do exótico Flaubert de Salambô. Shan
Sa tem um estilo ornamental, descrevendo todos os aromas, cores
e sensações inclusive as mais sensuais
percebidos por sua personagem em suas idas e vindas entre os recessos
dourados da Cidade Proibida e os claustros ascéticos dos
monastérios budistas. "Escrevo para os cinco sentidos", define
a autora. O romance, porém, não fala apenas da beleza,
mas também da opressão, especialmente contra as mulheres.
Baseia-se na vida de Wu, a ambiciosa imperatriz que tentou dar início
à própria dinastia. "A história fixou sua imagem
como uma mulher cruel, mas eu quis ver os fatos com a perspectiva
dela", diz Shan Sa. Daí a extravagante primeira pessoa do
livro, capaz de narrar o próprio nascimento e a própria
morte (com uma boa dose de sexo e intriga entre um evento e outro).
Shan Sa tem notado um curioso retorno da figura
da concubina na China moderna. "O país é hoje uma
economia de mercado, mas algumas chinesas não querem se submeter
à competição profissional. Preferem ser amantes
de um homem de negócios", explica. Mas ela já observa
isso a distância. Imperatriz encerrou sua exploração
literária da China. Na casa de amigos, na costa do Mediterrâneo,
Shan Sa está escrevendo seu primeiro livro ambientado na
França contemporânea.
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O cotidiano de uma concubina
"No Palácio do Sopro Celeste,
eu seguia uma formação especial para as
novas damas da Corte. Grande reverência, pequena
reverência, saudação de reconhecimento,
saudação de condescendência, saudação
de igual para igual, andar rápido, andar lento.
Na Cidade Proibida não havia espontaneidade.
Uma vez que a naturalidade era considerada própria
dos povos bárbaros, a elegância dos movimentos
residia no auge da sujeição. Olhar, comer,
beber, assentar-se, dormir, levantar-se, falar, escutar,
os atos mais comezinhos da vida eram meticulosamente
regulados por códigos estéticos e supersticiosos."
Trecho de Imperatriz
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