Edição 1864 . 28 de julho de 2004

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Livros
Tinta chinesa, pincel francês

Espelhando-se em Flaubert, a escritora
Shan Sa recria os tempos da dinastia Tang


Jerônimo Teixeira

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Trecho do livro

A escritora Shan Sa, hoje com 31 anos, tinha 18 quando trocou a China pela França. Viajou pouco tempo depois do massacre de estudantes que protestavam contra o regime comunista na Praça da Paz Celestial, em 1989. O clima opressivo daqueles dias certamente contribuiu para que ela se decidisse pelo exílio, mas a escritora está longe de ser uma refugiada política. Ela visita livremente o país natal, onde encontra inspiração para sua literatura. Apesar da temática chinesa, seus quatro romances são escritos no francês dos escritores que ela mais admira, Flaubert e Mérimée. Internacionalizada, mas com um olho oblíquo nas tradições de seu país, Shan Sa não deixa de ser um emblema das ambigüidades da China, um país em transição, que continua repressivo ao mesmo tempo que se abre para o mundo – ou pelo menos para o mercado mundial. A autora diz que, em suas visitas mais recentes, tem até se surpreendido com a liberdade que os chineses têm para falar cotidianamente sobre política. Mas não, Shan Sa não tem nenhum plano de retornar.

Além de escrever, a moça também pinta. Viveu dois anos em um chalé na Suíça, como secretária do pintor francês Balthus. "Ele me ensinou a viver na beleza", rememora Shan Sa. Em Imperatriz (tradução de Cristina Guimarães Cupertino; Ediouro; 352 páginas; 49,90 reais), seu mais recente romance, essa atmosfera de beleza se traduz em descrições pictóricas da China da dinastia Tang. O livro conjuga ambientes intimistas e fôlego épico para contar a história de Luz, uma concubina que ascende a imperatriz da China no século VII. A tinta é chinesa, mas o pincel é francês – percebe-se um toque do exótico Flaubert de Salambô. Shan Sa tem um estilo ornamental, descrevendo todos os aromas, cores e sensações – inclusive as mais sensuais – percebidos por sua personagem em suas idas e vindas entre os recessos dourados da Cidade Proibida e os claustros ascéticos dos monastérios budistas. "Escrevo para os cinco sentidos", define a autora. O romance, porém, não fala apenas da beleza, mas também da opressão, especialmente contra as mulheres. Baseia-se na vida de Wu, a ambiciosa imperatriz que tentou dar início à própria dinastia. "A história fixou sua imagem como uma mulher cruel, mas eu quis ver os fatos com a perspectiva dela", diz Shan Sa. Daí a extravagante primeira pessoa do livro, capaz de narrar o próprio nascimento e a própria morte (com uma boa dose de sexo e intriga entre um evento e outro).

Shan Sa tem notado um curioso retorno da figura da concubina na China moderna. "O país é hoje uma economia de mercado, mas algumas chinesas não querem se submeter à competição profissional. Preferem ser amantes de um homem de negócios", explica. Mas ela já observa isso a distância. Imperatriz encerrou sua exploração literária da China. Na casa de amigos, na costa do Mediterrâneo, Shan Sa está escrevendo seu primeiro livro ambientado na França contemporânea.

 

O cotidiano de uma concubina

"No Palácio do Sopro Celeste, eu seguia uma formação especial para as novas damas da Corte. Grande reverência, pequena reverência, saudação de reconhecimento, saudação de condescendência, saudação de igual para igual, andar rápido, andar lento. Na Cidade Proibida não havia espontaneidade. Uma vez que a naturalidade era considerada própria dos povos bárbaros, a elegância dos movimentos residia no auge da sujeição. Olhar, comer, beber, assentar-se, dormir, levantar-se, falar, escutar, os atos mais comezinhos da vida eram meticulosamente regulados por códigos estéticos e supersticiosos."

Trecho de Imperatriz

 

 
 
 
 
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