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Cinema
Yes, eles têm homem-bomba
O documentário
Fahrenheit 11
de Setembro
tem muito de libelo, de entretenimento
e
também de exagero. Às
vésperas da eleição
americana, ele pôs uma nação em polvorosa

Isabela Boscov
Reuters
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| Bush desfila diante das tropas: em 122 minutos
de filme, Moore expande as afirmações que fez
no Oscar, em 2003, sobre "um presidente e uma guerra fictícios"
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Em 6 de agosto de 2001,
depois de vários avisos feitos em reuniões, a CIA
entregou ao gabinete do presidente George W. Bush um relatório
sobre a iminente ameaça terrorista ao país. Trinta
e seis dias depois, dois aviões derrubaram as torres do World
Trade Center, em Nova York, uma terceira aeronave demoliu parte
do Pentágono, em Washington, e uma quarta foi derrubada por
ação dos passageiros antes de atingir um outro alvo
na capital americana. Por que ninguém deu atenção
ao relatório? Talvez, especula o cineasta Michael Moore,
porque seu título fosse um tanto vago. Corta para Condoleezza
Rice, assessora para Segurança Nacional, depondo no Congresso.
Qual, afinal, era o título do relatório, pergunta
o interrogador. "Bin Laden planeja atacar dentro dos Estados Unidos",
responde ela. É com justaposições como essa
que Fahrenheit
11 de Setembro (Fahrenheit 9/11,
Estados Unidos, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país,
se torna um coquetel de altíssima temperatura de documentário,
libelo e comédia. Vai desde a eleição de Bush
até os desdobramentos mais recentes no Iraque, passando por
toda espécie de teoria conspiratória, das mais às
menos críveis, no caminho. Duas coisas, porém, se
fazem presentes durante todo o filme. Primeiro, a dedicação
comovente com que os alvos de Moore providenciam munição
contra si próprios. Segundo, a firmeza com que o diretor
lhes dá belos empurrões quando eles não colaboram
voluntariamente. Moore é cheio de ardis que nem sempre primam
pela lisura, mas são de um inegável senso de oportunidade.
Por exemplo: depois de uma hilariante exposição sobre
o hábito obsessivo de Bush de sair em férias (42%
dos oito primeiros meses de mandato em folga, segundo levantamento
do jornal Washington Post), Moore corta para uma cena em
que o presidente o manda procurar um emprego de verdade. É
óbvio que uma coisa nada tem a ver com a outra, mas o efeito
da blague é exatamente o pretendido: pôr o adversário
no papel de bobo.
No momento, aliás, o emprego de Moore
parece estar mais garantido que o de Bush e aí, sim,
uma coisa tem a ver com a outra. Fahrenheit 11 de Setembro
ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes (que não costuma
aceitar documentários), tem provocado filas às portas
dos cerca de 1 000 cinemas em que está em cartaz nos Estados
Unidos (inclusive nos Estados conservadores e em cidades pequenas)
e rendeu quase 100 milhões de dólares em menos de
um mês (contra o saldo final de 21,5 milhões do recordista
anterior da categoria, Tiros em Columbine, também
de Moore). Já é o documentário mais visto da
história, e o primeiro filme, de qualquer gênero, que
pode vir a ter peso real numa decisão política de
primeira grandeza a corrida presidencial americana. Para
muitos analistas americanos, não é o democrata John
Kerry o maior rival do republicano Bush em sua campanha pela reeleição.
É Michael Moore, com sua longa, furiosa e divertidíssima
diatribe contra Bush, que nas últimas semanas ganhou páginas
e páginas diárias nos grandes jornais americanos (além
de uma capa da revista Time) e mobilizou mais debates do
que a agenda eleitoral dos dois candidatos.
Pouco mais de um ano atrás, Michael
Moore era objeto de escárnio, e não podia sair à
rua sem que cuspissem nele ou tentassem agredi-lo. Ao subir ao palco
para agradecer pelo Oscar de Tiros em Columbine, em março
de 2003, o cineasta furtou-se a agradecer ao agente, ao advogado
e à mulher, como fazem todos os ganhadores. Em vez disso,
fez um comício: "Vivemos em tempos fictícios, em que
resultados eleitorais fictícios elegem um presidente fictício,
que nos manda para a guerra por razões fictícias",
disse ele, gritando por sobre as vaias, os aplausos e o barulho
da orquestra, que tentava abafá-lo. A invasão do Iraque
começara três dias antes, e o sentimento patriótico
americano andava no auge da inflamação. Passados dezesseis
meses, são exatamente essas afirmações, escandidas
nos 122 minutos de Fahrenheit e defendidas com mais ou menos
propriedade, que tornaram Moore um sucesso. Nesse meio-tempo, claro,
muito veio à tona para fazer a balança pender para
o seu lado: a ausência de armas de destruição
em massa no Iraque, as torturas na prisão de Abu Ghraib,
os quase 1.000 soldados americanos mortos
em combate e as imagens chocantes dos quatro civis que foram queimados
e destroçados por uma multidão em Falluja, as notícias
de que muitos dos cerca de 15 000 iraquianos mortos eram civis inocentes,
a impressão de que a guerra se converteu num atoleiro do
qual será difícil desencalhar e, também, a
nitidez crescente do sentimento antiamericano não só
nas nações árabes, onde ele era esperado, mas
entre os tradicionais aliados europeus.
Fahrenheit, porém, se beneficiou
mais do que não aconteceu. Desde os atentados, a mídia
americana abriu mão (em maior ou menor grau, conforme o veículo)
daquilo que é o privilégio e a função
da imprensa: questionar. Não só deixou, no geral,
de fazer perguntas incômodas em momentos delicados, como em
várias oportunidades acatou as sugestões do governo
sobre autocensura não mostrar imagens dos corpos dos
americanos assassinados em Falluja, dos caixões voltando
para casa cobertos com a bandeira americana ou de qualquer coisa
que pudesse voltar a opinião pública contra a invasão
do Iraque. Mesmo as cenas de tortura em Abu Ghraib que ganharam
divulgação foram editadas. Os congressistas que viram
todo o material dizem haver ali imagens muito mais repugnantes.
Grosso modo, portanto, prevaleceu a versão oficial dos fatos
o que, no âmbito da platéia americana, aumenta
consideravelmente o poder de fogo de Fahrenheit.
Tome-se um exemplo quase insignificante. Quando
recebeu a notícia cochichada em seu ouvido por um
assessor de que um segundo avião atingira o World
Trade Center, George W. Bush fazia uma visita a uma escolinha da
Flórida. Durante os sete minutos seguintes ele ficou sentado,
quieto, com um semblante entre o atônito e o ausente, lendo
My Pet Goat (Minha Cabra de Estimação) com
as crianças. Um pequeno trecho dessa imagem aquele
em que o presidente recebe a informação foi
exibido em todas as televisões do mundo no dia dos atentados.
Por que não se mencionaram os sete minutos de paralisia?
A explicação para eles talvez fosse perfeitamente
razoável o presidente teria sido instruído
a ficar onde estava até que se pudesse garantir sua proteção.
Mas existe também a hipótese de que Bush não
soubesse o que fazer, um dado que certamente interessaria aos cidadãos.
Na falta do questionamento e da objetividade que resultaria dele,
abre-se terreno para a especulação e o populismo.
Em Fahrenheit, Moore usa a versão longa dessa imagem
para atribuir todo tipo de pensamento ao presidente, em especial
sobre as ligações da família Bush com os sauditas
donos do petróleo, entre os quais se incluem vários
parentes de Osama bin Laden. É muito engraçado e até
informativo, mas não é legítimo. Se Moore pode
dar-se ao luxo de teorizar livremente, porém, é porque
a mídia deixou que tal vácuo se criasse.
Esse é um dos perigos de Fahrenheit
11 de Setembro tomá-lo ao pé da letra.
O filme é muito menos um documentário do que um libelo
eficaz e uma sátira brilhante, capaz de provocar gargalhadas
durante toda a sua primeira hora. Há a paródia em
tom de western da ocupação do Afeganistão,
o desastrado comercial de pára-quedas para quem deseja escapar
de edifícios em chamas, o caso do aposentado que falou mal
do governo na academia de ginástica e foi interrogado pelo
FBI, ou ainda a bizarra infiltração policial num núcleo
de pacifistas da cidade californiana de Fresno (autodenominada "a
capital americana da fruta seca"). Moore domina também todas
as táticas da confrontação, como quando aborda
deputados, na calçada do Congresso, para pressioná-los
a mandar seus próprios filhos para a guerra. A montagem habilíssima
do filme, aliás, privilegia tanto esse viés cômico
que, em mais de uma ocasião, termina por reduzir a voltagem
do que ele tem a apresentar como a seqüência em
que dois fuzileiros navais percorrem shopping centers de periferia
para recrutar jovens pobres com promessas de um futuro dourado.
Quando recorre à sobriedade, ele é capaz de causar
muito mais mal-estar. É o caso de uma sessão do Senado
em que Al Gore, na qualidade de presidente da Casa, tem de rejeitar
as petições de eleitores negros para que se faça
a recontagem de votos na Flórida (o que poderia dar a ele,
Gore, a Presidência) porque elas não trazem a assinatura
de um senador que as endosse.
Em outros momentos, Moore usa as mesmas manhas
que atribui à Casa Branca maquiagem, distorção,
omissão, exploração sentimental. O que querem
significar, por exemplo, as cenas de criancinhas risonhas empinando
pipas em Bagdá? Que o Iraque era feliz com Saddam Hussein?
É justo indagar se os iraquianos estavam dispostos a trocar
seu ditador por carros-bomba quase diários, mas não
é honesto circunvencionar esse argumento com imagens fora
de contexto. Esse ranço apelativo contamina também
a última parte de Fahrenheit, dedicada a uma assistente
social de Flint, no Estado de Michigan a cidade natal de
Moore , que se converte à corrente anti-Bush após
perder seu filho em combate. Moore tem ainda a reputação
de manobrar fatos e estatísticas segundo sua conveniência.
Depois de ser pego em uma ou outra falta em Tiros em Columbine,
ele contratou a equipe de checagem da revista New Yorker,
célebre por sua precisão obsessiva, para desconstruir
Fahrenheit em busca de dados duvidosos. Na versão
que está nos cinemas, diz, não há nada que
possa ser contestado sem que ele, Michael Moore, possa retrucar
até nos tribunais. Moore promete processar também
qualquer um que saia dizendo que, graças ao sucesso de seus
filmes e best-sellers (como Cara, Cadê o Meu País?
e Stupid White Men Uma Nação de Idiotas,
ambos publicados no Brasil), ele agora mora numa cobertura da Quinta
Avenida com hidromassagem no terraço. Essas controvérsias,
entretanto, bastam para que os democratas "tão patéticos
que, mesmo quando ganham, perdem", nas palavras de Moore
venham mantendo uma distância cautelosa do cineasta e de seu
filme. A assessoria de John Kerry, por exemplo, apressou-se em afirmar
que o candidato não assistiu a Fahrenheit.
Moore é um polemista por vocação.
A origem proletária e a imagem de intransigente são
uma parte importante do patrimônio que ele explora em seus
livros, programas de televisão e documentários
daí sua preocupação em que não venham
a manchá-las. Até aqui, as tentativas de atingi-lo
só o têm ajudado em sua cruzada: o ódio de várias
facções, algumas articuladas o suficiente para elaborar
contra-ataques como o documentário, ainda em produção,
Michael Moore Hates America (Michael Moore Odeia a América),
é o tipo de publicidade gratuita que o cineasta adora. O
fato de que há muito de nebuloso em Fahrenheit 11 de Setembro,
porém, não invalida os méritos do filme. O
maior deles, provavelmente, é reinstituir uma certa dose
de irreverência no debate político. A combinação
de informação, diversão e vituperação
de Michael Moore é, em muitos aspectos, um retrocesso em
relação ao pendor crítico que a mídia
americana demonstrou em outras passagens de sua história,
como a era Nixon. Mas não há dúvida também
de que ele representa um avanço em relação
a um retrocesso maior o clima de consenso obrigatório
e coerção que os Estados Unidos têm vivido desde
a manhã de 11 de setembro de 2001.
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As provocações de Moore
Fotos divulgação
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APREENSÃO
OU HESITAÇÃO?
Numa escola da Flórida, Bush passa
sete minutos imóvel, após a notícia
do segundo atentado ao WTC. As razões desse
hiato nunca foram explicadas, e Moore aproveita
para imaginar, a seu gosto, o tipo de reflexão
que o presidente estaria fazendo |
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SOFRIMENTO
MATERNO
Moore dedica boa parte de seu filme a
Lila Lipscomb, que perdeu um filho no Iraque e
se voltou contra a guerra. É comovente,
mas reproduz uma das piores táticas que
o diretor atribui ao governo: exploração
sentimental |
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O
TIO SAM QUER VOCÊ
Dois fuzileiros navais recrutam jovens
em Flint, Michigan, com todo tipo de promessa:
os pobres são mais suscetíveis,
diz o diretor, e por isso constituem o alvo favorito
dessas ações |
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BUSH
E SUAS LONGAS FÉRIAS
Segundo levantamento do jornal Washington
Post, o presidente passou 42% dos oito meses
iniciais do mandato em férias. Moore tira
ótimo proveito desse hábito |
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A
MÍDIA FINGIU NÃO VER
Iraquianos festejam em volta dos corpos
queimados e destroçados de soldados americanos:
a mídia agiu como uma "líder
de torcida", diz Moore, e evitou mostrar
os efeitos chocantes da guerra |
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A
MÍDIA FINGIU NÃO VER
Iraquianos festejam em volta dos corpos
queimados e destroçados de soldados americanos:
a mídia agiu como uma "líder
de torcida", diz Moore, e evitou mostrar
os efeitos chocantes da guerra |
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MM é um agente da CIA
Considere-se
a seguinte hipótese: atormentada pelas trapalhadas
de George W. Bush, a cúpula da CIA resolve criar
um antídoto perfeito. Um homem supostamente de
esquerda que vai falar tantos horrores sobre o presidente
americano, defendendo teses tão primárias,
atribuindo-lhe maldades tão ignóbeis,
que até os maiores adversários de Bush
se sentirão constrangidos. Recorrendo ao seu
laboratório secreto, onde vicejam clones (juntamente
com ETs escamoteados aos olhos do mundo), produzem o
anti-Bush. Até no físico ele é
um antípoda mas deve provocar, com sinal
invertido, a mesma e imediata reação de
repulsa. Onde os olhinhos do presidente são espremidos,
ele os tem esbugalhados. Em lugar do físico milimetricamente
mantido à base de exercícios, um oceano
primal de gordura. As vestimentas desleixadas e a cabeleira
ensebada, coroada pelo boné que nos Estados Unidos
é o signo das classes proletárias, contrapõem-se
ao correto figurino presidencial. O agente secreto terá
o cinema como instrumento de trabalho e, o leitor já
adivinhou, se chamará Michael Moore.
E lá
se vai o nosso agente. Sua missão é espalhar
idéias estapafúrdias que pulverizem a
credibilidade de qualquer oposição a Bush.
Posando de americano comum, ele deve despertar o repúdio
exatamente desse cidadão médio, que não
costuma achar graça quando o presidente do país
é: 1) seguidamente ridicularizado, através
da manipulação flagrante de imagens, ou
2) indiretamente acusado de conluio, imaginem só,
com os maiores inimigos dos Estados Unidos, os homens
que atacaram o coração da América,
mataram 3 000 inocentes e seguem conspirando contra
a nação. Missão cumprida?
Nada disso.
Como se sabe, a CIA tem um histórico sólido
de análises equivocadas, previsões desmentidas,
planos frustrados (ou versões domesticadas da
realidade, como aconteceu quando quis dar a um famoso
presidente o pretexto que ele pedia para invadir um
país do Oriente Médio). Michael Moore
será mais uma das experiências que escapam
ao controle dos homens de preto que dominam o mundo.
De repente, ele começa a dar certo. Em lugar
de desdém, suas teorias conspiratórias
são recebidas com entusiasmo. Ataque ao Afeganistão?
É claro que o objetivo secreto era construir
um gasoduto. Iraque? Petróleo, evidentemente.
Explicações primárias para situações
complexas são aplaudidas por inteligências
que normalmente se sentiriam insultadas por coisa muito
mais sofisticada. O agente MM é premiado, afagado,
incensado. Liberais de todos os matizes, de Leonardo
DiCaprio (sim, o namorado de Gisele tem pendores políticos)
ao bloco de parlamentares negros do Congresso americano,
posam a seu lado. Pior ainda: ele faz um filme bom.
Desonesto, manipulativo, delirante. Mas bom.
Bush e suas
coortes, reconheça-se, colaboram. Desde Paul
Wolfowitz, o comandante dos neoconservadores do governo
americano, azeitando um pente com saliva para dar um
jeito no cabelo antes de aparecer diante da câmera,
numa cena hilária, até o próprio
presidente, notório pela desarticulação
verbal. O trabalho inacreditavelmente malfeito no Iraque,
os ataques às liberdades civis em nome do combate
ao terrorismo, o próprio horror da guerra
justa, injusta ou simplesmente inexplicada , tudo
ajuda. A CIA criou um monstro, o governo Bush cevou-o,
a Arábia Saudita pagou a conta, nós o
aturamos.
Tudo o que
foi escrito acima evidentemente é apenas uma
paródia das teorias conspiracionistas tão
caras a Michael Moore.
Ou não.
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