Edição 1864 . 28 de julho de 2004

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Cinema
Yes, eles têm homem-bomba

O documentário Fahrenheit 11 de Setembro
tem muito
de libelo, de entretenimento e
também de exagero.
Às vésperas da eleição
americana, ele pôs uma nação em polvorosa


Isabela Boscov


Reuters
Bush desfila diante das tropas: em 122 minutos de filme, Moore expande as afirmações que fez no Oscar, em 2003, sobre "um presidente e uma guerra fictícios"


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Trailer, fotos e outras informações

Em 6 de agosto de 2001, depois de vários avisos feitos em reuniões, a CIA entregou ao gabinete do presidente George W. Bush um relatório sobre a iminente ameaça terrorista ao país. Trinta e seis dias depois, dois aviões derrubaram as torres do World Trade Center, em Nova York, uma terceira aeronave demoliu parte do Pentágono, em Washington, e uma quarta foi derrubada por ação dos passageiros antes de atingir um outro alvo na capital americana. Por que ninguém deu atenção ao relatório? Talvez, especula o cineasta Michael Moore, porque seu título fosse um tanto vago. Corta para Condoleezza Rice, assessora para Segurança Nacional, depondo no Congresso. Qual, afinal, era o título do relatório, pergunta o interrogador. "Bin Laden planeja atacar dentro dos Estados Unidos", responde ela. É com justaposições como essa que Fahrenheit 11 de Setembro (Fahrenheit 9/11, Estados Unidos, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país, se torna um coquetel de altíssima temperatura de documentário, libelo e comédia. Vai desde a eleição de Bush até os desdobramentos mais recentes no Iraque, passando por toda espécie de teoria conspiratória, das mais às menos críveis, no caminho. Duas coisas, porém, se fazem presentes durante todo o filme. Primeiro, a dedicação comovente com que os alvos de Moore providenciam munição contra si próprios. Segundo, a firmeza com que o diretor lhes dá belos empurrões quando eles não colaboram voluntariamente. Moore é cheio de ardis que nem sempre primam pela lisura, mas são de um inegável senso de oportunidade. Por exemplo: depois de uma hilariante exposição sobre o hábito obsessivo de Bush de sair em férias (42% dos oito primeiros meses de mandato em folga, segundo levantamento do jornal Washington Post), Moore corta para uma cena em que o presidente o manda procurar um emprego de verdade. É óbvio que uma coisa nada tem a ver com a outra, mas o efeito da blague é exatamente o pretendido: pôr o adversário no papel de bobo.

No momento, aliás, o emprego de Moore parece estar mais garantido que o de Bush – e aí, sim, uma coisa tem a ver com a outra. Fahrenheit 11 de Setembro ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes (que não costuma aceitar documentários), tem provocado filas às portas dos cerca de 1 000 cinemas em que está em cartaz nos Estados Unidos (inclusive nos Estados conservadores e em cidades pequenas) e rendeu quase 100 milhões de dólares em menos de um mês (contra o saldo final de 21,5 milhões do recordista anterior da categoria, Tiros em Columbine, também de Moore). Já é o documentário mais visto da história, e o primeiro filme, de qualquer gênero, que pode vir a ter peso real numa decisão política de primeira grandeza – a corrida presidencial americana. Para muitos analistas americanos, não é o democrata John Kerry o maior rival do republicano Bush em sua campanha pela reeleição. É Michael Moore, com sua longa, furiosa e divertidíssima diatribe contra Bush, que nas últimas semanas ganhou páginas e páginas diárias nos grandes jornais americanos (além de uma capa da revista Time) e mobilizou mais debates do que a agenda eleitoral dos dois candidatos.

Pouco mais de um ano atrás, Michael Moore era objeto de escárnio, e não podia sair à rua sem que cuspissem nele ou tentassem agredi-lo. Ao subir ao palco para agradecer pelo Oscar de Tiros em Columbine, em março de 2003, o cineasta furtou-se a agradecer ao agente, ao advogado e à mulher, como fazem todos os ganhadores. Em vez disso, fez um comício: "Vivemos em tempos fictícios, em que resultados eleitorais fictícios elegem um presidente fictício, que nos manda para a guerra por razões fictícias", disse ele, gritando por sobre as vaias, os aplausos e o barulho da orquestra, que tentava abafá-lo. A invasão do Iraque começara três dias antes, e o sentimento patriótico americano andava no auge da inflamação. Passados dezesseis meses, são exatamente essas afirmações, escandidas nos 122 minutos de Fahrenheit e defendidas com mais ou menos propriedade, que tornaram Moore um sucesso. Nesse meio-tempo, claro, muito veio à tona para fazer a balança pender para o seu lado: a ausência de armas de destruição em massa no Iraque, as torturas na prisão de Abu Ghraib, os quase 1.000 soldados americanos mortos em combate e as imagens chocantes dos quatro civis que foram queimados e destroçados por uma multidão em Falluja, as notícias de que muitos dos cerca de 15 000 iraquianos mortos eram civis inocentes, a impressão de que a guerra se converteu num atoleiro do qual será difícil desencalhar e, também, a nitidez crescente do sentimento antiamericano não só nas nações árabes, onde ele era esperado, mas entre os tradicionais aliados europeus.

Fahrenheit, porém, se beneficiou mais do que não aconteceu. Desde os atentados, a mídia americana abriu mão (em maior ou menor grau, conforme o veículo) daquilo que é o privilégio e a função da imprensa: questionar. Não só deixou, no geral, de fazer perguntas incômodas em momentos delicados, como em várias oportunidades acatou as sugestões do governo sobre autocensura – não mostrar imagens dos corpos dos americanos assassinados em Falluja, dos caixões voltando para casa cobertos com a bandeira americana ou de qualquer coisa que pudesse voltar a opinião pública contra a invasão do Iraque. Mesmo as cenas de tortura em Abu Ghraib que ganharam divulgação foram editadas. Os congressistas que viram todo o material dizem haver ali imagens muito mais repugnantes. Grosso modo, portanto, prevaleceu a versão oficial dos fatos – o que, no âmbito da platéia americana, aumenta consideravelmente o poder de fogo de Fahrenheit.

Tome-se um exemplo quase insignificante. Quando recebeu a notícia – cochichada em seu ouvido por um assessor – de que um segundo avião atingira o World Trade Center, George W. Bush fazia uma visita a uma escolinha da Flórida. Durante os sete minutos seguintes ele ficou sentado, quieto, com um semblante entre o atônito e o ausente, lendo My Pet Goat (Minha Cabra de Estimação) com as crianças. Um pequeno trecho dessa imagem – aquele em que o presidente recebe a informação – foi exibido em todas as televisões do mundo no dia dos atentados. Por que não se mencionaram os sete minutos de paralisia? A explicação para eles talvez fosse perfeitamente razoável – o presidente teria sido instruído a ficar onde estava até que se pudesse garantir sua proteção. Mas existe também a hipótese de que Bush não soubesse o que fazer, um dado que certamente interessaria aos cidadãos. Na falta do questionamento e da objetividade que resultaria dele, abre-se terreno para a especulação e o populismo. Em Fahrenheit, Moore usa a versão longa dessa imagem para atribuir todo tipo de pensamento ao presidente, em especial sobre as ligações da família Bush com os sauditas donos do petróleo, entre os quais se incluem vários parentes de Osama bin Laden. É muito engraçado e até informativo, mas não é legítimo. Se Moore pode dar-se ao luxo de teorizar livremente, porém, é porque a mídia deixou que tal vácuo se criasse.

Esse é um dos perigos de Fahrenheit 11 de Setembro – tomá-lo ao pé da letra. O filme é muito menos um documentário do que um libelo eficaz e uma sátira brilhante, capaz de provocar gargalhadas durante toda a sua primeira hora. Há a paródia em tom de western da ocupação do Afeganistão, o desastrado comercial de pára-quedas para quem deseja escapar de edifícios em chamas, o caso do aposentado que falou mal do governo na academia de ginástica e foi interrogado pelo FBI, ou ainda a bizarra infiltração policial num núcleo de pacifistas da cidade californiana de Fresno (autodenominada "a capital americana da fruta seca"). Moore domina também todas as táticas da confrontação, como quando aborda deputados, na calçada do Congresso, para pressioná-los a mandar seus próprios filhos para a guerra. A montagem habilíssima do filme, aliás, privilegia tanto esse viés cômico que, em mais de uma ocasião, termina por reduzir a voltagem do que ele tem a apresentar – como a seqüência em que dois fuzileiros navais percorrem shopping centers de periferia para recrutar jovens pobres com promessas de um futuro dourado. Quando recorre à sobriedade, ele é capaz de causar muito mais mal-estar. É o caso de uma sessão do Senado em que Al Gore, na qualidade de presidente da Casa, tem de rejeitar as petições de eleitores negros para que se faça a recontagem de votos na Flórida (o que poderia dar a ele, Gore, a Presidência) porque elas não trazem a assinatura de um senador que as endosse.

Em outros momentos, Moore usa as mesmas manhas que atribui à Casa Branca – maquiagem, distorção, omissão, exploração sentimental. O que querem significar, por exemplo, as cenas de criancinhas risonhas empinando pipas em Bagdá? Que o Iraque era feliz com Saddam Hussein? É justo indagar se os iraquianos estavam dispostos a trocar seu ditador por carros-bomba quase diários, mas não é honesto circunvencionar esse argumento com imagens fora de contexto. Esse ranço apelativo contamina também a última parte de Fahrenheit, dedicada a uma assistente social de Flint, no Estado de Michigan – a cidade natal de Moore –, que se converte à corrente anti-Bush após perder seu filho em combate. Moore tem ainda a reputação de manobrar fatos e estatísticas segundo sua conveniência. Depois de ser pego em uma ou outra falta em Tiros em Columbine, ele contratou a equipe de checagem da revista New Yorker, célebre por sua precisão obsessiva, para desconstruir Fahrenheit em busca de dados duvidosos. Na versão que está nos cinemas, diz, não há nada que possa ser contestado sem que ele, Michael Moore, possa retrucar até nos tribunais. Moore promete processar também qualquer um que saia dizendo que, graças ao sucesso de seus filmes e best-sellers (como Cara, Cadê o Meu País? e Stupid White Men – Uma Nação de Idiotas, ambos publicados no Brasil), ele agora mora numa cobertura da Quinta Avenida com hidromassagem no terraço. Essas controvérsias, entretanto, bastam para que os democratas – "tão patéticos que, mesmo quando ganham, perdem", nas palavras de Moore – venham mantendo uma distância cautelosa do cineasta e de seu filme. A assessoria de John Kerry, por exemplo, apressou-se em afirmar que o candidato não assistiu a Fahrenheit.

Moore é um polemista por vocação. A origem proletária e a imagem de intransigente são uma parte importante do patrimônio que ele explora em seus livros, programas de televisão e documentários – daí sua preocupação em que não venham a manchá-las. Até aqui, as tentativas de atingi-lo só o têm ajudado em sua cruzada: o ódio de várias facções, algumas articuladas o suficiente para elaborar contra-ataques como o documentário, ainda em produção, Michael Moore Hates America (Michael Moore Odeia a América), é o tipo de publicidade gratuita que o cineasta adora. O fato de que há muito de nebuloso em Fahrenheit 11 de Setembro, porém, não invalida os méritos do filme. O maior deles, provavelmente, é reinstituir uma certa dose de irreverência no debate político. A combinação de informação, diversão e vituperação de Michael Moore é, em muitos aspectos, um retrocesso em relação ao pendor crítico que a mídia americana demonstrou em outras passagens de sua história, como a era Nixon. Mas não há dúvida também de que ele representa um avanço em relação a um retrocesso maior – o clima de consenso obrigatório e coerção que os Estados Unidos têm vivido desde a manhã de 11 de setembro de 2001.

 

As provocações de Moore


Fotos divulgação
APREENSÃO OU HESITAÇÃO?
Numa escola da Flórida, Bush passa sete minutos imóvel, após a notícia do segundo atentado ao WTC. As razões desse hiato nunca foram explicadas, e Moore aproveita para imaginar, a seu gosto, o tipo de reflexão que o presidente estaria fazendo


SOFRIMENTO MATERNO
Moore dedica boa parte de seu filme a Lila Lipscomb, que perdeu um filho no Iraque e se voltou contra a guerra. É comovente, mas reproduz uma das piores táticas que o diretor atribui ao governo: exploração sentimental


O TIO SAM QUER VOCÊ
Dois fuzileiros navais recrutam jovens em Flint, Michigan, com todo tipo de promessa: os pobres são mais suscetíveis, diz o diretor, e por isso constituem o alvo favorito dessas ações


BUSH E SUAS LONGAS FÉRIAS
Segundo levantamento do jornal Washington Post, o presidente passou 42% dos oito meses iniciais do mandato em férias. Moore tira ótimo proveito desse hábito


A MÍDIA FINGIU NÃO VER
Iraquianos festejam em volta dos corpos queimados e destroçados de soldados americanos: a mídia agiu como uma "líder de torcida", diz Moore, e evitou mostrar os efeitos chocantes da guerra


A MÍDIA FINGIU NÃO VER
Iraquianos festejam em volta dos corpos queimados e destroçados de soldados americanos: a mídia agiu como uma "líder de torcida", diz Moore, e evitou mostrar os efeitos chocantes da guerra

 

MM é um agente da CIA

Considere-se a seguinte hipótese: atormentada pelas trapalhadas de George W. Bush, a cúpula da CIA resolve criar um antídoto perfeito. Um homem supostamente de esquerda que vai falar tantos horrores sobre o presidente americano, defendendo teses tão primárias, atribuindo-lhe maldades tão ignóbeis, que até os maiores adversários de Bush se sentirão constrangidos. Recorrendo ao seu laboratório secreto, onde vicejam clones (juntamente com ETs escamoteados aos olhos do mundo), produzem o anti-Bush. Até no físico ele é um antípoda – mas deve provocar, com sinal invertido, a mesma e imediata reação de repulsa. Onde os olhinhos do presidente são espremidos, ele os tem esbugalhados. Em lugar do físico milimetricamente mantido à base de exercícios, um oceano primal de gordura. As vestimentas desleixadas e a cabeleira ensebada, coroada pelo boné que nos Estados Unidos é o signo das classes proletárias, contrapõem-se ao correto figurino presidencial. O agente secreto terá o cinema como instrumento de trabalho e, o leitor já adivinhou, se chamará Michael Moore.

E lá se vai o nosso agente. Sua missão é espalhar idéias estapafúrdias que pulverizem a credibilidade de qualquer oposição a Bush. Posando de americano comum, ele deve despertar o repúdio exatamente desse cidadão médio, que não costuma achar graça quando o presidente do país é: 1) seguidamente ridicularizado, através da manipulação flagrante de imagens, ou 2) indiretamente acusado de conluio, imaginem só, com os maiores inimigos dos Estados Unidos, os homens que atacaram o coração da América, mataram 3 000 inocentes e seguem conspirando contra a nação. Missão cumprida?

Nada disso. Como se sabe, a CIA tem um histórico sólido de análises equivocadas, previsões desmentidas, planos frustrados (ou versões domesticadas da realidade, como aconteceu quando quis dar a um famoso presidente o pretexto que ele pedia para invadir um país do Oriente Médio). Michael Moore será mais uma das experiências que escapam ao controle dos homens de preto que dominam o mundo. De repente, ele começa a dar certo. Em lugar de desdém, suas teorias conspiratórias são recebidas com entusiasmo. Ataque ao Afeganistão? É claro que o objetivo secreto era construir um gasoduto. Iraque? Petróleo, evidentemente. Explicações primárias para situações complexas são aplaudidas por inteligências que normalmente se sentiriam insultadas por coisa muito mais sofisticada. O agente MM é premiado, afagado, incensado. Liberais de todos os matizes, de Leonardo DiCaprio (sim, o namorado de Gisele tem pendores políticos) ao bloco de parlamentares negros do Congresso americano, posam a seu lado. Pior ainda: ele faz um filme bom. Desonesto, manipulativo, delirante. Mas bom.

Bush e suas coortes, reconheça-se, colaboram. Desde Paul Wolfowitz, o comandante dos neoconservadores do governo americano, azeitando um pente com saliva para dar um jeito no cabelo antes de aparecer diante da câmera, numa cena hilária, até o próprio presidente, notório pela desarticulação verbal. O trabalho inacreditavelmente malfeito no Iraque, os ataques às liberdades civis em nome do combate ao terrorismo, o próprio horror da guerra – justa, injusta ou simplesmente inexplicada –, tudo ajuda. A CIA criou um monstro, o governo Bush cevou-o, a Arábia Saudita pagou a conta, nós o aturamos.

Tudo o que foi escrito acima evidentemente é apenas uma paródia das teorias conspiracionistas tão caras a Michael Moore.

Ou não.

 

 
 
 
 
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