Edição 1864 . 28 de julho de 2004

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Estilo
Feitas para sonhar

Para reforçar a imagem, e faturar,
grifes de luxo lançam
jóias que equivalem
à alta-costura:
pouquíssimos podem comprar


Flávia Varella, de Paris


Divulgação
Salamandra, dragões e medusa: o inusitado predomina no Bestiário Fantástico, da Dior


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Há 150 anos produzindo acessórios de luxo de couro e mais recentemente moda, a grife francesa Louis Vuitton lançou no início deste mês sua primeira coleção de jóias. Além das obrigatórias flores estilizadas do monograma da marca, anéis, brincos, colares e pulseiras têm espírito jovem e fazem referências constantes a seu ícone máximo, as bolsas. Assim, quase todas as peças são arrematadas por tarraxas arredondadas e miniaturas dos fechos das bolsas e malas, tudo de ouro, diamantes e pedras preciosas, com detalhes no couro macio e brilhante que faz sua fama. Com a introdução desses materiais valiosos em sua bagagem, a Louis Vuitton desembarca num mercado em expansão, o da alta joalheria – um dos principais responsáveis pelos sinais de retomada dos lucros que a indústria do luxo apresenta depois de três anos minguados. A entrada no mundo das jóias explora um veio único: no geral, as grandes grifes lucram com os produtos menos caros, de lenços a perfumes, dirigidos a consumidoras que apenas podem admirar de longe os produtos de alto luxo, como os vestidos de alta-costura. As peças mais "importantes", como se diz no jargão, visam a um público tão rarefeito quanto o da alta moda. Para as mortais comuns, funcionam como um reforço à imagem da marca – e um incentivo ao sonho.

A Louis Vuitton está entrando num segmento em que outras grifes renomadas, como Christian Dior e Chanel, já procuram espaço. Elas lançam duas coleções de jóias por ano, e têm lojas na Praça Vendôme, em Paris, a meca das joalherias mais chiques do mundo. A italiana Versace, desde o ano passado, salpica de diamantes alguns de seus pingentes e anéis para valorizar sua linha de acessórios. A estréia de grandes marcas no mundo das jóias agita mais ainda o mercado de diamantes, que vive momentos de ebulição. A sul-africana De Beers, que durante décadas monopolizou o comércio de diamantes brutos, vem tendo sua posição abalada pela ambiciosa Alrosa, do israelense Lev Leviev, num embate de gigantes. A coleção LV é produto de uma tentativa da De Beers, que se associou à grife, de entrar na esfera das pedras lapidadas e montadas.


Divulgação
Christina Ricci e sua ametista: a marca é Louis Vuitton; o preço, só para quem fizer a encomenda

Num ramo de negócios em que imagem é tudo, as grifes de alto luxo procuram transportar para suas jóias toques do estilo que as consolidou no ramo de roupas e acessórios. A Louis Vuitton fez um anel chamado Mini-Mala, no qual um quartzo rosa e outro fumê são fixados a duas placas de ouro branco com tarraxas. Os três aros em que o dedo entra lembram alças. Tudo pretende refletir o estilo jovem e moderno das criações de Marc Jacobs, o estilista da marca. "Decidimos entrar num novo ramo para reforçar nossa imagem de marca de luxo global e ampliar nosso savoir-faire. Mas todas as atividades têm de estar ligadas, para conservar a coerência da grife", disse a VEJA Stephanie Le Badezet, gerente de marketing da Louis Vuitton.

Já que a idéia é impulsionar a imagem, as jóias Chanel são calcadas na herança de mademoiselle em pessoa. Sua coleção mais famosa, a Bijoux de Diamants, lançada em 1932, foi reeditada em 2002 em peças "reinterpretadas": o famoso colar Cometa, por exemplo, que dá a volta ao pescoço mas não fecha, caindo na direção do colo (Hebe Camargo ostenta um idêntico), ganhou versão mais flexível com uma estrela em cada ponta e um total de 3.593 diamantes. A coleção de primavera deste ano é inspirada em Veneza e faz referência à influência que o espírito barroco-bizantino da cidade italiana teve sobre a fundadora da marca. Entre as jóias Chanel de todos os tempos, destacam-se os quartzos imensos (no anel Cristaux Glacés, ele tem 30 quilates), a gargantilha Swing, de franjas salpicadas com 955 diamantes, e um deslumbrante relógio-bracelete de aros ondulantes que vão até o meio do braço, encimados por um diamante rosa.

As jóias da Christian Dior, criadas pela designer Victoire de Castellane, também recorrem aos famosos arquivos, onde está a memória das marcas mais legendárias. As peças são inspiradas nos laços, espartilhos, plumas e frufrus das saias produzidas pelo estilista. A cada coleção, porém, a criadora ameniza a tradição e enfatiza o inusitado. "Costumo dizer que o luxo aceita todos os caprichos da imaginação. Por isso, exagero, ouso. Meu estilo não é o mesmo de John Galliano, que faz as roupas Dior. Mas acho que nós dois temos um ponto em comum: a extravagância", disse Victoire a VEJA. Algumas jóias da linha Bestiário Fantástico deste ano, composta de medusas, quimeras, dragões e salamandras, demoram um ano e meio para ser feitas – peças únicas cujos preços começam em 150.000 euros (cerca de 555.000 reais). Na Louis Vuitton, a tabela é, por assim dizer, mais modesta: há brincos a 500 euros (1.850 reais), embora o anelão de ametista usado pela atriz Christina Ricci na propaganda da marca nem tenha etiqueta de preço. Só é feito "sob encomenda".


Fotos divulgação
ação
Gargantilha de franja, anelão e o fantástico relógio-bracelete da Chanel: inspiração nas peças de mademoiselle

 

 
 
 
 
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