Edição 1864 . 28 de julho de 2004

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Olimpíadas
A hora do cheque

As semanas que antecedem os Jogos são
as melhores para os atletas engordarem
a conta bancária


André Fontenelle


Divulgação Federação Internacional de Vôlei
Bernardinho e o prêmio equivalente a 1,6 milhão de reais: a maior parte do dinheiro fica com os atletas e a comissão técnica


Nas próximas semanas, muitos dos 245 rostos da delegação brasileira enviada aos Jogos Olímpicos de Atenas se tornarão bastante familiares. Não necessariamente pelas medalhas que vão conquistar, mas pelas campanhas publicitárias que estrelam. O negócio interessa às duas partes: as empresas associam sua imagem aos bem-sucedidos atletas que durante dezessete dias serão campeões de audiência. E estes aproveitam a ocasião para faturar mais. É o caso, por exemplo, da ginasta Daiane dos Santos, que tem contrato desde 2002 com uma empresa de telefonia. O valor que recebe mensalmente aumenta à medida que seus resultados progridem, mas neste ano deu um salto olímpico: estima-se que tenha passado de 15.000 para 60.000 reais. Nada mau para quem antes tinha o patrocínio de uma pizzaria de Porto Alegre.

Anuncia-se de tudo, de leite a refrigerantes, passando por calçados e bingos. O nadador Fernando Scherer associou sua imagem à carne de gado nelore. "Experimentei a carne e não tinha por que não aceitar o contrato", ele conta. Treinadores, como Bernardinho, também aproveitam a onda. O técnico da seleção masculina de voleibol já apareceu neste ano em comerciais de calçados esportivos e de uma bebida à base de soja.

Além da publicidade, os prêmios engordam o faturamento pré-olímpico. A vitória na Liga Mundial de Vôlei, um treinamento para os Jogos de Atenas, rendeu ao time de Bernardinho um cheque de 1,6 milhão de reais. A maior parte desse valor será dividida entre os jogadores e a comissão técnica. Os bons resultados dos últimos meses valeram a Jadel Gregório, candidato a uma medalha no salto triplo, uma barra de ouro de meio quilo (equivalente a 19.000 reais), presente de seu patrocinador, a Bolsa de Mercadorias e Futuros de São Paulo. Há mais de uma década a entidade patrocina o atletismo e, a cada olimpíada, premia os medalhistas olímpicos brasileiros com barras de ouro. "Escolhemos o atletismo porque reúne atletas com menor poder aquisitivo", afirma o presidente do conselho de administração da entidade, Manoel Felix Cintra Neto. Segundo ele, no último ano foram gastos cerca de 4,5 milhões de reais no esporte.

Apoios de longo prazo, como o do Banespa, há vinte anos no vôlei (2,8 milhões de reais anuais), são exceção. A maior parte dos contratos de patrocínio assinados pelos atletas olímpicos vale por poucos meses, antes e depois dos Jogos. Às vésperas das Olimpíadas, representantes das empresas caçam garotos-propaganda nas pistas, quadras e piscinas, levando contratos já redigidos para oferecer a quem se qualifica para os Jogos. Em junho, no campeonato brasileiro de atletismo, houve quem assinasse patrocínios de 1.500 reais mensais. É pouco para um atleta de alto nível, mas bem mais do que em Olimpíadas passadas, quando os atletas ainda não podiam se declarar profissionais. "No meu tempo pagava-se muito pouco", diz Joaquim Cruz, campeão olímpico dos 800 metros em 1984.

 
 
 
 
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