Edição 1864 . 28 de julho de 2004

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Comportamento
O macho cruel

Os homens seriam naturalmente
mais propensos à perversidade do
que as mulheres. Culpa dos genes


Monica Weinberg


J. Gomes/Rondoniagora/AE
Barbárie em presídio de Rondônia: a brutalidade de origem genética estimulada pelo meio social

Com uma regularidade muito além do tolerável, o noticiário mostra presos rebelados torturando inimigos e matando-os com requintes de perversidade. Também é relativamente comum virem à tona histórias macabras de serial killers, como a do maranhense que matou e retalhou 41 crianças. Para além das explicações sociológicas e daquelas de caráter estritamente individual (psicológicas por excelência), os estudiosos procuram saber se haveria um motivo mais recôndito – e geral – para os crimes que envolvem crueldade. Se cometer um delito significa freqüentemente fazer uso de força bruta, praticar um ato cruel é diferente: envolve prazer em fazer o mal.

No passado, esse prazer, mais disseminado e livre, serviu para erigir impérios dentro do que seria o território da legalidade. Mutilar e esquartejar os inimigos e estuprar as suas mulheres era uma forma corriqueira e aceita de exibir a força dos vencedores. O processo civilizatório ajudou a conter a crueldade, limitando-a no mais das vezes ao terreno da criminalidade pura e simples, mas foi incapaz de eliminá-la. Por quê? O que leva, afinal, alguém a infligir dor e tormento a suas vítimas? E por que, na esmagadora maioria dos casos, esses delinqüentes são homens? A explicação pode estar na genética. Coordenado pela psiquiatra americana Helen Morrison, um grupo de cientistas que estudou por dez anos o corpo e a mente dos serial killers encontrou evidências de que, ainda no útero, eles teriam sofrido uma mutação no cromossomo Y. Essa transformação ficaria praticamente invisível até a adolescência, quando, precipitada pela ebulição hormonal, passaria a determinar um padrão de comportamento de extrema brutalidade e ausência de julgamento moral. O fato de a mutação ocorrer unicamente no cromossomo Y, definidor da masculinidade, explicaria, entre outras coisas, por que a história não registra a existência de uma única mulher serial killer.

É claro que, como ocorre na maior parte dos distúrbios mentais causados pela genética, o meio tem um papel fundamental na construção da brutalidade extrema e perversa. Estudo realizado na Universidade da Califórnia, em Santa Barbara, mostrou que crianças perfeitamente saudáveis podem desenvolver uma agressividade desmedida como resultado da experiência de ter crescido em um lar violento. "O surgimento da crueldade é, muitas vezes, resultado de uma tentativa desesperada de sobreviver às adversidades", diz a pesquisadora Leda Cosmides, uma das autoras do trabalho. Outro estudo, feito na favela carioca Cidade de Deus, revelou que, para muitos homens, ser cruel é sinônimo de "virilidade", "força", "poder" e "status". "Demonstrações de frieza e exibição da força física são atitudes que valorizam o indivíduo no grupo", diz a antropóloga Alba Zaluar, do Núcleo de Pesquisa das Violências na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que coordenou o estudo. "Para alguns, a prática de atos cruéis é a única forma de se impor como homem", afirma. Impor-se como homem por meio da perda de humanidade – eis um paradoxo trágico, ainda mais pela possibilidade de estar inscrito também nos genes.

 
 
 
 
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