Edição 1864 . 28 de julho de 2004

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Sociedade
Mansão sem lei

Senador faz festa em casa irregular e produz
uma barulheira que leva 200 vizinhos à polícia


Malu Gaspar

 
Wanderlei Pozzembom
Vista aérea da casa dos Amaral, em Brasília: invasão de área pública

As festas noturnas são um dos maiores problemas comunitários do bairro mais nobre de Brasília, o Lago Sul, cuja orla é crivada de mansões. A questão central é encontrar um meio de permitir que as noites de embalos dourados se mantenham feéricas sem, no entanto, perturbar o sono na mansão vizinha. Na noite de terça-feira passada, não apenas o Lago Sul, mas praticamente toda a parte sul de Brasília, sentiu a agudeza do problema ao passar a noite em claro em razão do barulho ensurdecedor de uma festa de arromba. O senador peemedebista Valmir Amaral, suplente do senador cassado Luiz Estevão, fez as vezes de mestre-de-cerimônias na festança de 70 anos do pai, Dalmo Amaral. Os números da festa: mais de 2.500 pessoas nos jardins da mansão, entre elas cinco ministros, 150 seguranças, 230 garçons, além de manobristas, bombeiros e paramédicos. Como animadores, além do senador, a cantora baiana Ivete Sangalo e o sertanejo goiano Leonardo e suas respectivas bandas. O som, em potência máxima, podia ser ouvido num raio de 4 quilômetros. A delegacia mais próxima recebeu mais de 200 reclamações.

Reprodução/AE
Valmir Amaral: cadê a briga?


O incômodo dos vizinhos levou os policiais mais de uma vez à mansão dos Amaral. Eles não conseguiram silenciar os convivas. A família exibia à polícia uma autorização, dada pela administração regional do bairro, para fazer a festa. Em junho passado, a família encaminhou à administração regional um documento em que pedia licença para fazer "uma festa familiar" e calculava um público muito menor. "O pedido que eles mandaram previa 600 convidados, e não 2.500", diz a administradora do bairro, Natanry Osório, que resolveu ir à festa para entender a barulheira. "Fiquei espantada", diz. No entanto, nem a polícia foi autorizada a impedir que a festa varasse a madrugada. "Eu já fui a muitas festas em Brasília, mas nunca havia visto uma coisa daquelas", comenta um dos cinco ministros de Lula que estiveram na festa – José Dirceu (Casa Civil), Eunício Oliveira (Comunicação), Valfrido Mares Guia (Turismo), Eduardo Siqueira (Ciência e Tecnologia) e Almir Lando (Previdência Social). Além dos ministros, o vice-presidente da República, José Alencar, também deu uma passada pelo evento.


Luciano Oliveira
Ivete Sangalo: potência máxima


"Eu nem fiquei sabendo dessas reclamações", disse o senador Valmir Amaral, dois dias depois da festa. "Meu pai é uma pessoa de luta, que aos 70 anos nunca tinha feito uma festa de aniversário. Não houve nenhum incidente nem briga alguma. Reclamações acontecem em qualquer festa. É assim mesmo." Pelo visto, o senador acha que quem fica sem comemorar aniversário por muito tempo tem o direito de perturbar meio mundo no dia em que quebrar o jejum – e que a violação da lei do silêncio, que manda dar paz aos vizinhos a partir das 10 horas da noite em dias de semana, não deve ser levada muito a sério considerando que não houve "nenhuma briga". Além do som altíssimo, dezenas de moradores ficaram irritados com a queima de fogos de artifício, cujas luzes coloridas desenhavam no céu noturno a frase "Dalmo 70 anos". O espocar dos fogos, outra barulheira infernal, durou mais de vinte minutos.

Com instalações que se assemelham a um clube de lazer, com piscina, quadras esportivas e píer, a mansão dos Amaral é um problema histórico. Os proprietários invadiram uma área pública à beira do Lago Paranoá, na qual instalaram uma parte do complexo esportivo da casa. A área pública invadida tem cerca de 18.000 metros quadrados, algo que corresponde a mais ou menos dois campos de futebol. Nesse amplo espaço, durante a festa, o anfitrião expôs seu helicóptero de mais de 1 milhão de dólares, sua coleção de automóveis Mercedes-Benz, que ficavam à vista de todos, devidamente iluminados e com as portas escancaradas, e cerca de quarenta motocicletas de vários modelos. Recentemente, o governo do Distrito Federal começou a negociar com os donos das mansões para que se retirem das áreas públicas invadidas à margem do lago. Cada proprietário tem prazo para apresentar um plano de retirada. No caso dos Amaral, um advogado foi contratado para contestar a medida.

 
 
 
 
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