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Sociedade
Mansão sem lei
Senador faz festa em casa irregular e produz
uma barulheira que leva 200 vizinhos à polícia

Malu Gaspar
Wanderlei Pozzembom
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| Vista aérea da casa dos Amaral, em
Brasília: invasão de área pública
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As festas noturnas são um dos maiores
problemas comunitários do bairro mais nobre de Brasília,
o Lago Sul, cuja orla é crivada de mansões. A questão
central é encontrar um meio de permitir que as noites de
embalos dourados se mantenham feéricas sem, no entanto, perturbar
o sono na mansão vizinha. Na noite de terça-feira
passada, não apenas o Lago Sul, mas praticamente toda a parte
sul de Brasília, sentiu a agudeza do problema ao passar a
noite em claro em razão do barulho ensurdecedor de uma festa
de arromba. O senador peemedebista Valmir Amaral, suplente do senador
cassado Luiz Estevão, fez as vezes de mestre-de-cerimônias
na festança de 70 anos do pai, Dalmo Amaral. Os números
da festa: mais de 2.500 pessoas nos jardins
da mansão, entre elas cinco ministros, 150 seguranças,
230 garçons, além de manobristas, bombeiros e paramédicos.
Como animadores, além do senador, a cantora baiana Ivete
Sangalo e o sertanejo goiano Leonardo e suas respectivas bandas.
O som, em potência máxima, podia ser ouvido num raio
de 4 quilômetros. A delegacia mais próxima recebeu
mais de 200 reclamações.
Reprodução/AE
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| Valmir Amaral: cadê a briga? |
O incômodo dos vizinhos levou os policiais mais de uma vez
à mansão dos Amaral. Eles não conseguiram silenciar
os convivas. A família exibia à polícia uma
autorização, dada pela administração
regional do bairro, para fazer a festa. Em junho passado, a família
encaminhou à administração regional um documento
em que pedia licença para fazer "uma festa familiar" e calculava
um público muito menor. "O pedido que eles mandaram previa
600 convidados, e não 2.500",
diz a administradora do bairro, Natanry Osório, que resolveu
ir à festa para entender a barulheira. "Fiquei espantada",
diz. No entanto, nem a polícia foi autorizada a impedir que
a festa varasse a madrugada. "Eu já fui a muitas festas em
Brasília, mas nunca havia visto uma coisa daquelas", comenta
um dos cinco ministros de Lula que estiveram na festa José
Dirceu (Casa Civil), Eunício Oliveira (Comunicação),
Valfrido Mares Guia (Turismo), Eduardo Siqueira (Ciência e
Tecnologia) e Almir Lando (Previdência Social). Além
dos ministros, o vice-presidente da República, José
Alencar, também deu uma passada pelo evento.
Luciano Oliveira
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| Ivete Sangalo: potência máxima
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"Eu nem fiquei sabendo dessas reclamações", disse
o senador Valmir Amaral, dois dias depois da festa. "Meu pai é
uma pessoa de luta, que aos 70 anos nunca tinha feito uma festa
de aniversário. Não houve nenhum incidente nem briga
alguma. Reclamações acontecem em qualquer festa. É
assim mesmo." Pelo visto, o senador acha que quem fica sem comemorar
aniversário por muito tempo tem o direito de perturbar meio
mundo no dia em que quebrar o jejum e que a violação
da lei do silêncio, que manda dar paz aos vizinhos a partir
das 10 horas da noite em dias de semana, não deve ser levada
muito a sério considerando que não houve "nenhuma
briga". Além do som altíssimo, dezenas de moradores
ficaram irritados com a queima de fogos de artifício, cujas
luzes coloridas desenhavam no céu noturno a frase "Dalmo
70 anos". O espocar dos fogos, outra barulheira infernal, durou
mais de vinte minutos.
Com instalações que se assemelham
a um clube de lazer, com piscina, quadras esportivas e píer,
a mansão dos Amaral é um problema histórico.
Os proprietários invadiram uma área pública
à beira do Lago Paranoá, na qual instalaram uma parte
do complexo esportivo da casa. A área pública invadida
tem cerca de 18.000 metros quadrados,
algo que corresponde a mais ou menos dois campos de futebol. Nesse
amplo espaço, durante a festa, o anfitrião expôs
seu helicóptero de mais de 1 milhão de dólares,
sua coleção de automóveis Mercedes-Benz, que
ficavam à vista de todos, devidamente iluminados e com as
portas escancaradas, e cerca de quarenta motocicletas de vários
modelos. Recentemente, o governo do Distrito Federal começou
a negociar com os donos das mansões para que se retirem das
áreas públicas invadidas à margem do lago.
Cada proprietário tem prazo para apresentar um plano de retirada.
No caso dos Amaral, um advogado foi contratado para contestar a
medida.
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