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Sociedade
Sonho e morte no deserto
Mesmo após a morte de três pessoas
nas areias americanas, goianos continuam
arriscando a vida para fazer fortuna nos
Estados Unidos

André Rizek
Ana Araujo
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| O goiano Silvio Botelho, que voltou dos Estados
Unidos com 500 000 reais |
Menos de dez dias depois de o sapateiro Welton
Feliciano, morador da cidade de Goiânia (GO), ter morrido
no deserto do Arizona quando tentava entrar ilegalmente nos Estados
Unidos, um grupo de vinte goianos deixou a capital do Estado para
seguir o mesmo roteiro: cruzar a fronteira mexicana e permanecer
até oito horas escondido sob o calor sufocante da lona de
uma van, na esperança de desembarcar em solo americano. O
agricultor Geneci da Silva era um dos integrantes do grupo. Sua
mulher, Maria Aparecida, ficou em Goiânia, torcendo pelo marido.
"Quem consegue chegar lá arruma emprego e volta com muito
dinheiro", dizia. Todos os meses, cerca de 1.000
goianos se arriscam na mesma aventura, cujo desfecho pode ser a
morte, a prisão ou a realização do sonho de
juntar alguns milhares de dólares trabalhando clandestinamente
no país. Goiás tornou-se a nova Governador Valadares,
a cidade mineira campeã na exportação de mão-de-obra
brasileira ilegal para os Estados Unidos e nada indica que
a morte de Feliciano, ou a da enfermeira Vilma Machado, a terceira
vítima brasileira da travessia no deserto desde junho, vá
mudar a disposição de muitos de seus moradores de
partir em busca do sonho americano.
No ano passado, os Estados Unidos deportaram
700 goianos flagrados em situação ilegal no país.
Neste ano, o número já dobrou: até agora, foram
1.500. Por que tantos estão decidindo
arriscar a vida nessa aventura? A fuga da miséria e do desemprego
não são respostas óbvias. Primeiro porque,
para levar adiante um projeto como esse, é necessário
dispor de, pelo menos, 15.000 reais,
preço mínimo de um "pacote" que inclui passagem aérea
para o México e travessia da fronteira com ajuda dos "coiotes",
mexicanos que ganham a vida contrabandeando imigrantes ilegais.
Quem investe no projeto, portanto, não pode estar em condição
desesperadora. Goiás também está longe de ser
um Estado miserável: ocupa o sétimo lugar no ranking
de qualidade de vida no país e o seu número de empregos
cresceu dez vezes mais que a média nacional no primeiro semestre
do ano.
Em Governador Valadares, a pedra fundamental
para o êxodo que se prolonga até hoje foi a vinda de
uma empresa americana nos anos 40 (veja
quadro). Goiás não registra episódio
parecido. "O que sabemos é que as primeiras grandes turmas
de goianos que foram para lá nos anos 80 retornaram bem-sucedidas",
afirma o chefe da Assessoria para Assuntos Internacionais do governo
do Estado, Elie Chidiac. "Isso estimulou muita gente a fazer o mesmo.
É a força da propaganda boca a boca", diz. O ex-vendedor
de refrigerantes Silvio Botelho deixou Goiânia em 1989, em
direção a São Francisco. Lá, deu duro
como empregado numa padaria e depois numa pizzaria, onde ganhava
em média 12 dólares por hora, antes de atingir o auge
da carreira do subemprego, na visão dos brasileiros ilegais:
virar motorista de táxi, atividade que chega a render 100
dólares líquidos por dia a quem está disposto
a enfrentar uma jornada de trabalho de dezoito horas. Há
dois anos, Botelho voltou para a sua cidade. Trazia no bolso o equivalente
a meio milhão de reais. Hoje, tem uma casa avaliada em 250.000
reais, no bairro de Santa Genoveva, de classe média alta,
um Vectra do ano na garagem e é dono de dois táxis.
"Pelas minhas contas, servi de exemplo para umas trinta pessoas
que foram ou estão indo para lá", diz.
Ana Araujo
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| Silva, ex-clandestino nos EUA: "Chorava
todos os dias, mas valeu" |
Só da cidade de Novo Brasil, terra natal
do sapateiro Feliciano, mais de 100 dos 4.000
habitantes partiram para os Estados Unidos nos últimos dois
anos. O último a voltar foi o ex-agricultor Custódio
da Silva Filho, de 42 anos. Guiado por coiotes, ele chegou à
Califórnia em 2002, onde passou a trabalhar como pedreiro.
"Não falava inglês nem conhecia ninguém", conta.
"Chorava todos os dias. Acho que tive isso que o povo chama de depressão."
Mesmo assim, diz não ter se arrependido do investimento.
Em dezembro, o ex-agricultor voltou para a sua cidade com uma poupança
suficiente para comprar uma casa, uma moto, uma caminhonete Pampa
usada e equipamentos para a produção de rapadura.
Hoje, conta com orgulho, é o maior fabricante da região
e já vende seu produto para nove cidades.
São histórias como essa que
ajudam a perpetuar o mito do sonho americano em Goiás. Mas
o grande aumento do fluxo de viajantes clandestinos registrado no
Estado nos últimos dois anos deve-se, segundo a Polícia
Federal, a outro motivo: agenciadores de Minas Gerais, especializados
no contrabando de trabalhadores brasileiros, elegeram o Estado como
seu novo ponto de atuação. Estão por trás
da maioria das agências de viagem instaladas em Goiânia
e especializadas no envio ilegal de brasileiros aos Estados Unidos.
A freguesia chega por meio de indicações de amigos
ou atraída por anúncios de jornais que acenam com
ofertas de trabalho no exterior. O pacote oferecido inclui vôo
para o México com chegada a cidades próximas à
fronteira, como Tijuana e Hermosillo. De lá, o candidato
a imigrante ilegal atravessará o deserto que separa o país
dos Estados Unidos, num percurso que pode ser feito em vans ou a
pé. A caminhada, ininterrupta, leva um dia e uma noite. O
único compromisso dos coiotes para com o grupo é evitar
que ele se perca nas areias. Quem se cansa fica para trás
e, se a polícia aparece, os guias são os primeiros
a sumir. Há poucas semanas, a mulher do lavrador Geneci da
Silva, que partiu no grupo de vinte goianos que deixaram o Estado
no mês passado, recebeu um telefonema do marido. Ele informava
que conseguira passar da fronteira e que está trabalhando
como pedreiro em uma cidade americana. O casal já combinou:
em dezembro, será a vez de a filha mais velha atravessar
o deserto.
A
cidade onde tudo começou
Ana
Araujo
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| Valadares: recorde de emigração
ilegal |
Nada menos
que 10% dos 300 000 habitantes da cidade de Governador
Valadares trabalham ou já trabalharam clandestinamente
nos Estados Unidos. A cidade mineira é, há
quase três décadas, a maior exportadora
de mão-de-obra brasileira ilegal para aquele
país. Segundo um estudo da Universidade Estadual
de Campinas, de cada dez famílias valadarenses,
duas têm pelo menos um integrante tentando a sorte
em terras americanas. A ligação da cidade
mineira com os EUA é visível pela quantidade
de escolas que ensinam inglês a toque de caixa
e crianças batizadas com nomes como Michael e
Jennifer.
O sonho de
fazer fortuna nos Estados Unidos começou a desenhar-se
quando os habitantes de Valadares tiveram contato com
americanos que desembarcaram na região para trabalhar
na indústria extrativa de minerais e na construção
de uma ferrovia. Isso foi na década de 40. O
primeiro grupo mineiro partiu apenas na década
de 60. O sucesso dos pioneiros contagiou os habitantes
da cidade, que zarparam em massa nos anos 80. Hoje,
emigrar é uma opção presente em
grande parte dos lares de classe média da cidade.
"Os jovens ficam divididos entre ficar e prestar o vestibular
ou emigrar para acumular dinheiro", diz a socióloga
Sueli Siqueira, autora de um estudo da Universidade
Vale do Rio Doce. A fama de Governador Valadares como
pólo exportador de mão-de-obra ilegal
criou, para ela, uma situação insólita.
Sueli, que acalenta o sonho de trabalhar como pesquisadora
nos EUA, está sofrendo para conseguir o visto:
a reputação da cidade transforma em tarefa
árdua o trabalho de conseguir autorização
para entrar legalmente no país. "Ser de Valadares
virou um estigma", diz Sueli.
Xico
Buny
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"O sonho dele era ter
o próprio negócio"
Gertrudes Feliciano, mãe
do sapateiro Welton, que morreu no deserto do Arizona
tentando chegar aos Estados Unidos
Ana Araujo
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"Eu tenho dois sobrinhos que já
tinham ido trabalhar nos Estados Unidos. Meu filho Welton
estava sem emprego fixo fazia um tempão e resolveu
ir. Dizem que lá dá para ganhar em uma
semana o equivalente ao salário mínimo
do Brasil. O Welton dizia que queria ir para montar
uma sapataria em Goiânia, que era o grande sonho
da vida dele. Se eu não vendesse meu lote de
terra e desse os 20 000 reais para ele ir atrás
do sonho dele, iria dizer que não venceu na vida
por causa disso. Vendi a terra e estava dando tudo certo.
O Welton estava tão animado... A última
lembrança que eu tenho dele é da véspera
do embarque, com as roupas novas que comprou para viajar.
Dizia que tinha de ficar chique para fingir que era
turista. Saiu no dia 27 de maio. Eu imaginava que ele
pudesse ser preso. Era muito gordo, não tinha
condição física. Não quis
ir ao aeroporto me despedir. O Welton ainda me ligou
de lá. Na última vez em que ouvi a sua
voz, ele já estava no México. Quatro dias
depois, a mulher que o levou para lá telefonou
para dizer que ele tinha morrido. Não agüentou
a travessia do deserto. A gente conhece tantas pessoas
que vão para lá e voltam com dinheiro.
Minha filha, irmã do Welton, também estava
entusiasmada para ir. Mas agora ninguém da família
vai se arriscar. Treze dias depois da morte, chegou
o corpo. Eu não acreditava, até ver o
rosto. Falaram que teve um ataque cardíaco, mas
no laudo médico não tem nada disso. Acho
que nunca vou saber como meu menino morreu."
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"Assim que der, vou voltar"
Abandonado pelos coiotes no deserto,
Cléberson, 22 anos, acabou preso
Ana Araujo
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"Eu e meu tio tínhamos emprego
garantido num posto de gasolina, em Boston. No ano passado,
fomos para o México procurar os coiotes. Cheguei
a Tijuana e pagamos 500 dólares para um sujeito
nos levar a uma cidadezinha onde funciona a pensão
de um cara chamado Nick, o chefão do esquema.
Havia mais de quarenta brasileiros lá. Tínhamos
de ficar esperando a hora de partir sem pôr nem
a cabeça para fora, para não sermos pegos
pela polícia. Meu grupo foi o último a
sair. Fomos de Pajero até a divisa e, depois,
iríamos caminhar um dia e uma noite pelo deserto
até uma cidade nos Estados Unidos. A caminhada
começou tarde, aquele sol, desertão, nada
em volta. Havia dois coiotes nos guiando, não
sei como encontram o caminho. Usavam drogas e bebiam
o tempo todo. Eu tinha duas garrafinhas de água.
Se a gente parasse de andar, ficava para trás.
Quando deu meia-noite e meia, apareceram dois helicópteros
da polícia. Os coiotes tinham ensinado que, se
isso acontecesse, era para que a gente procurasse uma
moita e deitasse no chão, abraçados. Fizemos
isso, mas, quando abrimos os olhos, os coiotes tinham
desaparecido e uma caminhonete da polícia já
se aproximava. Fomos presos e algemados pelo tornozelo.
Fiquei dez dias trocando de prisão diariamente.
Um dia, me liberaram com a ordem de que eu me apresentasse
à Corte em oito meses. Enquanto isso, eu e meu
tio fomos pra Boston trabalhar. Não conheci os
Estados Unidos. Morei no posto o tempo todo, não
saí de lá nem uma vez. Consegui juntar
30 000 e voltei, sem me apresentar à Corte. Eles
ficaram com meu passaporte, mas já estou planejando
voltar. Só que agora vou arranjar um coiote dos
bons."
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