Edição 1864 . 28 de julho de 2004

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Sociedade
Sonho e morte no deserto

Mesmo após a morte de três pessoas
nas areias americanas, goianos continuam
arriscando a vida para fazer fortuna nos
Estados Unidos


André Rizek


Ana Araujo
O goiano Silvio Botelho, que voltou dos Estados Unidos com 500 000 reais


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Menos de dez dias depois de o sapateiro Welton Feliciano, morador da cidade de Goiânia (GO), ter morrido no deserto do Arizona quando tentava entrar ilegalmente nos Estados Unidos, um grupo de vinte goianos deixou a capital do Estado para seguir o mesmo roteiro: cruzar a fronteira mexicana e permanecer até oito horas escondido sob o calor sufocante da lona de uma van, na esperança de desembarcar em solo americano. O agricultor Geneci da Silva era um dos integrantes do grupo. Sua mulher, Maria Aparecida, ficou em Goiânia, torcendo pelo marido. "Quem consegue chegar lá arruma emprego e volta com muito dinheiro", dizia. Todos os meses, cerca de 1.000 goianos se arriscam na mesma aventura, cujo desfecho pode ser a morte, a prisão ou a realização do sonho de juntar alguns milhares de dólares trabalhando clandestinamente no país. Goiás tornou-se a nova Governador Valadares, a cidade mineira campeã na exportação de mão-de-obra brasileira ilegal para os Estados Unidos – e nada indica que a morte de Feliciano, ou a da enfermeira Vilma Machado, a terceira vítima brasileira da travessia no deserto desde junho, vá mudar a disposição de muitos de seus moradores de partir em busca do sonho americano.

No ano passado, os Estados Unidos deportaram 700 goianos flagrados em situação ilegal no país. Neste ano, o número já dobrou: até agora, foram 1.500. Por que tantos estão decidindo arriscar a vida nessa aventura? A fuga da miséria e do desemprego não são respostas óbvias. Primeiro porque, para levar adiante um projeto como esse, é necessário dispor de, pelo menos, 15.000 reais, preço mínimo de um "pacote" que inclui passagem aérea para o México e travessia da fronteira com ajuda dos "coiotes", mexicanos que ganham a vida contrabandeando imigrantes ilegais. Quem investe no projeto, portanto, não pode estar em condição desesperadora. Goiás também está longe de ser um Estado miserável: ocupa o sétimo lugar no ranking de qualidade de vida no país e o seu número de empregos cresceu dez vezes mais que a média nacional no primeiro semestre do ano.

Em Governador Valadares, a pedra fundamental para o êxodo que se prolonga até hoje foi a vinda de uma empresa americana nos anos 40 (veja quadro). Goiás não registra episódio parecido. "O que sabemos é que as primeiras grandes turmas de goianos que foram para lá nos anos 80 retornaram bem-sucedidas", afirma o chefe da Assessoria para Assuntos Internacionais do governo do Estado, Elie Chidiac. "Isso estimulou muita gente a fazer o mesmo. É a força da propaganda boca a boca", diz. O ex-vendedor de refrigerantes Silvio Botelho deixou Goiânia em 1989, em direção a São Francisco. Lá, deu duro como empregado numa padaria e depois numa pizzaria, onde ganhava em média 12 dólares por hora, antes de atingir o auge da carreira do subemprego, na visão dos brasileiros ilegais: virar motorista de táxi, atividade que chega a render 100 dólares líquidos por dia a quem está disposto a enfrentar uma jornada de trabalho de dezoito horas. Há dois anos, Botelho voltou para a sua cidade. Trazia no bolso o equivalente a meio milhão de reais. Hoje, tem uma casa avaliada em 250.000 reais, no bairro de Santa Genoveva, de classe média alta, um Vectra do ano na garagem e é dono de dois táxis. "Pelas minhas contas, servi de exemplo para umas trinta pessoas que foram ou estão indo para lá", diz.


Ana Araujo
Silva, ex-clandestino nos EUA: "Chorava todos os dias, mas valeu"

Só da cidade de Novo Brasil, terra natal do sapateiro Feliciano, mais de 100 dos 4.000 habitantes partiram para os Estados Unidos nos últimos dois anos. O último a voltar foi o ex-agricultor Custódio da Silva Filho, de 42 anos. Guiado por coiotes, ele chegou à Califórnia em 2002, onde passou a trabalhar como pedreiro. "Não falava inglês nem conhecia ninguém", conta. "Chorava todos os dias. Acho que tive isso que o povo chama de depressão." Mesmo assim, diz não ter se arrependido do investimento. Em dezembro, o ex-agricultor voltou para a sua cidade com uma poupança suficiente para comprar uma casa, uma moto, uma caminhonete Pampa usada e equipamentos para a produção de rapadura. Hoje, conta com orgulho, é o maior fabricante da região e já vende seu produto para nove cidades.

São histórias como essa que ajudam a perpetuar o mito do sonho americano em Goiás. Mas o grande aumento do fluxo de viajantes clandestinos registrado no Estado nos últimos dois anos deve-se, segundo a Polícia Federal, a outro motivo: agenciadores de Minas Gerais, especializados no contrabando de trabalhadores brasileiros, elegeram o Estado como seu novo ponto de atuação. Estão por trás da maioria das agências de viagem instaladas em Goiânia e especializadas no envio ilegal de brasileiros aos Estados Unidos. A freguesia chega por meio de indicações de amigos ou atraída por anúncios de jornais que acenam com ofertas de trabalho no exterior. O pacote oferecido inclui vôo para o México com chegada a cidades próximas à fronteira, como Tijuana e Hermosillo. De lá, o candidato a imigrante ilegal atravessará o deserto que separa o país dos Estados Unidos, num percurso que pode ser feito em vans ou a pé. A caminhada, ininterrupta, leva um dia e uma noite. O único compromisso dos coiotes para com o grupo é evitar que ele se perca nas areias. Quem se cansa fica para trás e, se a polícia aparece, os guias são os primeiros a sumir. Há poucas semanas, a mulher do lavrador Geneci da Silva, que partiu no grupo de vinte goianos que deixaram o Estado no mês passado, recebeu um telefonema do marido. Ele informava que conseguira passar da fronteira e que está trabalhando como pedreiro em uma cidade americana. O casal já combinou: em dezembro, será a vez de a filha mais velha atravessar o deserto.

 
A cidade onde tudo começou


Ana Araujo
Valadares: recorde de emigração ilegal

Nada menos que 10% dos 300 000 habitantes da cidade de Governador Valadares trabalham ou já trabalharam clandestinamente nos Estados Unidos. A cidade mineira é, há quase três décadas, a maior exportadora de mão-de-obra brasileira ilegal para aquele país. Segundo um estudo da Universidade Estadual de Campinas, de cada dez famílias valadarenses, duas têm pelo menos um integrante tentando a sorte em terras americanas. A ligação da cidade mineira com os EUA é visível pela quantidade de escolas que ensinam inglês a toque de caixa e crianças batizadas com nomes como Michael e Jennifer.

O sonho de fazer fortuna nos Estados Unidos começou a desenhar-se quando os habitantes de Valadares tiveram contato com americanos que desembarcaram na região para trabalhar na indústria extrativa de minerais e na construção de uma ferrovia. Isso foi na década de 40. O primeiro grupo mineiro partiu apenas na década de 60. O sucesso dos pioneiros contagiou os habitantes da cidade, que zarparam em massa nos anos 80. Hoje, emigrar é uma opção presente em grande parte dos lares de classe média da cidade. "Os jovens ficam divididos entre ficar e prestar o vestibular ou emigrar para acumular dinheiro", diz a socióloga Sueli Siqueira, autora de um estudo da Universidade Vale do Rio Doce. A fama de Governador Valadares como pólo exportador de mão-de-obra ilegal criou, para ela, uma situação insólita. Sueli, que acalenta o sonho de trabalhar como pesquisadora nos EUA, está sofrendo para conseguir o visto: a reputação da cidade transforma em tarefa árdua o trabalho de conseguir autorização para entrar legalmente no país. "Ser de Valadares virou um estigma", diz Sueli.

Xico Buny

 

"O sonho dele era ter o próprio negócio"

Gertrudes Feliciano, mãe do sapateiro Welton, que morreu no deserto do Arizona tentando chegar aos Estados Unidos


Ana Araujo

"Eu tenho dois sobrinhos que já tinham ido trabalhar nos Estados Unidos. Meu filho Welton estava sem emprego fixo fazia um tempão e resolveu ir. Dizem que lá dá para ganhar em uma semana o equivalente ao salário mínimo do Brasil. O Welton dizia que queria ir para montar uma sapataria em Goiânia, que era o grande sonho da vida dele. Se eu não vendesse meu lote de terra e desse os 20 000 reais para ele ir atrás do sonho dele, iria dizer que não venceu na vida por causa disso. Vendi a terra e estava dando tudo certo. O Welton estava tão animado... A última lembrança que eu tenho dele é da véspera do embarque, com as roupas novas que comprou para viajar. Dizia que tinha de ficar chique para fingir que era turista. Saiu no dia 27 de maio. Eu imaginava que ele pudesse ser preso. Era muito gordo, não tinha condição física. Não quis ir ao aeroporto me despedir. O Welton ainda me ligou de lá. Na última vez em que ouvi a sua voz, ele já estava no México. Quatro dias depois, a mulher que o levou para lá telefonou para dizer que ele tinha morrido. Não agüentou a travessia do deserto. A gente conhece tantas pessoas que vão para lá e voltam com dinheiro. Minha filha, irmã do Welton, também estava entusiasmada para ir. Mas agora ninguém da família vai se arriscar. Treze dias depois da morte, chegou o corpo. Eu não acreditava, até ver o rosto. Falaram que teve um ataque cardíaco, mas no laudo médico não tem nada disso. Acho que nunca vou saber como meu menino morreu."

 

"Assim que der, vou voltar"

Abandonado pelos coiotes no deserto, Cléberson, 22 anos, acabou preso


Ana Araujo

"Eu e meu tio tínhamos emprego garantido num posto de gasolina, em Boston. No ano passado, fomos para o México procurar os coiotes. Cheguei a Tijuana e pagamos 500 dólares para um sujeito nos levar a uma cidadezinha onde funciona a pensão de um cara chamado Nick, o chefão do esquema. Havia mais de quarenta brasileiros lá. Tínhamos de ficar esperando a hora de partir sem pôr nem a cabeça para fora, para não sermos pegos pela polícia. Meu grupo foi o último a sair. Fomos de Pajero até a divisa e, depois, iríamos caminhar um dia e uma noite pelo deserto até uma cidade nos Estados Unidos. A caminhada começou tarde, aquele sol, desertão, nada em volta. Havia dois coiotes nos guiando, não sei como encontram o caminho. Usavam drogas e bebiam o tempo todo. Eu tinha duas garrafinhas de água. Se a gente parasse de andar, ficava para trás. Quando deu meia-noite e meia, apareceram dois helicópteros da polícia. Os coiotes tinham ensinado que, se isso acontecesse, era para que a gente procurasse uma moita e deitasse no chão, abraçados. Fizemos isso, mas, quando abrimos os olhos, os coiotes tinham desaparecido e uma caminhonete da polícia já se aproximava. Fomos presos e algemados pelo tornozelo. Fiquei dez dias trocando de prisão diariamente. Um dia, me liberaram com a ordem de que eu me apresentasse à Corte em oito meses. Enquanto isso, eu e meu tio fomos pra Boston trabalhar. Não conheci os Estados Unidos. Morei no posto o tempo todo, não saí de lá nem uma vez. Consegui juntar 30 000 e voltei, sem me apresentar à Corte. Eles ficaram com meu passaporte, mas já estou planejando voltar. Só que agora vou arranjar um coiote dos bons."

 

 

 
 
 
 
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