Edição 1864 . 28 de julho de 2004

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Internet
terror.com

Grupos terroristas usam largamente a rede
para recrutar assassinos, ensinar a fabricar
bombas e planejar atentados


Gabriela Carelli


Photodisc
Site do palestino Hamas: em sete anos, o número de páginas de extremistas saltou de doze para 4 000

Era inevitável acontecer: o terrorismo adotou em larga escala a internet. Organizações do Oriente Médio – e alguns grupos da Europa, da América Latina e da Ásia – transformaram a rede mundial num dos mecanismos mais eficientes para disseminar suas ideologias, recrutar e treinar militantes. Mais do que isso: a web tornou-se um importante canal para trocar informações sobre alvos potenciais e ensinar estratégias para furar esquemas de segurança. Os ativistas do Hamas, por exemplo, utilizam-se de salas de bate-papo para planejar e coordenar operações em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano e em Israel. Também ensinam a fabricar e a usar explosivos. Sabe-se hoje que, para planejar e coordenar os ataques de 11 de setembro a Nova York e a Washington, a rede Al Qaeda lançou mão de e-mails codificados. Oficiais americanos localizaram milhares de mensagens citando o ataque numa área protegida por senha de um dos sites da organização. Hoje, a Al Qaeda oferece manuais de treinamento on-line aos interessados em aderir à sua causa. No ano passado, o SITE Institute, grupo de Washington especializado em rastrear sites terroristas, descobriu que um dos cinqüenta endereços da rede de Osama bin Laden recruta candidatos para lutar contra os americanos no Iraque. Eles recebem senhas para acessar softwares contendo orientações nesse sentido.


Reuters
Carro incendiado no Líbano: os fanáticos agora costumam usar e-mails para coordenar ataques


A evidência mais recente da expansão do terror no mundo virtual encontra-se num estudo feito pela Universidade de Haifa, em Israel. Os pesquisadores identificaram 4.000 endereços de grupos terroristas, contra apenas doze encontrados no primeiro rastreamento, há sete anos. "O crescimento se dá em progressão geométrica", disse a VEJA o coordenador do estudo, Gabriel Weimann, uma das maiores autoridades em terrorismo on-line. "Em 1998, metade das trinta maiores organizações estava na internet. Hoje, todos os grupos conhecidos, sem exceção, participam dela, seja por meio de sites oficiais, salas de bate-papo ou endereços criados por simpatizantes", ele diz.

Os sites classificados como "oficiais" – contendo a história do grupo, de seus líderes, farto material de propaganda e até lojinhas virtuais de camisetas e DVDs – costumam ficar muito tempo nos mesmos endereços. É o caso daqueles mantidos pela organização separatista basca ETA e pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Já as versões com conteúdo mais agressivo, comuns entre os extremistas islâmicos, têm seus endereços alterados com muita freqüência, para despistar governos e entidades especializadas em rastreá-los. "Os que ensinam como construir e utilizar bombas, têm campos de treinamento virtuais ou recrutam pessoas duram apenas alguns dias no mesmo endereço eletrônico", diz Weimann.

É o caso do Hezbollah. Um dos sites do grupo libanês, que circula pela rede desde fevereiro do ano passado, já teve mais de vinte registros diferentes. O motivo da precaução é que a página permite fazer o download do videogame Special Force, uma simulação de um ataque a forças israelenses. "É um jogo muito rastreado, pois incita o ódio aos judeus e foi criado especialmente para seduzir crianças e jovens", disse Brian Jenkins, especialista em terror do Centro de Estudos Rand Corporation, com sede em Washington. O objetivo do jogo, que começa com a explosão de um tanque de Israel seguida de imagens de bandeiras daquele país em chamas, é liquidar o maior número de israelenses possível e matar o primeiro-ministro Ariel Sharon. Quem atinge a testa de Sharon com um tiro obtém a pontuação máxima. A recompensa é a frase: "A vitória vem por meio de ninguém senão Alá". O Special Force pode ser jogado em rede, com a participação simultânea de pessoas de diversos países. Além de ser uma excelente forma de comunicação entre os membros de uma mesma organização terrorista, a web promove a interação entre facções diferentes. Grupos menores, localizados em países como a Indonésia, a Malásia e as Filipinas, recebem cartilhas de organizações mais graúdas para montar núcleos locais.

A maioria dos sites é desenvolvida e mantida por meio de doações dos visitantes. O grupo extremista egípcio Hizb ut-Tahrir usava uma rede interligada de sites com base na Europa e na África para pedir dinheiro – as informações bancárias mudavam constantemente para despistar as autoridades, que mesmo assim conseguiram estourar o esquema. Os separatistas da Chechênia, na Rússia, também fornecem o número de contas bancárias a seus simpatizantes. Descobriu-se que uma dessas contas era de uma agência de Sacramento, na Califórnia. Globalização também é isso aí.


Imagens de sites de organizações terroristas: muitos, além de recrutar simpatizantes, pedem doações em dinheiro. E todos, claro, promovem o ódio

 
 
 
 
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