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Ciência
Hawking diz: Hawking errou
O maior físico da atualidade revê
seus cálculos
sobre os buracos negros e declara: eles não
são o caminho para um universo paralelo

Thereza Venturoli
O célebre físico inglês
Stephen Hawking acaba de dar uma nova tacada de mestre só
que ela mais parece um tiro no próprio pé. Hawking
assumiu, na quarta-feira passada, que esteve errado durante os últimos
trinta anos em uma de suas mais instigantes proposições,
a de que certas regiões muito especiais do espaço,
os "buracos negros", funcionariam como túneis que dão
passagem para outros universos, paralelos ao nosso. O físico
disse que reviu essa parte de sua teoria sobre os buracos negros.
Novamente contradizendo a si próprio, voltou atrás
no que seria outra assombrosa característica daqueles corpos
celestes. O físico sustentou por anos que toda matéria
que porventura caísse nos buracos negros perderia para sempre
sua identidade e liberaria para o universo apenas uma forma de energia
inespecífica batizada de "radiação Hawking".
Agora ele voltou atrás e reconheceu que os corpos consumidos
pelas forças descomunais dos buracos negros emitiriam, sim,
uma radiação particular, que denunciaria sua origem
(veja quadro). São muitas as conseqüências
para a ciência da retratação feita por seu maior
representante vivo, o homem que ocupa na Universidade de Cambridge
a cadeira que um dia foi de sir Isaac Newton, um dos pioneiros na
investigação matemática da natureza.
A teoria sustenta que os buracos negros são
fósseis da explosão de estrelas imensas, com massa
pelo menos dez vezes maior que a do Sol. Eles surgem quando a fornalha
estelar consome a maior parte do combustível que a mantém
acesa. A estrela, então, desmorona sobre si mesma, esmagada
pela própria gravidade. O que resta é um corpo pequeno,
mas extremamente denso e dotado de uma força gravitacional
imensurável, que não deixa nem a luz escapar. Por
isso os buracos negros são invisíveis aos telescópios.
Eles apenas denunciam a presença deles pelas alterações
energéticas que produzem à sua volta. A existência
dos buracos negros foi formulada há mais de 200 anos, mas
eles foram assim batizados, em 1967, pelo físico americano
John Wheeler, que trabalhou com Albert Einstein.
Já se tinha a idéia, então,
de que esses corpos seriam como o ralo de uma pia. Tudo o que passasse
perto escorreria por eles, sendo sugado para além dos limites
do universo observável. Nada que caísse nessa esmagadora
malha poderia ser recuperado. Em 1975, Hawking propôs que
esses aspiradores de pó celestiais liberariam alguma coisa,
sim: um tipo de radiação que não trazia nenhuma
informação sobre o objeto que a emitira o que
viria a ser chamado de "radiação Hawking". Acontece
que esse conceito se choca de frente com as leis da física
quântica, segundo as quais as partículas de matéria
não podem jamais ser totalmente destruídas. Alguma
informação sobre elas tem de sobreviver no universo,
seja na forma de matéria, seja na forma de radiação.
Por que os buracos negros teriam, então, a capacidade de
dar sumiço a essa informação? Esse era o paradoxo.
Para Hawking, a terrível força gravitacional dessas
regiões do espaço alteraria as leis conhecidas da
natureza. Como isso ocorreria não estava ainda resolvido.
É nesse ponto que acontece a rendição do professor
da Universidade de Cambridge: ele agora admite que a matéria
que mergulha num buraco negro deixa para trás uma assinatura.
Isso tudo pode parecer muito abstrato e distante
do dia-a-dia do cidadão comum. E é mesmo. "Os físicos,
ao construir uma teoria, não pensam em sua aplicação
utilitária imediata. Por trás das complicadas equações,
tentamos responder a uma das questões fundamentais do homem:
de onde viemos", diz o físico Elcio Abdalla, da Universidade
de São Paulo. A teoria da relatividade geral, que trata das
leis que regem as grandes estruturas do cosmo, reflete, de alguma
forma, o pensamento de Santo Agostinho, segundo o qual, antes de
Deus criar o céu e a Terra, não havia nada, nem o
tempo. Paralelamente, pelas idéias de Einstein, todo o universo
seus corpos, o espaço e o tempo teria uma data
certa de nascimento, e o que havia antes disso não deve sequer
ser perguntado. Afinal, se nem o tempo existia, como poderia haver
um "antes"? É essa barreira que os cientistas sonham quebrar
um dia. Para isso, eles tentam juntar aos conceitos da relatividade
geral outro pilar da física moderna a mecânica
quântica, que explica o comportamento das menores partículas.
Os buracos negros se prestam bem para testar essa união,
porque exibem situações extremas para ambas as teorias.
Existem alternativas para juntar essas teorias
algumas delas propondo, inclusive, que o universo tenha cerca
de dez dimensões. Por isso será preciso muito estudo
até que se possa testar a proposta de Hawking aliás,
boa parte dos 700 cientistas que assistiram à palestra confessou
pouco ter entendido dela. Um dos presentes era o físico americano
John Preskill, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech),
com quem o gênio inglês fez uma aposta há sete
anos, garantindo que os buracos negros não devolveriam nada
para este universo. Ao assumir a derrota, Hawking pagou a dívida,
dando ao americano uma enciclopédia sobre beisebol. A metáfora
é clara: ao contrário da antiga visão de Hawking
sobre os buracos negros, as enciclopédias não escondem
seu conteúdo elas existem exatamente para propagar
informação.
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