Edição 1864 . 28 de julho de 2004

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Estados Unidos
Pegue essa, Bush!

Para Kerry, o jogo esquenta. A partir
da convenção democrata, ele tem de
mostrar a que veio


AFP
Kerry: público acha que é o mais inteligente; Bush, o mais simpático


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Perguntas e respostas:
Eleições nos EUA

Se dependesse do gosto de 99% da população mundial, John Kerry já estaria eleito – ele ou qualquer candidato que derrubasse o execrado presidente George W. Bush. O problema é que as eleições de novembro serão definidas por uma pequena parcela, cerca de 10%, de eleitores americanos que ora pendem para um lado, ora para o outro. Conquistar essa minoria é a batalha de vida ou morte do candidato do Partido Democrata, que chega à convenção desta semana com uma vantagem irrisória sobre o adversário. O oba-oba da convenção em que terá sua candidatura oficialmente ungida, com cobertura maciça na mídia, deve lhe dar mais um empurrão. Mas, na falta de um acontecimento telúrico, como um atentado de grandes proporções, a maioria dos especialistas acredita numa votação apertada, como aconteceu nas eleições de 2000, quando Bush passou raspando, no tapetão. Na ausência de uma catástrofe, os eleitores indecisos acabarão por se definir em razão de temas conhecidos: a economia, como sempre; a situação no Iraque, um assunto externo que ganha relevância excepcional por motivos óbvios; e por fim a personalidade e o estilo de cada candidato, sempre os elementos mais escorregadios de qualquer campanha.

Nesse quesito, Kerry ainda é considerado uma incógnita por muitos eleitores, situação que os estrategistas do Partido Democrata esperam mudar com a convenção desta semana, em Boston, sua base política. Além de se apresentar à nação de maneira mais explícita, com um discurso que, se for menos do que histórico, já ficará devendo, Kerry tem outra missão bem mais difícil: conquistar a simpatia do eleitorado hesitante, um campo no qual Bush tem vantagem de folga. Um exemplo: a revista The Economist encomendou uma pesquisa que perguntava aos entrevistados com qual candidato prefeririam passar uma hora tomando cerveja num bar. Bush ganhou com mais de 50%. Para quem vê de fora, é difícil entender o apreço da maioria dos americanos por seu presidente. Mesmo com a imagem de defensor da pátria chamuscada, Bush leva vantagem pelos próprios defeitos, como as idéias simples e o jeito de falar nada sofisticado – algo similar, embora num universo diferente, ao estilo do presidente Lula. Muitos eleitores se identificam exatamente com isso. A maioria até considera Kerry mais inteligente, mas isso não o ajuda muito. Seu preparo é confundido com arrogância, e suas falas complexas e cheias de ponderações causam perplexidade – e isso considerando que ele tem evitado citar, em conversas sobre política externa, nomes como Disraeli (o primeiro-ministro inglês da era vitoriana) e Metternich (o aristocrata austríaco que dominou a ordem conservadora na Europa da primeira metade do século XIX), que não são exatamente figuras populares no interior de Ohio.

A partir da convenção democrata, prevê-se que Kerry deverá assumir cada vez mais um estilo "presidencial". A seu favor, no campo da imagem, ele tem o jeito ponderado, o porte elegante e até a altura (acreditem: em todas as eleições americanas, à exceção da última, o candidato mais alto venceu). Kerry também precisa mostrar propostas claras e traduzi-las adequadamente ao público. Falar em cooperação multilateral na política externa, por exemplo, costuma mais espantar eleitores do que atraí-los. No plano interno, as propostas são mais populares: acabar com a redução de impostos para os contribuintes mais ricos, estabelecida por Bush, e aumentar os gastos com serviços de saúde para a população. O mais difícil, para Kerry, vai ser roubar o lugar de Bush na mesa de bar imaginária com os eleitores. É disso que dependerá o resultado da mais importante eleição presidencial americana da história recente.

 
A CADEIA DE ERROS DA BUROCRACIA

Faltou preparo, faltou coordenação e faltou até imaginação. Sem isso, integrantes dos governos de Bill Clinton e George W. Bush, dos serviços de informação, do FBI e das Forças Armadas perderam uma grande vantagem competitiva dos americanos: a capacidade de captar e processar informações. E sem isso não entenderam a real dimensão da ameaça representada pela rede terrorista Al Qaeda, deixando-se surpreender completamente pelos atentados de 11 de setembro de 2001. Essa é a conclusão fulcral da comissão de cinco congressistas republicanos e cinco democratas que, ajudada por uma vasta equipe, esquadrinhou durante quase dois anos as origens e as conseqüências dos ataques terroristas. O relatório final, divulgado na semana passada, afirma que em diversos momentos membros do alto escalão dos governos Clinton e Bush foram avisados de que Osama bin Laden tramava atacar no coração da América. Pouco ou nada foi feito para evitar que isso ocorresse porque ninguém soube dar a devida importância às informações incompletas, mas corretas, passadas pelos serviços de inteligência. As únicas medidas tomadas contra o chefe dos fanáticos suicidas foram insuficientes e descoordenadas. A comissão não chega a cravar que os atentados poderiam ter sido evitados, mas menciona nada menos que dez oportunidades perdidas de ataques preventivos. O relatório de 567 páginas recomenda uma reforma no serviço secreto americano, a começar pela criação do cargo de um diretor que coordene a ação de todas as agências de informação. É coisa urgente, pois existe mesmo o risco de novos atentados. Bush, que no começo sabotou a comissão, considerou as recomendações pertinentes e disse que seu governo está fazendo tudo o que é possível para evitar novos ataques. Kerry disse que pode fazer melhor.

 

 
 
 
 
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