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Estados Unidos
Pegue essa, Bush!
Para Kerry, o jogo esquenta. A partir
da convenção democrata, ele tem de
mostrar a que veio
AFP
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| Kerry: público acha que é o
mais inteligente; Bush, o mais simpático |
Se dependesse do gosto de 99% da população
mundial, John Kerry já estaria eleito ele ou qualquer
candidato que derrubasse o execrado presidente George W. Bush. O
problema é que as eleições de novembro serão
definidas por uma pequena parcela, cerca de 10%, de eleitores americanos
que ora pendem para um lado, ora para o outro. Conquistar essa minoria
é a batalha de vida ou morte do candidato do Partido Democrata,
que chega à convenção desta semana com uma
vantagem irrisória sobre o adversário. O oba-oba da
convenção em que terá sua candidatura oficialmente
ungida, com cobertura maciça na mídia, deve lhe dar
mais um empurrão. Mas, na falta de um acontecimento telúrico,
como um atentado de grandes proporções, a maioria
dos especialistas acredita numa votação apertada,
como aconteceu nas eleições de 2000, quando Bush passou
raspando, no tapetão. Na ausência de uma catástrofe,
os eleitores indecisos acabarão por se definir em razão
de temas conhecidos: a economia, como sempre; a situação
no Iraque, um assunto externo que ganha relevância excepcional
por motivos óbvios; e por fim a personalidade e o estilo
de cada candidato, sempre os elementos mais escorregadios de qualquer
campanha.
Nesse quesito, Kerry ainda é considerado
uma incógnita por muitos eleitores, situação
que os estrategistas do Partido Democrata esperam mudar com a convenção
desta semana, em Boston, sua base política. Além de
se apresentar à nação de maneira mais explícita,
com um discurso que, se for menos do que histórico, já
ficará devendo, Kerry tem outra missão bem mais difícil:
conquistar a simpatia do eleitorado hesitante, um campo no qual
Bush tem vantagem de folga. Um exemplo: a revista The Economist
encomendou uma pesquisa que perguntava aos entrevistados com qual
candidato prefeririam passar uma hora tomando cerveja num bar. Bush
ganhou com mais de 50%. Para quem vê de fora, é difícil
entender o apreço da maioria dos americanos por seu presidente.
Mesmo com a imagem de defensor da pátria chamuscada, Bush
leva vantagem pelos próprios defeitos, como as idéias
simples e o jeito de falar nada sofisticado algo similar,
embora num universo diferente, ao estilo do presidente Lula. Muitos
eleitores se identificam exatamente com isso. A maioria até
considera Kerry mais inteligente, mas isso não o ajuda muito.
Seu preparo é confundido com arrogância, e suas falas
complexas e cheias de ponderações causam perplexidade
e isso considerando que ele tem evitado citar, em conversas
sobre política externa, nomes como Disraeli (o primeiro-ministro
inglês da era vitoriana) e Metternich (o aristocrata austríaco
que dominou a ordem conservadora na Europa da primeira metade do
século XIX), que não são exatamente figuras
populares no interior de Ohio.
A partir da convenção democrata,
prevê-se que Kerry deverá assumir cada vez mais um
estilo "presidencial". A seu favor, no campo da imagem, ele tem
o jeito ponderado, o porte elegante e até a altura (acreditem:
em todas as eleições americanas, à exceção
da última, o candidato mais alto venceu). Kerry também
precisa mostrar propostas claras e traduzi-las adequadamente ao
público. Falar em cooperação multilateral na
política externa, por exemplo, costuma mais espantar eleitores
do que atraí-los. No plano interno, as propostas são
mais populares: acabar com a redução de impostos para
os contribuintes mais ricos, estabelecida por Bush, e aumentar os
gastos com serviços de saúde para a população.
O mais difícil, para Kerry, vai ser roubar o lugar de Bush
na mesa de bar imaginária com os eleitores. É disso
que dependerá o resultado da mais importante eleição
presidencial americana da história recente.
| A
CADEIA DE ERROS DA BUROCRACIA |
Faltou
preparo, faltou coordenação e faltou até
imaginação. Sem isso, integrantes dos governos
de Bill Clinton e George W. Bush, dos serviços
de informação, do FBI e das Forças
Armadas perderam uma grande vantagem competitiva dos americanos:
a capacidade de captar e processar informações.
E sem isso não entenderam a real dimensão
da ameaça representada pela rede terrorista Al
Qaeda, deixando-se surpreender completamente pelos atentados
de 11 de setembro de 2001. Essa é a conclusão
fulcral da comissão de cinco congressistas republicanos
e cinco democratas que, ajudada por uma vasta equipe,
esquadrinhou durante quase dois anos as origens e as conseqüências
dos ataques terroristas. O relatório final, divulgado
na semana passada, afirma que em diversos momentos membros
do alto escalão dos governos Clinton e Bush foram
avisados de que Osama bin Laden tramava atacar no coração
da América. Pouco ou nada foi feito para evitar
que isso ocorresse porque ninguém soube dar a devida
importância às informações
incompletas, mas corretas, passadas pelos serviços
de inteligência. As únicas medidas tomadas
contra o chefe dos fanáticos suicidas foram insuficientes
e descoordenadas. A comissão não chega a
cravar que os atentados poderiam ter sido evitados, mas
menciona nada menos que dez oportunidades perdidas de
ataques preventivos. O relatório de 567 páginas
recomenda uma reforma no serviço secreto americano,
a começar pela criação do cargo de
um diretor que coordene a ação de todas
as agências de informação. É
coisa urgente, pois existe mesmo o risco de novos atentados.
Bush, que no começo sabotou a comissão,
considerou as recomendações pertinentes
e disse que seu governo está fazendo tudo o que
é possível para evitar novos ataques. Kerry
disse que pode fazer melhor. |
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