Edição 1864 . 28 de julho de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Guia
Artes e Espetáculos
Lya Luft
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Eleições
Marta e seus dois maridos

Enquanto o bom de voto Eduardo Suplicy
esnoba a campanha da ex-mulher, Luis
Favre, o atual da prefeita, é apontado por
caciques do PT como fator de rejeição à
candidata


Cynara Menezes e Otávio Cabral


Claudio Rossi
Dida Sampaio/AE
Luis Favre: para ele, rejeição a Marta é culpa "da situação em que a cidade se encontrava e da oposição da mídia" Suplicy: senador diz que quer ajudar a ex-mulher, mas só se sobrar tempo na agenda

Entre os muitos problemas que uma candidata é obrigada a enfrentar na largada de uma campanha eleitoral, a prefeita Marta Suplicy vem deparando com dois com os quais não contava: seu marido e seu ex. O atual, Luis Favre, por ela nomeado coordenador da campanha para a reeleição à prefeitura de São Paulo, em menos de um mês tornou-se o pivô de uma rede de intrigas que já resultou na formação de uma ala que defende seu afastamento. Já o senador Eduardo Suplicy seria, para Marta, antes uma solução que um problema. Tradicional campeão de votos, o petista é um cabo eleitoral e tanto. A questão é que se recusa a entrar de corpo e alma na campanha da ex-mulher, como gostariam a prefeita e seu marqueteiro, Duda Mendonça. Na quarta-feira passada, Duda encontrou-se com ele para pedir-lhe que gravasse um depoimento "pessoal", contando como foi a experiência de ser casado com Marta. O filme, que deverá ser levado ao ar no horário gratuito de TV, incluirá a participação dos filhos do casal, além do motorista e de empregados da casa que ela e o petista dividiram até 2001. Suplicy aceitou gravá-lo e comprometeu-se a comparecer a comícios da ex-mulher. Deixou claro, no entanto, que seu engajamento na campanha não será uma prioridade. Diariamente, o comitê de Marta envia ao senador a relação de compromissos da candidata para que "verifique a disponibilidade de comparecer". Até agora, ele achou tempo para dar o ar da graça em apenas um desses eventos: a homologação da candidatura da petista, há três semanas. Desde então, encontrou-se apenas casualmente com ela em lançamentos de candidaturas de vereadores. "Tenho muitos chamados a tantos outros lugares. Vou tentar compatibilizar os eventos da Marta com esses inúmeros chamados", diz.

Tanto o filme que Duda prepara quanto as solicitações para que o senador enfeite o palanque da ex-mulher têm o mesmo objetivo: diminuir os altos índices de rejeição à petista, tida como "arrogante" por parte do eleitorado. E é nesse ponto da discussão que entra o atual marido da prefeita. Na quarta-feira passada, reunidos em um almoço em Brasília, cinco ministros petistas – Antonio Palocci, Luiz Gushiken, Jaques Wagner, Luiz Dulci e José Dirceu – discutiram a preocupação com a eleição paulistana. Embora Duda Mendonça afirme estar "100% seguro de que Marta já está no segundo turno", o alto escalão do partido, presidente Lula incluído, não está tranqüilo quanto ao que pode acontecer a partir daí. Pesquisas internas apontam que o índice de rejeição da prefeita continua intacto. Sobre esse ponto, os ministros comentaram que a relação da candidata com Favre em nada melhora sua performance. "Ela já tem uma imagem coquete, e o marido só ajuda a reforçá-la", diz um deles.


Renata Ursaia
Sergio Lima/Folha Imagem
Suplicy e Mônica Dallari, a namorada: Lula (à dir.) quis que ele assumisse o romance para melhorar a imagem da prefeita

Empregado de Duda em sua empresa de marketing, o franco-argentino (ou francês de origem argentina, como prefere) é tido como um homem "pouco humilde", "difícil" e "autoritário". O próprio Duda já disse a amigos que não suportará intervenções de sua parte na área de marketing – justamente aquela na qual Favre se considera entendido. Um dirigente petista de São Paulo diz que o afastamento de Favre da coordenação seria bom para a campanha. "Além de não contribuir para a popularidade da Marta, o fato de ser seu marido e, ao mesmo tempo, coordenador da campanha confere a ele um poder inédito e constrangedor para os outros membros do comitê", comenta. "É como se a Marisa tivesse chefiado a campanha do Lula. Quem é que ficaria à vontade para contrariá-la?" O mesmo dirigente critica a insistência de Favre em expor-se na mídia. "A própria Marta é contra o fato de Favre dar entrevistas, mas ele não resiste a aparecer." Para piorar o quadro, o jornal Folha de S.Paulo publicou na semana passada uma reportagem que fala sobre uma suposta ligação de Favre com o megainvestidor Naji Nahas, ao lado de quem ele teria tentado obter, na prefeitura paulistana, um contrato de coleta de lixo para a empresa Vega Engenharia Ambiental. Favre declarou que não conhece o investidor e que pretende processar o jornal.

Ele não admite, evidentemente, que seja um empecilho para a vitória de Marta: "As razões da rejeição são a situação financeira em que a cidade estava, o desgaste natural pelo qual todo governante passa e a oposição sistemática da mídia", diz. Favre tem obsessão por notícias de jornais que dizem respeito a ele ou a sua mulher. Diária e sistematicamente, ele as lê e questiona – para exasperação da equipe de Duda, defensora da tese de que notícias impressas não são lidas pelas classes C e D, "as que definem uma eleição", como o marqueteiro gosta de repetir. Favre também é vaidoso. Costuma freqüentar salões de cabeleireiro para domar o ondulado dos cabelos à força de secador e, em algumas ocasiões, irrita companheiros por agir "como uma autoridade". Um exemplo desse comportamento ocorreu no mês passado, num evento em São Paulo que contou com a presença do ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Como Marta estava atrasada, o locutor interrompeu a cerimônia para anunciar sua chegada. Minutos depois, suspendeu-a novamente, desta vez para comunicar a presença no local do "marido da prefeita". Constrangimento geral.

Na vida privada, Marta e Favre continuam em lua-de-mel. Nos fins de semana, costumam freqüentar a Vila Toscana, propriedade do empresário Ivo Rosset, em Campos do Jordão. Rosset, cuja mulher, a psicanalista Eleonora Mendes Caldeira, é amiga de infância de Marta, é dono de uma das maiores adegas de São Paulo. Para homenagear os convidados, ele, não raro, abre preciosidades como o borgonha Montrachet, produzido pela Romanée-Conti e considerado um "stradivarius" dos vinhos brancos – uma garrafa não sai por menos de 1.700 dólares. Os amigos de Rosset, Favre incluído, são geralmente de origem judaica e gostam de divertir-se contando piadas em iídiche que as mulheres não entendem. Nessas ocasiões, a prefeita brinca dizendo que é só uma "gói" (não-judia). A noite quase sempre termina com os convidados sentados ao redor da lareira, enquanto o primeiro-casal paulistano dança de rosto colado.

O presidente Lula está fazendo o que pode para ajudar na campanha da prefeita. Decidiu que, até outubro, virá com freqüência a São Paulo e, a ministros do partido, pediu que agilizem a liberação de recursos para a capital paulistana. Olívio Dutra já prometeu acelerar a inauguração de obras de saneamento na cidade. No início do mês, Lula sugeriu ao senador Suplicy que tornasse público seu namoro com a jornalista Mônica Dallari. "O presidente me disse que, como eu e a Marta nos tornamos amigos, faria bem mostrar publicamente que não tenho nenhum ressentimento em relação a ela", diz o senador. Com a manobra, o presidente pretendia que, aos olhos dos eleitores, Suplicy perdesse o ar de eterna vítima e Marta, o de antipática contumaz. Pesquisas a ser divulgadas nesta semana trazem ao menos uma boa notícia para Marta: o candidato José Serra cai. A prefeita, no entanto, aparece tecnicamente empatada com ele e Paulo Maluf. Terá, portanto, de sorrir muito para conquistar a simpatia dos eleitores. E se esforçar para que seu ex, muito querido em São Paulo, suba para valer em seu palanque. Se a nova namorada deixar, claro.

 
 
 
 
topo voltar