Edição 1864 . 28 de julho de 2004

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Espionagem
O Sherlock da Abin

O delegado paulista Mauro Marcelo,
que assumiu o comando do serviço
de inteligência, é conhecido por seu
talento. Para investigar e aparecer


Thaís Oyama


Ana Araujo
O diretor da Abin em seu gabinete: orgulho da sala que é "maior que a do presidente Lula"

A nomeação do delegado Mauro Marcelo de Lima e Silva para a direção da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) desagradou a militares por uma razão objetiva e outra nem tanto. A objetiva: desde que foi criado o órgão sempre teve em seu comando um general ou alguém ligado à categoria. Em maio, quando a ex-diretora Marisa Del'Isola, integrante dos quadros da agência desde que ela se chamava SNI, foi afastada do cargo, os militares deixaram claro que gostariam de vê-lo ocupado por um igual. Não foram atendidos e, ainda por cima, tiveram de engolir alguém muito diferente. E põe diferente nisso. Em contraste com o estereótipo do militar sisudo e discreto, o delegado Mauro Marcelo é um adepto fervoroso da visibilidade. Não se importa em posar para capas de revista vestido de Sherlock Holmes, distribui fotos suas autografadas aos funcionários e adora apresentar seu gabinete a visitantes dizendo que ele é "o maior do governo federal". E, antes que lhe perguntem, completa: "Sim, maior até que o do presidente Lula".

Daniela Picoral
Mauro Marcelo, posando de detetive e xerife: pois é, ele tem até "um público"


Foi o presidente quem o indicou para o cargo. Conheceram-se em 1994, quando o delegado chefiou as investigações que resultaram na prisão dos seqüestradores de um sobrinho de Roberto Teixeira, compadre de Lula. O rapaz foi libertado após onze dias de cativeiro, sem pagamento de resgate. "A partir daí, a qualquer problema que havia com o pessoal do PT o Lula dizia: 'Chama o Mauro que ele resolve'", conta o delegado. Entre seus pares, Mauro Marcelo é tido como um policial brilhante. Especialista em crimes cometidos pela internet, formou-se delegado classe especial agraciado com o título de melhor da turma (na ocasião, compôs, para cada um dos professores, poesias que recitou de pé, uma delas intitulada "Gotas de sabedoria"). Colegas elogiam sua rapidez na resolução de crimes. "Enquanto a média dos delegados precisa de algumas semanas para resolver um caso, ele leva poucos dias. Às vezes, chega a uma conclusão em questão de horas", diz a delegada Inês Cunha, que trabalhou com ele em São Paulo. Sobre crimes na internet, Mauro Marcelo dá cursos, palestras e responde a dúvidas que colegas lhe enviam por e-mail.

Um de seus maiores orgulhos é ser um dos vinte policiais brasileiros já convidados a fazer o disputado curso do FBI nos Estados Unidos – experiência cujo registro reluz em um de seus dedos na forma de um anelão de pedra vermelha com a inscrição "FBI 1993", ano em que passou quatro meses estudando os métodos de investigação da polícia americana. É fã de Edgar Hoover, a ponto de enfeitar um de seus cartões de visita com a foto do manda-chuva mais famoso do FBI. "Não se trata de idolatria", afirma. "É um conceito educacional. Faço muitas palestras para crianças e adolescentes e, dessa maneira, crio uma empatia com o meu público", justifica. Pois é, o novo chefão da Abin tem "um público". A admiração pelo FBI e sua estrela maior já lhe rendeu uma dorzinha de cabeça. Uma ala, digamos, protonacionalista chegou a dizer que sua "ligação com a polícia americana" colocaria sob suspeição sua atuação na Abin. "Queriam que eu fosse aprender a investigar com a polícia do Paraguai?", reagiu MM. MM? – e não é que até suas iniciais têm jeito de produto ianque?

Casado com uma promotora de Justiça, Mauro Marcelo tem três filhos, vive em um apartamento em Perdizes, bairro de classe média em São Paulo, e gaba-se daquilo que considera ser uma de suas maiores qualidades. "Posso bater no peito e dizer: sou incorruptível", proclama. Há menos de um mês no comando da Abin, o delegado diz ter duas prioridades: conferir "transparência" ao órgão e seus métodos de investigação e levantar o moral da tropa, dividida por recentes disputas internas. Para isso, adotou o hábito de almoçar diariamente no "bandejão" que serve os funcionários ("Nenhum diretor jamais fez isso", informa) e instituir o "Dia do Aniversariante": toda sexta-feira, decidiu, convidará um punhado deles para tomar chá em seu gabinete – ocasião em que distribuirá aos homenageados cópias de sua foto oficial, por ele autografadas. "É uma forma de dar carinho aos funcionários. Eles sentem falta disso", diz.

Aos 44 anos, Mauro Marcelo comandará um órgão que nasceu controverso e segue polêmico. Com 1.600 funcionários, a Abin tem como tarefa fundamental municiar o governo de informações de interesse do Estado – definição vaga o suficiente para abrigar uma gama de ações que vão do monitoramento dos movimentos sem-terra ao acompanhamento de atividades nas fronteiras – passando, eventualmente, por incursões a gabinetes de Brasília nem sempre referendadas por lei, como já registrou a história recente. A tarefa de dirigir a Abin exigirá de seu novo diretor discernimento para transitar na linha tênue que separa a legalidade da arapongagem inescrupulosa. Mauro Marcelo se define como "um policial, 24 horas por dia". Diz ser "do tipo que anda com algemas dentro do carro" e afirma já ter perdido a conta de quantas vezes deu voz de prisão no trânsito. "É um impulso que vou ter de aprender a conter." Tudo indica que não deverá ser o único.

Com reportagem de Monica Weinberg

 
 
 
 
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