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Espionagem
O Sherlock da Abin
O delegado paulista Mauro Marcelo,
que assumiu o comando do serviço
de inteligência, é conhecido por seu
talento. Para investigar e aparecer

Thaís Oyama
Ana Araujo
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| O diretor da Abin em seu gabinete: orgulho
da sala que é "maior que a do presidente Lula"
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A nomeação do delegado Mauro
Marcelo de Lima e Silva para a direção da Agência
Brasileira de Inteligência (Abin) desagradou a militares por
uma razão objetiva e outra nem tanto. A objetiva: desde que
foi criado o órgão sempre teve em seu comando um general
ou alguém ligado à categoria. Em maio, quando a ex-diretora
Marisa Del'Isola, integrante dos quadros da agência desde
que ela se chamava SNI, foi afastada do cargo, os militares deixaram
claro que gostariam de vê-lo ocupado por um igual. Não
foram atendidos e, ainda por cima, tiveram de engolir alguém
muito diferente. E põe diferente nisso. Em contraste com
o estereótipo do militar sisudo e discreto, o delegado Mauro
Marcelo é um adepto fervoroso da visibilidade. Não
se importa em posar para capas de revista vestido de Sherlock Holmes,
distribui fotos suas autografadas aos funcionários e adora
apresentar seu gabinete a visitantes dizendo que ele é "o
maior do governo federal". E, antes que lhe perguntem, completa:
"Sim, maior até que o do presidente Lula".
Daniela Picoral
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| Mauro Marcelo, posando de detetive e xerife:
pois é, ele tem até "um público"
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Foi o presidente quem o indicou para o cargo. Conheceram-se em 1994,
quando o delegado chefiou as investigações que resultaram
na prisão dos seqüestradores de um sobrinho de Roberto
Teixeira, compadre de Lula. O rapaz foi libertado após onze
dias de cativeiro, sem pagamento de resgate. "A partir daí,
a qualquer problema que havia com o pessoal do PT o Lula dizia:
'Chama o Mauro que ele resolve'", conta o delegado. Entre seus pares,
Mauro Marcelo é tido como um policial brilhante. Especialista
em crimes cometidos pela internet, formou-se delegado classe especial
agraciado com o título de melhor da turma (na ocasião,
compôs, para cada um dos professores, poesias que recitou
de pé, uma delas intitulada "Gotas de sabedoria"). Colegas
elogiam sua rapidez na resolução de crimes. "Enquanto
a média dos delegados precisa de algumas semanas para resolver
um caso, ele leva poucos dias. Às vezes, chega a uma conclusão
em questão de horas", diz a delegada Inês Cunha, que
trabalhou com ele em São Paulo. Sobre crimes na internet,
Mauro Marcelo dá cursos, palestras e responde a dúvidas
que colegas lhe enviam por e-mail.
Um de seus maiores orgulhos é ser um
dos vinte policiais brasileiros já convidados a fazer o disputado
curso do FBI nos Estados Unidos experiência cujo registro
reluz em um de seus dedos na forma de um anelão de pedra
vermelha com a inscrição "FBI 1993", ano em que passou
quatro meses estudando os métodos de investigação
da polícia americana. É fã de Edgar Hoover,
a ponto de enfeitar um de seus cartões de visita com a foto
do manda-chuva mais famoso do FBI. "Não se trata de idolatria",
afirma. "É um conceito educacional. Faço muitas palestras
para crianças e adolescentes e, dessa maneira, crio uma empatia
com o meu público", justifica. Pois é, o novo chefão
da Abin tem "um público". A admiração pelo
FBI e sua estrela maior já lhe rendeu uma dorzinha de cabeça.
Uma ala, digamos, protonacionalista chegou a dizer que sua "ligação
com a polícia americana" colocaria sob suspeição
sua atuação na Abin. "Queriam que eu fosse aprender
a investigar com a polícia do Paraguai?", reagiu MM. MM?
e não é que até suas iniciais têm
jeito de produto ianque?
Casado com uma promotora de Justiça,
Mauro Marcelo tem três filhos, vive em um apartamento em Perdizes,
bairro de classe média em São Paulo, e gaba-se daquilo
que considera ser uma de suas maiores qualidades. "Posso bater no
peito e dizer: sou incorruptível", proclama. Há menos
de um mês no comando da Abin, o delegado diz ter duas prioridades:
conferir "transparência" ao órgão e seus métodos
de investigação e levantar o moral da tropa, dividida
por recentes disputas internas. Para isso, adotou o hábito
de almoçar diariamente no "bandejão" que serve os
funcionários ("Nenhum diretor jamais fez isso", informa)
e instituir o "Dia do Aniversariante": toda sexta-feira, decidiu,
convidará um punhado deles para tomar chá em seu gabinete
ocasião em que distribuirá aos homenageados
cópias de sua foto oficial, por ele autografadas. "É
uma forma de dar carinho aos funcionários. Eles sentem falta
disso", diz.
Aos 44 anos, Mauro Marcelo comandará
um órgão que nasceu controverso e segue polêmico.
Com 1.600 funcionários, a Abin
tem como tarefa fundamental municiar o governo de informações
de interesse do Estado definição vaga o suficiente
para abrigar uma gama de ações que vão do monitoramento
dos movimentos sem-terra ao acompanhamento de atividades nas fronteiras
passando, eventualmente, por incursões a gabinetes
de Brasília nem sempre referendadas por lei, como já
registrou a história recente. A tarefa de dirigir a Abin
exigirá de seu novo diretor discernimento para transitar
na linha tênue que separa a legalidade da arapongagem inescrupulosa.
Mauro Marcelo se define como "um policial, 24 horas por dia". Diz
ser "do tipo que anda com algemas dentro do carro" e afirma já
ter perdido a conta de quantas vezes deu voz de prisão no
trânsito. "É um impulso que vou ter de aprender a conter."
Tudo indica que não deverá ser o único.
Com
reportagem de Monica Weinberg
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