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Brasil
Um negócio de espiões
Disputa comercial entre
empresas de
telefonia resvala para a espionagem
corporativa que acabou monitorando
contas bancárias e bisbilhotando a vida
de gente em altas posições no governo

Alexandre Oltramari
Lula Marques/Folha Imagem
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Marco Antonio Rezende/Ag. O Globo
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| Cássio Casseb, presidente do Banco
do Brasil, e o banqueiro Daniel Dantas, dono do Opportunity:
lados opostos? |
O leilão das estatais
telefônicas tornou-se um duplo marco na história comercial
do Brasil. Ao recolher 22 bilhões de reais, a venda das teles
tornou-se o maior leilão da história nacional. Ao
produzir tanta confusão na forma de grampos telefônicos,
espionagem empresarial, acusações, suspeitas e trapaças,
o leilão também virou um exemplo eloqüente de
como são complexas, para não dizer obscuras, as transações
empresariais cujos interesses tangenciam os cofres públicos.
Há cinco anos, divulgou-se o conteúdo de 46 conversas
captadas pela célebre escuta telefônica no Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os diálogos
não traziam nenhuma novidade substancial, mas proporcionavam
um didático passeio pelos bastidores do leilão, revelando
um agudo contraste com a imagem de um negócio asséptico.
Na semana passada, graças a uma reportagem do jornalista
Marcio Aith publicada pelo jornal Folha de S.Paulo, descobriu-se
que a eterna briga entre a Telecom Itália e o banco Opportunity
pelo controle da Brasil Telecom, uma das maiores operadoras de telefonia
fixa do país, esbarrou na espionagem de membros do governo.
O caso mais explícito,
e o mais grave, é a vigilância de espiões sobre
os passos de Cássio Casseb, atual presidente do Banco do
Brasil e ex-conselheiro da Telecom Italia. Nos relatórios
divulgados na semana passada, fica-se sabendo que a Kroll Associates,
a maior empresa de investigação corporativa do mundo,
contratada pelo Opportunity, andou no encalço de Casseb por
quase um ano, tendo, inclusive, monitorado suas contas bancárias
pessoais numa flagrante violação da lei brasileira.
Em seus relatórios de trabalho, os espiões registraram
dois encontros supostamente secretos entre Casseb e dirigentes da
Telecom Italia. O primeiro ocorreu no hotel Four Seasons Ritz, em
Lisboa, em maio do ano passado. O segundo aconteceu no hotel Sofitel,
no Rio de Janeiro, em março deste ano. Desta última
reunião também participaram Sérgio Rosa, presidente
da Previ, o poderoso fundo de pensão dos funcionários
do Banco do Brasil, e Andrea Calabi, secretário de Economia
e Planejamento do governo de São Paulo, que, tal como Casseb,
também já ocupou o posto de conselheiro da Telecom
Italia.
No gabinete de Casseb
no Banco do Brasil, informa-se apenas que "o Ministério da
Justiça e a Polícia Federal estão encarregados
de cuidar da defesa do governo". De fato, o ministro Márcio
Thomaz Bastos, da Justiça, diz que já vinha investigando
o caso e, na semana passada, o Palácio do Planalto pediu
à Agência Brasileira de Inteligência (Abin) que
entrasse no assunto e informou que vai processar os investigadores.
Casseb, que volta de férias nesta semana, mandou dizer que
não comenta o assunto. Em princípio, não há
irregularidade nos encontros dele com executivos da Telecom Italia.
Na semana passada, VEJA teve acesso a outros trechos dos relatórios
dos espiões e, neles, percebe-se que eles tratam Casseb como
figura-chave nas articulações destinadas a destronar
o Opportunity do comando da Brasil Telecom, embora não sejam
capazes de apontar fatos concretos. Segundo esses relatórios,
depois do suposto encontro em Lisboa, no ano passado, Casseb reiterou
ao Opportunity a decisão do governo federal de excluir o
banco de Daniel Dantas da administração dos recursos
de fundos de pensão, entre eles a Previ. O encontro do Rio
foi seguido por uma decisão importante. Antes da reunião,
o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) proibira
a participação dos italianos na Brasil Telecom. Depois
dela, o Cade decidiu rever sua decisão.
Um dos aspectos mais
explorados nos trechos do relatório a que VEJA teve acesso
é a associação de Casseb com o secretário
Calabi. Em 2001, de acordo com os arapongas, Casseb abriu uma consultoria
que funcionava no mesmo endereço que a empresa de Calabi,
em São Paulo. Lá pelas tantas, o relatório
dos espiões especula: "É provável que Casseb
e Calabi sejam sócios na firma um do outro para evitar a
curiosidade pública, caso algum deles ocupe cargo público".
Examinando-se documentos legais e públicos, no entanto, além
da coincidência de endereço entre as duas consultorias,
não se acha uma sociedade formal entre Casseb e Calabi.
André Valentim
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Dida Sampaio/AE
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| Demarco, que rompeu com Daniel
Dantas, e o ministro Luiz Gushiken: antes de virar ministro,
ele teve suas mensagens eletrônicas capturadas pelos arapongas
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Há quatro anos,
Daniel Dantas, proprietário do Opportunity, contratou a Kroll
para bisbilhotar a vida de seus sócios italianos e
rivais na Brasil Telecom. Dantas desconfiava que havia caído
em uma armadilha financeira e comprado a CRT, estatal telefônica
gaúcha, por 200 milhões de dólares acima do
preço de mercado. Pouco depois, os espiões de Dantas
fizeram uma estupenda trapalhada, confundindo Andrea Calabi com
Armínio Fraga, então presidente do Banco Central.
Em frente ao Copacabana Palace, numa das ruas mais movimentadas
do Rio, três arapongas dois homens e uma mulher
filmavam os passos de Armínio Fraga pensando tratar-se de
Andrea Calabi, até que os auxiliares do então presidente
do Banco Central perceberam, acionaram a polícia e os arapongas
foram presos. Na época, o presidente da Kroll no Brasil,
Eduardo Sampaio, disse que desconhecia o assunto, mas Daniel Dantas,
colérico com o vexame, rompeu o contrato. Mudou de idéia
quando Carla Cico, sua principal executiva, acertou que a arapongagem
passaria a ser feita pelas equipes da Kroll de Londres e Milão,
e não do Brasil.
Desde então,
a Kroll entrega a Carla Cico um relatório de aproximadamente
300 páginas, todos os meses, com a íntegra da investigação.
O material divulgado na semana passada corresponde a cerca de 20%
do total de informações apuradas pelos arapongas.
Conforme um investigador da Kroll ouvido por VEJA, os trechos do
relatório que vieram a público referem-se a um informe
enviado a Carla Cico em abril passado. Na última semana,
a Kroll divulgou uma nota afirmando ter sido contratada pela Brasil
Telecom leia-se Daniel Dantas, do Opportunity para
fuçar eventuais irregularidades praticadas pela Telecom Italia.
Na nota, a Kroll faz questão de salientar o óbvio:
que Daniel Dantas jamais lhe pediu que investigasse integrantes
do governo brasileiro e que a empresa não adota procedimentos
contra a lei dos países onde atua. No entanto, além
de Casseb, os espiões da Kroll bisbilhotaram Luiz Gushiken,
atual ministro-chefe da Secretaria de Comunicação.
A investigação, porém, aconteceu em período
anterior à posse de Gushiken como ministro.
A Kroll obteve e-mails
trocados por Gushiken e Luiz Roberto Demarco, ex-sócio do
Opportunity, entre 2000 e 2001. Na época, Demarco era dono
da empresa Miracula, responsável pela loja virtual do PT,
na qual o partido vendia camisetas, bonés e outras quinquilharias.
Nos e-mails, Gushiken, que na ocasião trabalhava como consultor
na área previdenciária, conversa com Demarco sobre
oportunidades de negócios no setor. Gushiken também
oferece a Demarco ajuda em sua guerra comercial contra Daniel Dantas.
Um investigador da Kroll na Europa disse a VEJA que Gushiken apareceu
na investigação por acaso. "Nosso foco era o Demarco.
Conseguimos seus e-mails de maneira lícita. Ele tem muitos
inimigos e até uma ex-mulher", disse o investigador, dando
uma pista de suas fontes. Naturalmente, é fácil obter
um e-mail de maneira legal e lícita, mas ter acesso ao conteúdo
das mensagens não deixa margem a dúvida de que se
trata de uma violação de correspondência. E
isso, pela lei brasileira, é perfeitamente ilegal.
Cássio Casseb
é um experiente homem de mercado. Começou sua vida
profissional no BankBoston, em 1976, contratado por Henrique Meirelles,
atual presidente do Banco Central. Ao longo de sua carreira, fez
outros contatos importantes. No fim da década de 80, trabalhou
com o ex-secretário de Finanças da prefeitura petista
de São Paulo, João Sayad. Foi vice-presidente financeiro
do Citibank e presidente da Credicard e ajudou a reestruturar as
operações de energia do grupo Vicunha, de Benjamin
Steinbruck. Casseb foi parar no governo por indicação
de João Sayad e Sérgio Rosa, comandante da Previ,
mas não conseguiu formar a própria equipe com liberdade.
Entre os sete vice-presidentes do Banco do Brasil, Casseb não
emplacou nenhum. Todos os sete foram indicados pelo PT.
Ana Araujo
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Daniela Picoral
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| O ministro Thomaz Bastos, que
vinha investigando o caso, e Eduardo Sampaio, chefe da Kroll
no Brasil: fora do caso depois de uma trapalhada estupenda |
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