Edição 1864 . 28 de julho de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Guia
Artes e Espetáculos
Lya Luft
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Brasil
Um negócio de espiões

Disputa comercial entre empresas de
telefonia resvala para a espionagem
corporativa que acabou monitorando
contas bancárias e bisbilhotando a vida
de gente em altas posições no governo


Alexandre Oltramari

 
Lula Marques/Folha Imagem
Marco Antonio Rezende/Ag. O Globo
Cássio Casseb, presidente do Banco do Brasil, e o banqueiro Daniel Dantas, dono do Opportunity: lados opostos?

O leilão das estatais telefônicas tornou-se um duplo marco na história comercial do Brasil. Ao recolher 22 bilhões de reais, a venda das teles tornou-se o maior leilão da história nacional. Ao produzir tanta confusão na forma de grampos telefônicos, espionagem empresarial, acusações, suspeitas e trapaças, o leilão também virou um exemplo eloqüente de como são complexas, para não dizer obscuras, as transações empresariais cujos interesses tangenciam os cofres públicos. Há cinco anos, divulgou-se o conteúdo de 46 conversas captadas pela célebre escuta telefônica no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os diálogos não traziam nenhuma novidade substancial, mas proporcionavam um didático passeio pelos bastidores do leilão, revelando um agudo contraste com a imagem de um negócio asséptico. Na semana passada, graças a uma reportagem do jornalista Marcio Aith publicada pelo jornal Folha de S.Paulo, descobriu-se que a eterna briga entre a Telecom Itália e o banco Opportunity pelo controle da Brasil Telecom, uma das maiores operadoras de telefonia fixa do país, esbarrou na espionagem de membros do governo.

O caso mais explícito, e o mais grave, é a vigilância de espiões sobre os passos de Cássio Casseb, atual presidente do Banco do Brasil e ex-conselheiro da Telecom Italia. Nos relatórios divulgados na semana passada, fica-se sabendo que a Kroll Associates, a maior empresa de investigação corporativa do mundo, contratada pelo Opportunity, andou no encalço de Casseb por quase um ano, tendo, inclusive, monitorado suas contas bancárias pessoais – numa flagrante violação da lei brasileira. Em seus relatórios de trabalho, os espiões registraram dois encontros supostamente secretos entre Casseb e dirigentes da Telecom Italia. O primeiro ocorreu no hotel Four Seasons Ritz, em Lisboa, em maio do ano passado. O segundo aconteceu no hotel Sofitel, no Rio de Janeiro, em março deste ano. Desta última reunião também participaram Sérgio Rosa, presidente da Previ, o poderoso fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, e Andrea Calabi, secretário de Economia e Planejamento do governo de São Paulo, que, tal como Casseb, também já ocupou o posto de conselheiro da Telecom Italia.

No gabinete de Casseb no Banco do Brasil, informa-se apenas que "o Ministério da Justiça e a Polícia Federal estão encarregados de cuidar da defesa do governo". De fato, o ministro Márcio Thomaz Bastos, da Justiça, diz que já vinha investigando o caso e, na semana passada, o Palácio do Planalto pediu à Agência Brasileira de Inteligência (Abin) que entrasse no assunto e informou que vai processar os investigadores. Casseb, que volta de férias nesta semana, mandou dizer que não comenta o assunto. Em princípio, não há irregularidade nos encontros dele com executivos da Telecom Italia. Na semana passada, VEJA teve acesso a outros trechos dos relatórios dos espiões e, neles, percebe-se que eles tratam Casseb como figura-chave nas articulações destinadas a destronar o Opportunity do comando da Brasil Telecom, embora não sejam capazes de apontar fatos concretos. Segundo esses relatórios, depois do suposto encontro em Lisboa, no ano passado, Casseb reiterou ao Opportunity a decisão do governo federal de excluir o banco de Daniel Dantas da administração dos recursos de fundos de pensão, entre eles a Previ. O encontro do Rio foi seguido por uma decisão importante. Antes da reunião, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) proibira a participação dos italianos na Brasil Telecom. Depois dela, o Cade decidiu rever sua decisão.

Um dos aspectos mais explorados nos trechos do relatório a que VEJA teve acesso é a associação de Casseb com o secretário Calabi. Em 2001, de acordo com os arapongas, Casseb abriu uma consultoria que funcionava no mesmo endereço que a empresa de Calabi, em São Paulo. Lá pelas tantas, o relatório dos espiões especula: "É provável que Casseb e Calabi sejam sócios na firma um do outro para evitar a curiosidade pública, caso algum deles ocupe cargo público". Examinando-se documentos legais e públicos, no entanto, além da coincidência de endereço entre as duas consultorias, não se acha uma sociedade formal entre Casseb e Calabi.

 
André Valentim
Dida Sampaio/AE
Demarco, que rompeu com Daniel Dantas, e o ministro Luiz Gushiken: antes de virar ministro, ele teve suas mensagens eletrônicas capturadas pelos arapongas

Há quatro anos, Daniel Dantas, proprietário do Opportunity, contratou a Kroll para bisbilhotar a vida de seus sócios italianos – e rivais – na Brasil Telecom. Dantas desconfiava que havia caído em uma armadilha financeira e comprado a CRT, estatal telefônica gaúcha, por 200 milhões de dólares acima do preço de mercado. Pouco depois, os espiões de Dantas fizeram uma estupenda trapalhada, confundindo Andrea Calabi com Armínio Fraga, então presidente do Banco Central. Em frente ao Copacabana Palace, numa das ruas mais movimentadas do Rio, três arapongas – dois homens e uma mulher – filmavam os passos de Armínio Fraga pensando tratar-se de Andrea Calabi, até que os auxiliares do então presidente do Banco Central perceberam, acionaram a polícia e os arapongas foram presos. Na época, o presidente da Kroll no Brasil, Eduardo Sampaio, disse que desconhecia o assunto, mas Daniel Dantas, colérico com o vexame, rompeu o contrato. Mudou de idéia quando Carla Cico, sua principal executiva, acertou que a arapongagem passaria a ser feita pelas equipes da Kroll de Londres e Milão, e não do Brasil.

Desde então, a Kroll entrega a Carla Cico um relatório de aproximadamente 300 páginas, todos os meses, com a íntegra da investigação. O material divulgado na semana passada corresponde a cerca de 20% do total de informações apuradas pelos arapongas. Conforme um investigador da Kroll ouvido por VEJA, os trechos do relatório que vieram a público referem-se a um informe enviado a Carla Cico em abril passado. Na última semana, a Kroll divulgou uma nota afirmando ter sido contratada pela Brasil Telecom – leia-se Daniel Dantas, do Opportunity – para fuçar eventuais irregularidades praticadas pela Telecom Italia. Na nota, a Kroll faz questão de salientar o óbvio: que Daniel Dantas jamais lhe pediu que investigasse integrantes do governo brasileiro e que a empresa não adota procedimentos contra a lei dos países onde atua. No entanto, além de Casseb, os espiões da Kroll bisbilhotaram Luiz Gushiken, atual ministro-chefe da Secretaria de Comunicação. A investigação, porém, aconteceu em período anterior à posse de Gushiken como ministro.

A Kroll obteve e-mails trocados por Gushiken e Luiz Roberto Demarco, ex-sócio do Opportunity, entre 2000 e 2001. Na época, Demarco era dono da empresa Miracula, responsável pela loja virtual do PT, na qual o partido vendia camisetas, bonés e outras quinquilharias. Nos e-mails, Gushiken, que na ocasião trabalhava como consultor na área previdenciária, conversa com Demarco sobre oportunidades de negócios no setor. Gushiken também oferece a Demarco ajuda em sua guerra comercial contra Daniel Dantas. Um investigador da Kroll na Europa disse a VEJA que Gushiken apareceu na investigação por acaso. "Nosso foco era o Demarco. Conseguimos seus e-mails de maneira lícita. Ele tem muitos inimigos e até uma ex-mulher", disse o investigador, dando uma pista de suas fontes. Naturalmente, é fácil obter um e-mail de maneira legal e lícita, mas ter acesso ao conteúdo das mensagens não deixa margem a dúvida de que se trata de uma violação de correspondência. E isso, pela lei brasileira, é perfeitamente ilegal.

Cássio Casseb é um experiente homem de mercado. Começou sua vida profissional no BankBoston, em 1976, contratado por Henrique Meirelles, atual presidente do Banco Central. Ao longo de sua carreira, fez outros contatos importantes. No fim da década de 80, trabalhou com o ex-secretário de Finanças da prefeitura petista de São Paulo, João Sayad. Foi vice-presidente financeiro do Citibank e presidente da Credicard e ajudou a reestruturar as operações de energia do grupo Vicunha, de Benjamin Steinbruck. Casseb foi parar no governo por indicação de João Sayad e Sérgio Rosa, comandante da Previ, mas não conseguiu formar a própria equipe com liberdade. Entre os sete vice-presidentes do Banco do Brasil, Casseb não emplacou nenhum. Todos os sete foram indicados pelo PT.

 
Ana Araujo
Daniela Picoral
O ministro Thomaz Bastos, que vinha investigando o caso, e Eduardo Sampaio, chefe da Kroll no Brasil: fora do caso depois de uma trapalhada estupenda

 
 
 
 
topo voltar