|
|
Em
foco: Sérgio Abranches
Obstáculos ao
crescimento
"O governo parece não perceber que o
principal
obstáculo à sustentação do crescimento
é a
incerteza regulatória, o retorno do nacionalismo
e do dirigismo nas relações entre Estado e mercado.
Ou não se importa"
O presidente Luiz Inácio está
preocupado com a durabilidade da retomada do crescimento. Tem razão.
Não chega a ser uma bolha. A demanda não está
explodindo, não há exuberância irracional. É
mais movimento de fôlego curto, após meses de estagnação,
puxado pela ocupação da capacidade ociosa acumulada
na indústria e pelo crescimento das exportações,
principalmente agropecuárias.
Ilustração Ale Setti
 |
A preocupação do presidente, entretanto, não
tem inspirado boas ações. Para atender a suas aflições,
criou a Câmara Setorial de Política de Desenvolvimento
Econômico, que tem tudo para ser inócua em seu objetivo
central e problemática em sua projeção política.
Reunir catorze ministros para discutir desenvolvimento é
apostar na inércia, enfeitada de discursos.
O governo parece não perceber que o
principal obstáculo à sustentação do
crescimento é a incerteza regulatória, o retorno do
velho nacionalismo autárquico, do intervencionismo e do dirigismo
nas relações entre Estado e mercado. Ou não
se importa.
O mais provável é que não
se importe. Busca alternativa para ter investimento privado, num
modelo definido e controlado pelo Estado. No quadro macroeconômico
nacional e com o padrão de investimento global hoje dominante,
é pouquíssimo provável que o consiga. As restrições
fiscais impedem a clonagem do modelo militarista, do Estado que
dá toda a infra-estrutura e os insumos básicos, deixando
ao setor privado as atividades na ponta. E não há
como oferecer incentivos apropriados aos investidores. Gustavo Franco
mostrou, aqui, que as parcerias público-privadas, as PPP,
criam um espaço difuso no qual não se sabe onde termina
o público e começa o privado. Aí, deixam de
ser solução, para virar problema. Suspeito que, por
causa dessa imprecisão, vá faltar o lado privado.
Prisioneiros dessa contradição
crescer com investimento privado sob controle do Estado ,
o presidente e seu núcleo palaciano buscam soluções
"alternativas" para a sustentação do crescimento.
Não cogitam fazer as alterações necessárias
no modelo elétrico, na proposta de marco regulatório,
de iniciativa do Gabinete Civil, ou nas PPP.
Os sinais da economia são explícitos:
conta corrente robusta, desemprego em queda, fluxo de investimento
direto estrangeiro decepcionante, investimento privado baixo, sobretudo
na expansão dos negócios. A incerteza regulatória
cria o risco de falhas no suprimento de insumos e de colapso logístico.
O intervencionismo dirigista e a voracidade tributária ameaçam
com novas formas de expropriação. Não se estatizam
empresas privadas, mas se expropriam margens de rentabilidade, via
impostos, e autonomia decisória sobre a aplicação
do capital, via intervenção dirigista. O conjunto
inibe o investimento, principalmente aquele destinado a alargar
o espaço produtivo e econômico do país.
Não acho que o capital deva ter plena
liberdade. Mas a regulação não se pode traduzir
em arbítrio governamental. Deve ser exercida com autonomia,
para conter os excessos do capital e impedir o arbítrio governamental.
Este governo, porém, se confunde, muitas vezes, com o Estado
e com o movimento social, que toma pelo povo. Por isso quer para
si o poder regulatório.
A Câmara do ministro Dirceu periga mergulhar
fundo nessas contradições. É grande demais,
marcada por conflitos de objetivos entre os ministérios e
pela escassez de recursos. Nos bastidores, diz-se que será
apenas para a reflexão. A conclusão é quase
certa: o modelo de desenvolvimento no qual o governo acredita é
estatista, tenta reviver o modelo nacional-desenvolvimentista, mas
não há meios para implementá-lo sem o concurso
privado, doméstico e global, que não virá.
Logo, a reflexão dirá que o problema é o "fiscalismo
insaciável" do grupo palocciano, que ainda conta com o aval
do núcleo palaciano. Resumo da ópera: "pau na política
macroeconômica" restritiva. Não ajudará o desenvolvimento
econômico, mas poderá ser eficiente na reprodução
ampliada das contradições que imobilizam o governo.
Sérgio Abranches
é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)
|