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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Dois Ronaldos
e o pai de Fred
As angústias de
dois astros da seleção
e as
alegres aventuras de um mineiro
na Europa
Dois homens tristes habitavam
a concentração da seleção brasileira
na Alemanha, até o jogo contra o Japão. Um se chama
Ronaldo. O outro também se chama Ronaldo. A vitória
folgada, com dois gols de um dos Ronaldos e boa atuação
do outro, aliviou-lhes a situação. Até quando?
Já se gastou muito comentário tentando explicar por
que nem um nem outro começaram a Copa do jeito que se esperava
deles. Como uma tese a mais ou a menos não faz diferença,
aqui vai outra: o problema é eles terem o mesmo nome. A questão
é de uma clareza solar. Quem mandou se chamarem, os dois,
Ronaldo?
Houve tempo, no futebol, em que
quando havia dois jogadores de nome igual um era chamado de "Primeiro"
e o outro de "Segundo". Assim, se havia dois Silvas no time, um
era o Silva Primeiro e o outro o Silva Segundo. Adotava-se o sistema
dos reis e dos papas. Mas, ao contrário do que ocorre nos
reinos ou no papado, o "Segundo", mesmo que jogasse muito, lembraria
sempre uma réplica menor do "Primeiro". Mais recentemente,
passou-se a distinguir os jogadores homônimos pelo estado
de origem. Entre muitos outros casos semelhantes, temos o Juninho
Pernambucano e o Juninho Paulista. Pelo menos, ninguém fica
com o estigma de "segundo". Mas a homonímia continua a gerar
efeitos desagradáveis. O Juninho Paulista era apenas "Juninho"
até o outro cruzar seu caminho. Passou a ser "Juninho Paulista"
e nunca mais foi o mesmo.
O Ronaldo mais velho, também
conhecido como Ronaldo Fenômeno, reinava absoluto com esse
nome. Aliás, nem Ronaldo era. Era "Ronaldinho". Chegou o
outro e era "Ronaldinho" também. O nome era tão
igual que precisou vir acompanhado de um "Gaúcho". O impacto,
imenso, da chegada desse outro até acabou rebatizando o antigo
Ronaldinho de Ronaldo. Eis a nova situação: ele, o
grande, o incomparável primeiro Ronaldinho, não só
tinha sua supremacia futebolística desafiada por um recém-chegado
como até o nome lhe era usurpado. Os dois se dão bem,
vivem trocando sorrisos e brincadeiras. Mas, no fundo, no fundo...
Como pode se sentir um Ronaldo tão brutalmente atropelado
por outro Ronaldo? Quanto a esse outro Ronaldo, o Gaúcho,
quando no mesmo time que o primeiro, não pode se sentir à
vontade. Enfrenta o constrangimento, talvez até o sentimento
de culpa, do aluno que não só supera o mestre como
lhe herda os títulos e até lhe rouba o nome. Se um
dos dois se chamasse Raimundo, não seria uma rima, mas podia
ser uma solução.
Para os dois Ronaldos, assim como
para outros jogadores, a Copa do Mundo traz ansiedades, mas para
o seu Juá é só alegria. Seu Juá, ou
Juarez Pinheiro Guedes, que se apresenta também com o elegante
apelido de "Boleirão", é o pai de Fred, o centroavante
reserva da seleção, ex-jogador do Cruzeiro, hoje na
França. Seu Juá assiste a todos os jogos do Brasil
e ronda a concentração. Nos bares da Alemanha, faz
mágicas como pôr um palito na boca, um só, e
depois tirar muitos, ou pedir para as pessoas se agacharem e fazer
surgir um ovo debaixo delas. Na véspera do jogo contra a
Austrália, previu que o filho entraria no time e faria um
gol, e foi o que aconteceu. Naquela noite, para comemorar, tomou
"uns vinte uísques". Também está tentando conquistar
uma alemã (ele é viúvo). Ainda não conseguiu.
De vez em quando sai da Alemanha e volta de carro à casa
de Fred, na França. É para comer arroz com feijão.
Vai se sabendo da vida do pai
de Fred na Alemanha pelo blog que ele inaugurou na internet. "De
Teófilo Otoni para o mundo" é o slogan do blog, em
homenagem à cidade onde ele e o filho nasceram. O blog recebe
a cada dia dezenas de mensagens, a maioria da região de origem
do blogueiro. Exemplos: "Sou sua vizinha mas não tive oportunidade
de conversar com vc. Parabéns pelo filho maravilhoso"; "Olá
meu amigo Juá, sou funcionário da Ademg. Fiquei conhecendo
o primo Venâncio, gente boa"; "É muito triste saber
que seu filho já é comprometido!!! mas fazer o q né...
queria muito entrar na sua família"; "Aqui em Itambacuri
todos ficam orgulhosos por saber que um vizinho nosso faz parte
da seleção"; "Juarez, aqui é betão de
t. otoni fui seu goleiro várias vezes, descola uma camisa
do Dida p/ mim". A maioria das mensagens é de simpatia, mas
há exceções. Uma delas: "Ele pode até
ser humilde, mas não deixa de ser um véio mala".
Seu Juá contou à
Folha de S.Paulo que Fred "meteu um checão de 12.000
euros" em sua mão. "E já perguntou se eu precisava
de mais." Contou também que levou 38.000 dólares em
pedras de sua região para a Europa. Vendeu-as e levantou
95.000 dólares. No dia seguinte, uma mensagem enviada ao
blog recomendava-lhe cuidado com a Receita Federal. A maioria dos
jogadores da seleção joga na Europa. Alguns estão
por lá há tanto tempo que já se aculturaram.
A figura do seu Juá nas cercanias lhes traz de volta um Brasil
bruto, brasileiro.
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