Edição 1962 . 28 de junho de 2006

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Livros
Chega de saudade

Livros como Almanaque Anos 70
vendem explorando a nostalgia.
Nas versões idealizadas do passado,
até o inseticida Flit era perfumado


Jerônimo Teixeira

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Antialmanaque

Há três semanas na lista dos mais vendidos de VEJA, Almanaque Anos 70 (Ediouro; 416 páginas; 49,90 reais) já bateu nos 30.000 exemplares comercializados. A coleção de trivialidades compiladas pela jornalista Ana Maria Bahiana segue o caminho de sucesso aberto no ano passado por Almanaque Anos 80, dos também jornalistas Luiz André Alzer e Mariana Claudino, com 100.000 livros vendidos. A Ediouro seguirá explorando o filão: já estão previstos almanaques dedicados ao Fusca, à Jovem Guarda, aos anos 50 e até aos recentíssimos anos 90. E a fórmula conseguiu gerar um seguidor: O Mundo Acabou! (Globo; 308 páginas; 38 reais), de Alberto Villas, outro jornalista, é uma coletânea de crônicas memorialísticas sobre produtos que não existem mais, como o talco para adultos, o botão de vertical da TV em preto-e-branco e a intragável Emulsão de Scott. A nostalgia tornou-se uma indústria, e não se limita aos livros. Várias bandas têm ressurgido das cinzas para lucrar com os saudosos. Há festas e shows promovendo o revival dos anos 80, 70, 60 – e é claro que, para ir a um desses eventos, o nostálgico consumidor precisa comprar seu figurino de época, desenterrando hediondas ombreiras ou calças boca-de-sino.

A nostalgia parece ser um sentimento proeminente nesses tempos velozes em que o mundo foi da Guerra Fria ao choque de civilizações e em que a tecnologia evoluiu da máquina de escrever para o notebook. Quem tem mais de 30 anos pode ser acometido da sensação de que os anos decisivos de sua infância e adolescência correram em alguma civilização ancestral, entre sumérios ou hititas. É daí que nascem os cultores do retrô, a turma que decora a casa com telefones antigos e usa seus computadores de último tipo para jogar Space Invaders. Ao lado do pessoal retrô – que, ironicamente, se considera muito moderno –, há o nostálgico de corte mais tradicional. Em sua idealização do passado, esse chato consumado esquece que a catástrofe contemporânea não é maior do que a tragédia de vinte anos atrás (veja quadro). A memória é que edulcora os fatos, a ponto de o sujeito achar que até o ar era mais puro no tempo em que seus pais empestavam a casa com inseticida Flit (para citar outro dos produtos dos quais Alberto Villas tem uma insopitável saudade). Esse passadismo militante tem raízes profundas no sentimentalismo lusitano. Hoje, como não há mais um Camões para cantar o império que se foi em versos heróicos ou um Casimiro de Abreu para chorar a infância perdida, cabe a Ruy Castro manter a tocha da saudade acesa. Na introdução de Ela É Carioca (uma espécie de Almanaque de Ipanema), por exemplo, ele situa o período dourado de Ipanema nos anos 50 e 60, décadas líricas em que o povo andava de bonde e comprava fiado no boteco.

Os almanaques, com sua coleção abrangente e sem critério de bobagens das décadas passadas, são produtos feitos sob medida para a turma retrô. Mas também servem para alimentar a nostalgia senil dos românticos. Ana Maria Bahiana até compartilha do mesmo provincianismo carioca de Ruy Castro (no capítulo sobre livros e imprensa de seu almanaque, há uma página inteira sobre o sujeito que pichava tapumes de Ipanema com frases do National Kid – uma obra sem dúvida bem mais relevante do que Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro, ou Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, que não são citadas). A nostalgia só não serve ao entendimento histórico. É, afinal, um sentimento conservador, incapaz de lançar uma luz original sobre o passado. O filósofo alemão Theodor Adorno observou certa vez que a "dignidade da moda" está em seu caráter efêmero. Sua observação cabe perfeitamente para caracterizar a presente onda nostálgica. Ao recuperar baboseiras pop como os ioiôs de chocolate e as minigarrafinhas de Coca-Cola, almanaques e outros produtos do gênero roubam a dignidade da moda passada e a inteligência da época atual. Daqui a dez anos, quando algum escritor oportunista lançar o Almanaque 00, talvez só reste concluir que a presente década foi perdida em revivals.

 
 
 
 
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