|
|
Livros
Chega de saudade
Livros como Almanaque Anos 70
vendem explorando a nostalgia.
Nas versões idealizadas do passado,
até o inseticida Flit era perfumado

Jerônimo Teixeira
Há três semanas na lista dos mais
vendidos de VEJA, Almanaque Anos 70 (Ediouro; 416 páginas;
49,90 reais) já bateu nos 30.000 exemplares comercializados.
A coleção de trivialidades compiladas pela jornalista
Ana Maria Bahiana segue o caminho de sucesso aberto no ano passado
por Almanaque Anos 80, dos também jornalistas Luiz
André Alzer e Mariana Claudino, com 100.000 livros vendidos.
A Ediouro seguirá explorando o filão: já estão
previstos almanaques dedicados ao Fusca, à Jovem Guarda,
aos anos 50 e até aos recentíssimos anos 90. E a fórmula
conseguiu gerar um seguidor: O Mundo Acabou! (Globo; 308
páginas; 38 reais), de Alberto Villas, outro jornalista,
é uma coletânea de crônicas memorialísticas
sobre produtos que não existem mais, como o talco para adultos,
o botão de vertical da TV em preto-e-branco e a intragável
Emulsão de Scott. A nostalgia tornou-se uma indústria,
e não se limita aos livros. Várias bandas têm
ressurgido das cinzas para lucrar com os saudosos. Há festas
e shows promovendo o revival dos anos 80, 70, 60 e é
claro que, para ir a um desses eventos, o nostálgico consumidor
precisa comprar seu figurino de época, desenterrando hediondas
ombreiras ou calças boca-de-sino.
A nostalgia parece ser um sentimento proeminente
nesses tempos velozes em que o mundo foi da Guerra Fria ao choque
de civilizações e em que a tecnologia evoluiu da máquina
de escrever para o notebook. Quem tem mais de 30 anos pode ser acometido
da sensação de que os anos decisivos de sua infância
e adolescência correram em alguma civilização
ancestral, entre sumérios ou hititas. É daí
que nascem os cultores do retrô, a turma que decora a casa
com telefones antigos e usa seus computadores de último tipo
para jogar Space Invaders. Ao lado do pessoal retrô
que, ironicamente, se considera muito moderno , há
o nostálgico de corte mais tradicional. Em sua idealização
do passado, esse chato consumado esquece que a catástrofe
contemporânea não é maior do que a tragédia
de vinte anos atrás (veja
quadro). A memória é que edulcora os
fatos, a ponto de o sujeito achar que até o ar era mais puro
no tempo em que seus pais empestavam a casa com inseticida Flit
(para citar outro dos produtos dos quais Alberto Villas tem uma
insopitável saudade). Esse passadismo militante tem raízes
profundas no sentimentalismo lusitano. Hoje, como não há
mais um Camões para cantar o império que se foi em
versos heróicos ou um Casimiro de Abreu para chorar a infância
perdida, cabe a Ruy Castro manter a tocha da saudade acesa. Na introdução
de Ela É Carioca (uma espécie de Almanaque
de Ipanema), por exemplo, ele situa o período dourado
de Ipanema nos anos 50 e 60, décadas líricas em que
o povo andava de bonde e comprava fiado no boteco.
Os almanaques, com sua coleção
abrangente e sem critério de bobagens das décadas
passadas, são produtos feitos sob medida para a turma retrô.
Mas também servem para alimentar a nostalgia senil dos românticos.
Ana Maria Bahiana até compartilha do mesmo provincianismo
carioca de Ruy Castro (no capítulo sobre livros e imprensa
de seu almanaque, há uma página inteira sobre o sujeito
que pichava tapumes de Ipanema com frases do National Kid
uma obra sem dúvida bem mais relevante do que Sargento
Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro, ou Lavoura
Arcaica, de Raduan Nassar, que não são citadas).
A nostalgia só não serve ao entendimento histórico.
É, afinal, um sentimento conservador, incapaz de lançar
uma luz original sobre o passado. O filósofo alemão
Theodor Adorno observou certa vez que a "dignidade da moda" está
em seu caráter efêmero. Sua observação
cabe perfeitamente para caracterizar a presente onda nostálgica.
Ao recuperar baboseiras pop como os ioiôs de chocolate e as
minigarrafinhas de Coca-Cola, almanaques e outros produtos do gênero
roubam a dignidade da moda passada e a inteligência da época
atual. Daqui a dez anos, quando algum escritor oportunista lançar
o Almanaque 00, talvez só reste concluir que a presente
década foi perdida em revivals.
|