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Livros Ilusões
perdidas Um psicólogo de Harvard explica
por que as pessoas às vezes não sabem o que as satisfaz 
Jerônimo Teixeira
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A maioria dos torcedores brasileiros
só concebe uma resposta quando perguntada sobre como vai se sentir caso
o Brasil ganhe a Copa do Mundo: exultante. E provavelmente se mostraria cética
se um cientista ainda por cima americano tentasse contestar essa
previsão com pesquisas acadêmicas a respeito da intensidade da emoção
que os torcedores de fato sentem quando seu time vence. O psicólogo Daniel
Gilbert é esse cientista. Seu livro O que Nos Faz Felizes (tradução
de Liliane Marinho; Campus/Elsevier; 276 páginas; 44 reais) pode funcionar
como uma dose gelada de realismo diante dos arroubos da torcida. De acordo com
Gilbert, as projeções que fazemos sobre nossa própria alegria
são quase sempre exageradas. "A mente humana está bem equipada para
saber o que fará uma pessoa feliz ou infeliz. Mas é péssima
em calcular quão intensa essa felicidade vai ser, e quanto vai durar."
Em resumo, a festa do hexa será mais curta do que faz crer o entusiasmo
irracional de Galvão Bueno. O mais preocupante é que os mesmos erros
de avaliação cometidos em relação a eventos passageiros
como a vitória de um time também ocorrem na hora de tomar decisões
cruciais uma mudança de emprego, um rompimento de namoro ou um pedido
de casamento. Professor da Universidade Harvard, Gilbert desvela um abismo de
contradição e auto-engano na vida cotidiana.
Há alguns mecanismos psicológicos básicos que explicam esses
erros (veja o quadro).
O sujeito que sonha com um carro novo, por exemplo, não pensa em contrariedades
como congestionamentos, estradas esburacadas e oficinas picaretas e é
por negligenciar esses detalhes inconvenientes que as pessoas tendem a supervalorizar
a satisfação que podem obter desses bens de consumo. Pelo menos,
é um alento saber que o impacto de eventos trágicos a morte
de um ente querido, uma doença grave, um acidente também
costuma ser superestimado. Uma pesquisa realizada com pessoas saudáveis
chegou a uma lista de 83 doenças consideradas "piores do que a morte",
mas o número de pessoas que se suicidam quando adoecem é insignificante.
Aliás, um estudo mostrou que pacientes de câncer são mais
otimistas em relação ao futuro do que as pessoas saudáveis.
"As pessoas têm uma resistência bem maior do que imaginam. São
capazes de superar quase todo tipo de adversidade em um tempo muito menor do que
anteciparam", diz Gilbert. Elas fazem isso por um mecanismo que os psicólogos
chamam de "racionalização" um esforço mental para
encontrar o impossível "lado bom" das situações mais terríveis.
Há muito de ilusão nessa atitude, e é bom que seja assim:
alguém que tenha uma visão absolutamente realista do mundo tenderá
a mergulhar na depressão. Gilbert observa
que uma das mais extraordinárias faculdades mentais é a imaginação
a capacidade, única da espécie humana, de se projetar no
futuro distante. Seu livro, porém, demonstra que a imaginação
conhece limites. Ela não é capaz, por exemplo, de visualizar detalhes.
Assim como a memória fornece uma versão editada (e deformada) do
passado, a imaginação apresenta apenas um esboço sintético
do futuro possível. É nessa seleção inconsciente que
as pequenas contrariedades que acompanham o carro dos sonhos são ignoradas.
Algo similar ocorre quando as pessoas imaginam situações trágicas.
Elas avaliam corretamente o sofrimento que a morte de um filho ou uma doença
grave traria. Mas a imaginação parece incapaz de considerar a capacidade
humana de racionalizar a dor. O que Nos Faz
Felizes é uma leitura curiosa e esclarecedora. O título em português,
porém, é um tanto enganoso (em inglês, o livro se chama Stumbling
on Happiness, algo como "Tropeçando na Felicidade"). Não, Gilbert
não pretende conduzir seu leitor ao caminho da felicidade, e se mostra
muito cético em relação às receitas dos livros de
auto-ajuda. "Os conselhos que podemos dar para isso são óbvios:
invista nas relações humanas, passe tempo com os amigos etc. As
obras de auto-ajuda só tentam dar um colorido exótico para essas
velhas verdades", diz o psicólogo.
| PREVISÕES FURADAS
Por que as pessoas erram ao antecipar
reações futuras A
crença: eventos como a vitória do time do coração
em um campeonato esportivo provocam uma alegria intensa e duradoura
O fato: pesquisas revelaram que o nível de felicidade quando a vitória
de fato acontece é sempre menor do que o esperado
A explicação: as projeções tendem a se fixar
em um fato só o campeonato é nosso! , mas não
nos detalhes comezinhos que atrapalham a experiência o engarrafamento
no caminho do estádio até a casa A
crença: quando alguém encontra uma companhia agradável
durante uma viagem a um país estrangeiro, acredita que está começando
uma amizade duradoura O fato: de volta
da viagem, ao reencontrar o novo amigo, muitas vezes se descobre que o sujeito
é um tremendo chato A explicação:
a imaginação tende a lançar no futuro as circunstâncias
do presente. Fora de casa, uma pessoa pode se aproximar de quem compartilha sua
língua e cultura mas a mesma pessoa não terá graça
nenhuma na volta A
crença: diante de um cenário muito doloroso, as pessoas acreditam
que não serão capazes de se recuperar
O fato: pessoas que ficaram paralíticas ou perderam um filho conseguem
superar o impacto e retomar a vida A explicação:
projeções desse tipo desconsideram a ação de um mecanismo
de defesa psíquico a racionalização. Por meio dele
as pessoas são capazes de reencontrar a felicidade depois do pior sofrimento
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