Edição 1962 . 28 de junho de 2006

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Ilusões perdidas

Um psicólogo de Harvard explica
por que as pessoas às vezes não
sabem o que as satisfaz


Jerônimo Teixeira

EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro

A maioria dos torcedores brasileiros só concebe uma resposta quando perguntada sobre como vai se sentir caso o Brasil ganhe a Copa do Mundo: exultante. E provavelmente se mostraria cética se um cientista – ainda por cima americano – tentasse contestar essa previsão com pesquisas acadêmicas a respeito da intensidade da emoção que os torcedores de fato sentem quando seu time vence. O psicólogo Daniel Gilbert é esse cientista. Seu livro O que Nos Faz Felizes (tradução de Liliane Marinho; Campus/Elsevier; 276 páginas; 44 reais) pode funcionar como uma dose gelada de realismo diante dos arroubos da torcida. De acordo com Gilbert, as projeções que fazemos sobre nossa própria alegria são quase sempre exageradas. "A mente humana está bem equipada para saber o que fará uma pessoa feliz ou infeliz. Mas é péssima em calcular quão intensa essa felicidade vai ser, e quanto vai durar." Em resumo, a festa do hexa será mais curta do que faz crer o entusiasmo irracional de Galvão Bueno. O mais preocupante é que os mesmos erros de avaliação cometidos em relação a eventos passageiros como a vitória de um time também ocorrem na hora de tomar decisões cruciais – uma mudança de emprego, um rompimento de namoro ou um pedido de casamento. Professor da Universidade Harvard, Gilbert desvela um abismo de contradição e auto-engano na vida cotidiana.

Há alguns mecanismos psicológicos básicos que explicam esses erros (veja o quadro). O sujeito que sonha com um carro novo, por exemplo, não pensa em contrariedades como congestionamentos, estradas esburacadas e oficinas picaretas – e é por negligenciar esses detalhes inconvenientes que as pessoas tendem a supervalorizar a satisfação que podem obter desses bens de consumo. Pelo menos, é um alento saber que o impacto de eventos trágicos – a morte de um ente querido, uma doença grave, um acidente – também costuma ser superestimado. Uma pesquisa realizada com pessoas saudáveis chegou a uma lista de 83 doenças consideradas "piores do que a morte", mas o número de pessoas que se suicidam quando adoecem é insignificante. Aliás, um estudo mostrou que pacientes de câncer são mais otimistas em relação ao futuro do que as pessoas saudáveis. "As pessoas têm uma resistência bem maior do que imaginam. São capazes de superar quase todo tipo de adversidade em um tempo muito menor do que anteciparam", diz Gilbert. Elas fazem isso por um mecanismo que os psicólogos chamam de "racionalização" – um esforço mental para encontrar o impossível "lado bom" das situações mais terríveis. Há muito de ilusão nessa atitude, e é bom que seja assim: alguém que tenha uma visão absolutamente realista do mundo tenderá a mergulhar na depressão.

Gilbert observa que uma das mais extraordinárias faculdades mentais é a imaginação – a capacidade, única da espécie humana, de se projetar no futuro distante. Seu livro, porém, demonstra que a imaginação conhece limites. Ela não é capaz, por exemplo, de visualizar detalhes. Assim como a memória fornece uma versão editada (e deformada) do passado, a imaginação apresenta apenas um esboço sintético do futuro possível. É nessa seleção inconsciente que as pequenas contrariedades que acompanham o carro dos sonhos são ignoradas. Algo similar ocorre quando as pessoas imaginam situações trágicas. Elas avaliam corretamente o sofrimento que a morte de um filho ou uma doença grave traria. Mas a imaginação parece incapaz de considerar a capacidade humana de racionalizar a dor.

O que Nos Faz Felizes é uma leitura curiosa e esclarecedora. O título em português, porém, é um tanto enganoso (em inglês, o livro se chama Stumbling on Happiness, algo como "Tropeçando na Felicidade"). Não, Gilbert não pretende conduzir seu leitor ao caminho da felicidade, e se mostra muito cético em relação às receitas dos livros de auto-ajuda. "Os conselhos que podemos dar para isso são óbvios: invista nas relações humanas, passe tempo com os amigos etc. As obras de auto-ajuda só tentam dar um colorido exótico para essas velhas verdades", diz o psicólogo.

 

PREVISÕES FURADAS

Por que as pessoas erram ao antecipar reações futuras


A crença: eventos como a vitória do time do coração em um campeonato esportivo provocam uma alegria intensa e duradoura

O fato: pesquisas revelaram que o nível de felicidade quando a vitória de fato acontece é sempre menor do que o esperado

A explicação: as projeções tendem a se fixar em um fato só – o campeonato é nosso! –, mas não nos detalhes comezinhos que atrapalham a experiência – o engarrafamento no caminho do estádio até a casa


A crença: quando alguém encontra uma companhia agradável durante uma viagem a um país estrangeiro, acredita que está começando uma amizade duradoura

O fato: de volta da viagem, ao reencontrar o novo amigo, muitas vezes se descobre que o sujeito é um tremendo chato

A explicação: a imaginação tende a lançar no futuro as circunstâncias do presente. Fora de casa, uma pessoa pode se aproximar de quem compartilha sua língua e cultura – mas a mesma pessoa não terá graça nenhuma na volta


A crença: diante de um cenário muito doloroso, as pessoas acreditam que não serão capazes de se recuperar

O fato: pessoas que ficaram paralíticas ou perderam um filho conseguem superar o impacto e retomar a vida

A explicação: projeções desse tipo desconsideram a ação de um mecanismo de defesa psíquico – a racionalização. Por meio dele as pessoas são capazes de reencontrar a felicidade depois do pior sofrimento

 

 
 
 
 
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