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Arte
É dourado. E vale ouro
Tela de Gustav Klimt estabelece novo
recorde de preço para obras de arte
Neue Galerie/Reuters
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| Retrato de Adele Bloch-Bauer
I: tesouro roubado pelos nazistas |
Em 1907, depois de três
anos de trabalho, o pintor austríaco Gustav Klimt (1862-1918)
deu os retoques finais numa de suas obras-primas. O Retrato de
Adele Bloch-Bauer I exibe a aristocrata vienense com ar lânguido,
em meio aos opulentos tons dourados que são a marca do artista.
Na semana passada, ficou demonstrado que a obra de Klimt vale ouro:
ela foi arrematada pelo bilionário americano Ronald S. Lauder,
herdeiro da grife de cosméticos Estée Lauder, por
135 milhões de dólares. É o maior valor
atingido por uma obra de arte em todos os tempos. E um feito realizado
com estrondo: o negócio significa uma alta de quase 30% em
relação ao já estratosférico recorde
anterior, de 104,1 milhões de dólares, alcançado
em 2004 pela tela Menino com Cachimbo, do espanhol Pablo
Picasso. Para além de seu valor artístico, o Retrato
é uma obra de trajetória ímpar. Em 1938, quando
a Alemanha nazista anexou a Áustria, o industrial Ferdinand
Bloch-Bauer, marido de Adele, teve de fugir às pressas do
país. Ele deixou para trás sua coleção
que se dispersaria, em grande parte, como butim nas mãos
de comandantes alemães como Hermann Goering. Somente em janeiro
passado, depois de uma batalha judicial com o governo austríaco
que se arrastou por cinco anos, o quadro e outras quatro obras de
Klimt foram restituídos à sobrinha e herdeira do colecionador,
Maria Altmann. Foi um reparo justo, mas doloroso: a devolução
privou a Galeria Belvedere, em Viena, de um de seus maiores ícones.
A valorização da
tela de Klimt é uma evidência de que o mercado de arte
se encontra de novo em ebulição e de forma
tão exuberante quanto a que se viu nos anos 80. Naquela década,
os preços foram impulsionados pela entrada em cena de novos
colecionadores, os milionários japoneses. Quando esses perderam
poder de compra, o mercado enfrentou uma ressaca. A alta atual também
coincide com a chegada de uma nova classe de colecionadores
desta vez, administradores de grandes fundos de investimento, magnatas
asiáticos e oligarcas russos. No ano passado, as duas maiores
casas de leilões do mundo, a Sotheby's e a Christie's, venderam
quase 6 bilhões de dólares em obras de arte
um crescimento de 168% em dois anos. Também concorre para
a valorização o fato de que é cada vez mais
raro encontrar obras importantes de grandes artistas à venda
e a reviravolta provocada pelas devoluções
de arte roubada pelos nazistas criou um novo manancial de oportunidades
nessa área. No caso da tela de Klimt, pesou ainda o interesse
peculiar do comprador, que a adquiriu diretamente da proprietária,
e não num leilão. Um dos mais ativos colecionadores
americanos, Lauder pretende fazer do Retrato o destaque de
um museu devotado à arte da Europa Central fundado por ele
há cinco anos, a Neue Galerie. "Adele será nossa Mona
Lisa", declarou. A partir de 13 de julho, tanto essa tela quanto
as demais reavidas por Maria Altmann (e que, ao contrário
da primeira, ainda não foram vendidas) estarão em
exposição na instituição, na Quinta
Avenida nova-iorquina.
Descendente de judeus húngaros,
Lauder preside uma comissão internacional que luta pela restituição
das obras pilhadas pelos nazistas. Sua militância na área
é antiga. Nos anos 80, quando foi nomeado embaixador americano
em Viena, o bilionário entrou em choque com a direita austríaca
de tendências nitidamente neonazistas, frise-se. Chegou
a ser alvo de um inquérito parlamentar, sob a acusação
de valer-se de sua posição para ter facilidades na
compra de obras de arte e mobília. O contato de Lauder com
a herdeira de Bloch-Bauer nasceu de seu apoio à batalha dela
contra o governo austríaco. Maria Altmann, hoje com 90 anos,
mudou-se para os Estados Unidos nos anos 40, em decorrência
da II Guerra Mundial. Em sua infância, em Viena, ela conviveu
com a tia e modelo de Klimt. Até hoje Maria procura resposta
para uma dúvida existencial: teria Adele sido amante do pintor,
um notório sedutor? "Acho muito possível", diz ela.
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JÓIAS DA ARTE
Os cinco quadros
mais caros do mundo (em dólares)
1º
Retrato de Adele Bloch-Bauer I
Pintor: Gustav Klimt
Valor: 135 milhões
2º
Menino com Cachimbo
Pintor: Picasso
Valor: 104,1 milhões
3º
Dora Maar com Gato
Pintor: Picasso
Valor: 95,2 milhões
4º
Retrato do Doutor Gachet
Pintor: Van Gogh
Valor: 82,5 milhões
5º
Au Moulin de la Galette
Pintor: Renoir
Valor: 78,1 milhões
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