Edição 1962 . 28 de junho de 2006

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Arte
É dourado. E vale ouro

Tela de Gustav Klimt estabelece novo
recorde de preço para obras de arte


Neue Galerie/Reuters
Retrato de Adele Bloch-Bauer I: tesouro roubado pelos nazistas

Em 1907, depois de três anos de trabalho, o pintor austríaco Gustav Klimt (1862-1918) deu os retoques finais numa de suas obras-primas. O Retrato de Adele Bloch-Bauer I exibe a aristocrata vienense com ar lânguido, em meio aos opulentos tons dourados que são a marca do artista. Na semana passada, ficou demonstrado que a obra de Klimt vale ouro: ela foi arrematada pelo bilionário americano Ronald S. Lauder, herdeiro da grife de cosméticos Estée Lauder, por 135 milhões de dólares. É o maior valor atingido por uma obra de arte em todos os tempos. E um feito realizado com estrondo: o negócio significa uma alta de quase 30% em relação ao já estratosférico recorde anterior, de 104,1 milhões de dólares, alcançado em 2004 pela tela Menino com Cachimbo, do espanhol Pablo Picasso. Para além de seu valor artístico, o Retrato é uma obra de trajetória ímpar. Em 1938, quando a Alemanha nazista anexou a Áustria, o industrial Ferdinand Bloch-Bauer, marido de Adele, teve de fugir às pressas do país. Ele deixou para trás sua coleção – que se dispersaria, em grande parte, como butim nas mãos de comandantes alemães como Hermann Goering. Somente em janeiro passado, depois de uma batalha judicial com o governo austríaco que se arrastou por cinco anos, o quadro e outras quatro obras de Klimt foram restituídos à sobrinha e herdeira do colecionador, Maria Altmann. Foi um reparo justo, mas doloroso: a devolução privou a Galeria Belvedere, em Viena, de um de seus maiores ícones.

A valorização da tela de Klimt é uma evidência de que o mercado de arte se encontra de novo em ebulição – e de forma tão exuberante quanto a que se viu nos anos 80. Naquela década, os preços foram impulsionados pela entrada em cena de novos colecionadores, os milionários japoneses. Quando esses perderam poder de compra, o mercado enfrentou uma ressaca. A alta atual também coincide com a chegada de uma nova classe de colecionadores – desta vez, administradores de grandes fundos de investimento, magnatas asiáticos e oligarcas russos. No ano passado, as duas maiores casas de leilões do mundo, a Sotheby's e a Christie's, venderam quase 6 bilhões de dólares em obras de arte – um crescimento de 168% em dois anos. Também concorre para a valorização o fato de que é cada vez mais raro encontrar obras importantes de grandes artistas à venda – e a reviravolta provocada pelas devoluções de arte roubada pelos nazistas criou um novo manancial de oportunidades nessa área. No caso da tela de Klimt, pesou ainda o interesse peculiar do comprador, que a adquiriu diretamente da proprietária, e não num leilão. Um dos mais ativos colecionadores americanos, Lauder pretende fazer do Retrato o destaque de um museu devotado à arte da Europa Central fundado por ele há cinco anos, a Neue Galerie. "Adele será nossa Mona Lisa", declarou. A partir de 13 de julho, tanto essa tela quanto as demais reavidas por Maria Altmann (e que, ao contrário da primeira, ainda não foram vendidas) estarão em exposição na instituição, na Quinta Avenida nova-iorquina.

Descendente de judeus húngaros, Lauder preside uma comissão internacional que luta pela restituição das obras pilhadas pelos nazistas. Sua militância na área é antiga. Nos anos 80, quando foi nomeado embaixador americano em Viena, o bilionário entrou em choque com a direita austríaca – de tendências nitidamente neonazistas, frise-se. Chegou a ser alvo de um inquérito parlamentar, sob a acusação de valer-se de sua posição para ter facilidades na compra de obras de arte e mobília. O contato de Lauder com a herdeira de Bloch-Bauer nasceu de seu apoio à batalha dela contra o governo austríaco. Maria Altmann, hoje com 90 anos, mudou-se para os Estados Unidos nos anos 40, em decorrência da II Guerra Mundial. Em sua infância, em Viena, ela conviveu com a tia e modelo de Klimt. Até hoje Maria procura resposta para uma dúvida existencial: teria Adele sido amante do pintor, um notório sedutor? "Acho muito possível", diz ela.

 

JÓIAS DA ARTE

Os cinco quadros mais caros do mundo (em dólares)

Retrato de Adele Bloch-Bauer I
Pintor: Gustav Klimt
Valor: 135 milhões

Menino com Cachimbo
Pintor: Picasso
Valor: 104,1 milhões

Dora Maar com Gato
Pintor: Picasso
Valor: 95,2 milhões

Retrato do Doutor Gachet
Pintor: Van Gogh
Valor: 82,5 milhões

Au Moulin de la Galette
Pintor: Renoir
Valor: 78,1 milhões

 
 
 
 
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