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Cinema O
pit stop da Pixar Carros
não é o melhor desenho da produtora de Toy Story.
Mas a concorrência continua uma volta atrás
 Isabela
Boscov Divulgação
 | | Relâmpago,
o velho guincho e o elegantérrimo Hudson Hornet: ode à vida sobre rodas |
Há
alguns meses, concluiu-se uma operação sui generis na indústria
do entretenimento: a produtora Pixar foi comprada pela Disney por 7,4 bilhões
de dólares mas ela é que vai dar as cartas no claudicante
departamento de animação de sua nova dona. Oficialmente, então,
a Pixar passa a ser um gigante. E esse status parece ter afetado de forma decisiva
a recepção a Carros (Cars, Estados Unidos,
2006), que estréia nesta sexta-feira no país. De Toy Story
a Os Incríveis, os seis filmes anteriores da companhia chefiada
pelo animador John Lasseter fizeram não apenas carreira milionária
na bilheteria, como foram também unanimemente elogiados pela crítica.
Carros, porém, só tem levado bordoadas. Reclama-se de que
ele idealiza o passado e exalta a civilização automotiva bem no
momento em que o preço do barril de petróleo está batendo
nas alturas e o planeta, se aquecendo além da conta. Num excesso
politicamente correto, Manohla Dargis, do The New York Times, queixou-se
de não haver nenhum veículo bicombustível entre os personagens,
como se um desenho fosse o responsável por decidir os hábitos dos
futuros motoristas americanos. Mas Carros passa muito longe de ser um desastre,
e a sensação que essas críticas deixam é que o assunto
é outro: a Pixar esgotou a boa vontade regulamentar que se costuma dedicar
aos pequenos e valentes. Como todos
os desenhos supervisionados por Lasseter, Carros discorre sobre a importância
de fazer amigos e mantê-los. Relâmpago McQueen (na versão original,
com a voz de Owen Wilson), um jovem e prepotente carro de corrida, não
sabe disso até se perder em Radiator Springs, a caminho da etapa final
de um torneio. Outrora um ponto movimentado da legendária Rota 66, a cidadezinha
caiu no esquecimento desde que o tráfego foi desviado para a rodovia interestadual.
Seus poucos remanescentes um guincho enferrujado, uma Porsche que trocou
a vida veloz de Los Angeles pelo interior e um elegantérrimo Hudson Hornet
1951 (dublado por Paul Newman) esperam, em vão, que essa espécie
de museu a céu aberto dos anos 50 seja redescoberta. Relâmpago, preso
por mau comportamento, está ali a contragosto, desesperado para participar
de sua competição. Mas, à medida que os dias passam, vai
perdendo a pressa e se deixando conquistar pelo jeitão afetuoso de seus
conhecidos. No final, quando chegar a seu destino, já será um novo
homem ou melhor, um novo carro.
Se há uma objeção ao filme que faz sentido, ela está
aí. Únicos seres "vivos" de Carros, os automóveis
não primam pela maleabilidade. Apesar de alguns bons achados, como a manada
de tratores ruminantes e as moscas em forma de Fusquinha, animar essas carrocerias
rígidas é uma tarefa dura até para o talentoso time da produtora.
O resultado é que os personagens demoram mais que o habitual a seduzir,
a sutileza com que a Pixar costuma temperar suas mensagens se perde e esse mundo
em que nada é nem aparenta ser orgânico se torna algo cansativo (mas
só um pouquinho). Carros, enfim, não é o melhor trabalho
da Pixar, o que equivale a dizer que um filme de Woody Allen não é
o seu melhor: mesmo quando não é ótimo, dá de dez
na concorrência. |