|
|
Cinema
As guerras de Jennifer Em
Separados pelo Casamento, a atriz tenta dar mais um passo para que
deixem de vê-la como a Rachel de Friends ou como a ex
de Brad Pitt 
Isabela Boscov
Divulgação  |
| No filme, com Vaughn, e nos tempos de Pitt: a batalha
de relações públicas está ganha. Falta a da carreira | Vince
Bucci/Getty Images  |
Na
última contagem feita nos Estados Unidos, a venda de camisetas com os dizeres
"Team Aniston" superava na proporção de 25 para 1 a saída
das camisetas "Team Jolie". E isso é sério. Desde que Brad Pitt
se separou de Jennifer Aniston sob rumores de uma ligação com Angelina
Jolie, no começo do ano passado, sua ex ganhou o amparo de uma verdadeira
torcida popular, que não se conforma em ver uma moça tão
meiga trocada por aquela afamada devoradora de homens. Bom para Jennifer Aniston,
pessoa física; e péssimo para Jennifer Aniston, pessoa jurídica.
Durante dez anos, no papel da avoada Rachel, a atriz liderou o seriado Friends
com habilidade e sucesso estrondoso. Continua a freqüentar as capas das revistas
femininas mais lidas do mundo. É, até hoje, considerada modelo de
estilo (pelos cabelos lisos e cor de mel) e de comportamento, pela simplicidade
com que se apresenta ao público. Mas talvez Jennifer não seja uma
estrela da grandeza que se imaginava. É o que sugere a maneira avassaladora
com que sua vida pessoal atropelou sua carreira: nessa fase pós-Friends,
em que está na contingência de se firmar no cinema, Jennifer parece
cada vez mais perdida, indo do razoável (Por um Sentido na Vida)
ao insípido (Dizem por Aí...) e ao péssimo (Fora
de Rumo). Seu problema, ao que parece, é justamente ter saído
vitoriosa na guerra de relações públicas com a dupla "Brangelina":
Jennifer é tão acessível e simpática que ganhou, sem
querer, o pior dos rótulos: o de coitadinha. Desfazer-se desse papel de
vítima que lhe atribuíram é sua missão declarada em
Separados pelo Casamento (The Break-Up, Estados Unidos, 2006),
que estréia nesta sexta-feira no país e no qual encena, de
mentirinha e em tom cômico, aquilo que acabou de atravessar nos tablóides:
um rompimento não exatamente cordial.
Um tumulto íntimo vivido em público, como o triângulo amoroso
em que Jennifer se viu envolvida, costuma ser um teste esclarecedor sobre o carisma
de uma celebridade. Tome-se o exemplo das duas outras partes dessa questão:
enquanto Jennifer ficava com a solidariedade, Pitt e Angelina faziam a féria
em Sr. & Sra. Smith, que rendeu 478 milhões de dólares
na bilheteria mundial. Apesar de serem os vilões da história, ambos
saíram dela com o cacife intacto ou até mais alto. Já
a química entre Jennifer e Vince Vaughn (que ela começou a namorar
durante as filmagens de Separados pelo Casamento) fez respeitáveis,
mas não extraordinários, 103 milhões. Meg Ryan, que ficou
na desconfortabilíssima posição de trair o marido, Dennis
Quaid, para então ser deixada pelo amante, Russell Crowe, não consegue
emplacar com o público e/ou a crítica nem com reza brava .
era outra dessas estrelas superdimensionadas. No sentido inverso, a carreira de
Nicole Kidman, que foi dispensada por Tom Cruise, e de Uma Thurman, que também
foi publicamente traída pelo ex, Ethan Hawke, só fez melhorar desde
que elas se divorciaram aliás, sob o mesmo clima de indignação
e solidariedade que envolveu Jennifer Aniston. É
o caso de se juntar ao coro e dizer que Jennifer não merece isso
e Separados pelo Casamento pode ajudá-la a entender onde é
que ela anda errando. O filme começa com o primeiro encontro de Brooke
(Jennifer) e Gary (Vaughn), passa a jato pelos bons momentos e corta para um torturante
jantar no apartamento do casal, com as famílias de ambos, ao qual se segue
uma briga homérica. Brooke avança o sinal e simula um rompimento,
com o objetivo de fazer o parceiro recobrar o bom senso. Mas ninguém pode
recuperar aquilo que não tem: Gary é divertido, mas é também
egoísta, imaturo, preguiçoso e malcriado. (E só é
crível que esses dois estejam juntos porque, como já disse Pedro
Almodóvar, as mulheres fazem qualquer negócio.) Separação
efetuada, então, vem a questão de o que fazer com o apartamento.
Como nem um nem outro quer abrir mão do imóvel, eles o dividem ao
meio Vaughn, também produtor, deve ser fã de A Guerra
dos Roses , em duas zonas altamente militarizadas.
Ao contrário dos filmes anteriores de Jennifer, Separados pelo Casamento
ao menos tem a ambição de ser algo mais: não uma comédia
romântica sobre um homem e uma mulher que vão descobrir serem feitos
um para o outro, mas uma comédia de humor negro sobre como, num relacionamento
a longo prazo, a paixão tem de acomodar alguma racionalidade ou
então deixar de existir. De outros clichês, entretanto, ele não
consegue fugir, e o pior deles é identificar os personagens com seus intérpretes.
Vaughn, que desde Penetras Bons de Bico virou um expoente do humor proletário,
faz aqui o que se presume ser uma versão de si mesmo: o sujeito que fala
sem parar, tem uma tirada pronta para qualquer ocasião e, quando chega
em casa, pega a cerveja e o salgadinho e se joga na frente da TV. Jennifer é
elegante, magra, trabalha numa galeria de arte, trata todo mundo bem e, mesmo
quando é mesquinha com o namorado, o faz por razões compreensíveis.
É exatamente isso que está ameaçando a carreira de Jennifer:
sua incapacidade de transcender essa ligação quase automática
entre seus papéis e sua persona. Como o crítico americano Roger
Ebert colocou muito bem, sempre que ele a vê num filme tem uma primeira
reação de surpresa, como se estivesse encontrando uma amiga de escola
no meio de um monte de gente famosa o que diz muito sobre a empatia que
ela é capaz de despertar, mas, de forma bem menos positiva, reflete também
a inadequação de seu carisma ao cinema. Os bons momentos de Separados
pelo Casamento (e eles existem) confirmam a suspeita de que Jennifer é
uma comédienne com potencial para vôos maiores, e filmes melhores.
Basta dar adeus, de uma vez por todas, a Brad e a Rachel. |