Edição 1962 . 28 de junho de 2006

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Folhetim vira-lata

Cristal é a tentativa do SBT de abrasileirar
uma trama mexicana. Os genes não combinam


Marcelo Marthe


Divulgação
Cristal: dinheiro há de sobra – já o melodrama está em falta

Exibida pelo SBT desde o último dia 5, a novela Cristal é um folhetim vira-lata: mistura genes da novela mexicana e da novela brasileira. Cristal conta a história da empregada Vitória (Bete Coelho), que depois de engravidar de um rapaz prometido para ser padre é expulsa pela patroa e abandona a criança. Mais tarde, ela vira uma bem-sucedida empresária da moda e volta a cruzar com a filha que deixou para trás, sem saber quem é. Também alheia à origem, a moça (Bianca Castanho) se apaixona pelo meio-irmão. É um argumento clássico de folhetim, com ingredientes como filhos perdidos, romances proibidos e Cinderelas que saem da pobreza para vencer na vida. Podia ter surgido numa novela da Globo ou da Televisa – como é o caso de Cristal, que fez sucesso na rede mexicana. Ao refilmá-la, contudo, o SBT tentou combinar o apelo naturalista das novelas brasileiras com a overdose melodramática das mexicanas. Equilibrar-se entre as duas matrizes provou-se uma tarefa complicada. O híbrido resultou numa novela insossa – e com ibope até agora idem.

Em suas tentativas de exibir novelas, o SBT já ativou e desativou diversas vezes seu núcleo de produção e oscilou entre as histórias nacionais e as mexicanas. De Maria do Bairro a A Usurpadora, a emissora soube se valer com sucesso das criações da Televisa, que demonstraram ter seu espaço no coração das espectadoras das classes C e D. Além de exibir os originais, nos últimos anos o SBT investiu em refilmagens. Desde 2000, mantém um acordo nesse sentido com a Televisa. Embora a parceira mexicana exija contratualmente que as cópias sejam fiéis aos originais, o SBT tem ensaiado tomar algumas liberdades. Os Ricos Também Choram, exibida no ano passado, já buscou incrementar a receita com um tempero brasileiro. Cristal é a tentativa mais ousada de combinar as duas dramaturgias. Por exemplo: em vez de ser fortemente calcado num drama central (marca dos folhetins mexicanos), o texto realça tramas e personagens paralelos. Há também um certo tom de crônica do cotidiano, como nas produções da Globo.

Arma com a qual o SBT busca recuperar a vice-liderança no horário nobre, Cristal já estava em filmagem quando sofreu uma mudança de rumos. Herval Rossano, veterano da Globo e que vinha de um êxito na Record com A Escrava Isaura, assumiu sua condução e obteve carta-branca de Silvio para abrasileirar o texto. Ele dispôs de um orçamento polpudo, de 180.000 reais por capítulo – contra 75.000 das produções anteriores da casa. Prejudicada, para complicar, pela estréia às vésperas da Copa do Mundo, a novela patina nos 7 pontos de média no ibope – antes, o SBT atingia 10 no horário. Ainda não é um desastre, ressalve-se: Marisol, outra refilmagem mexicana, ficou um bom tempo com ibope baixo antes de deslanchar. Mas, preventivamente, uma correção de rota está a caminho: a roteirista Annamaria Nunes recebeu a tarefa de "remexicanizar" Cristal.

 
 
 
 
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