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Televisão
Folhetim vira-lata
Cristal é
a tentativa do SBT de abrasileirar
uma trama mexicana. Os genes não combinam

Marcelo Marthe
Divulgação
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| Cristal: dinheiro
há de sobra já o melodrama está
em falta |
Exibida pelo SBT desde o último
dia 5, a novela Cristal é um folhetim vira-lata: mistura
genes da novela mexicana e da novela brasileira. Cristal
conta a história da empregada Vitória (Bete Coelho),
que depois de engravidar de um rapaz prometido para ser padre é
expulsa pela patroa e abandona a criança. Mais tarde, ela
vira uma bem-sucedida empresária da moda e volta a cruzar
com a filha que deixou para trás, sem saber quem é.
Também alheia à origem, a moça (Bianca Castanho)
se apaixona pelo meio-irmão. É um argumento clássico
de folhetim, com ingredientes como filhos perdidos, romances proibidos
e Cinderelas que saem da pobreza para vencer na vida. Podia ter
surgido numa novela da Globo ou da Televisa como é
o caso de Cristal, que fez sucesso na rede mexicana. Ao refilmá-la,
contudo, o SBT tentou combinar o apelo naturalista das novelas brasileiras
com a overdose melodramática das mexicanas. Equilibrar-se
entre as duas matrizes provou-se uma tarefa complicada. O híbrido
resultou numa novela insossa e com ibope até agora
idem.
Em suas tentativas de exibir
novelas, o SBT já ativou e desativou diversas vezes seu núcleo
de produção e oscilou entre as histórias nacionais
e as mexicanas. De Maria do Bairro a A Usurpadora, a
emissora soube se valer com sucesso das criações da
Televisa, que demonstraram ter seu espaço no coração
das espectadoras das classes C e D. Além de exibir os originais,
nos últimos anos o SBT investiu em refilmagens. Desde 2000,
mantém um acordo nesse sentido com a Televisa. Embora a parceira
mexicana exija contratualmente que as cópias sejam fiéis
aos originais, o SBT tem ensaiado tomar algumas liberdades. Os
Ricos Também Choram, exibida no ano passado, já
buscou incrementar a receita com um tempero brasileiro. Cristal
é a tentativa mais ousada de combinar as duas dramaturgias.
Por exemplo: em vez de ser fortemente calcado num drama central
(marca dos folhetins mexicanos), o texto realça tramas e
personagens paralelos. Há também um certo tom de crônica
do cotidiano, como nas produções da Globo.
Arma com a qual o SBT busca recuperar
a vice-liderança no horário nobre, Cristal já
estava em filmagem quando sofreu uma mudança de rumos. Herval
Rossano, veterano da Globo e que vinha de um êxito na Record
com A Escrava Isaura, assumiu sua condução
e obteve carta-branca de Silvio para abrasileirar o texto. Ele dispôs
de um orçamento polpudo, de 180.000 reais por capítulo
contra 75.000 das produções anteriores da casa.
Prejudicada, para complicar, pela estréia às vésperas
da Copa do Mundo, a novela patina nos 7 pontos de média no
ibope antes, o SBT atingia 10 no horário. Ainda não
é um desastre, ressalve-se: Marisol, outra refilmagem
mexicana, ficou um bom tempo com ibope baixo antes de deslanchar.
Mas, preventivamente, uma correção de rota está
a caminho: a roteirista Annamaria Nunes recebeu a tarefa de "remexicanizar"
Cristal.
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