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Medicina Sinais
ignorados A morte fulminante de Bussunda
mostra como os fatores de risco do infarto agem em silêncio
 Leoleli
Camargo
André
Nazereth/Strana
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Como sempre ocorre quando um astro popular morre no auge da carreira, a notícia
do infarto que fulminou o comediante Bussunda, aos 43 anos, provocou nos brasileiros
um misto de espanto e consternação. Ator de maior talento do programa
Casseta & Planeta Urgente, da Rede Globo, Bussunda, cujo nome real
era Cláudio Besserman Vianna, deixa o humor brasileiro mais pobre sem suas
sátiras impagáveis do presidente Luiz "Inércio" Lula da Silva
e do jogador Ronaldo "Fofômeno", vazadas no mais típico humor carioca.
Por suas circunstâncias, a morte do humorista também mostra como
os ataques cardíacos podem ser traiçoeiros e a importância
de ficar atento aos fatores de risco relacionados a eles. Bussunda estava na Alemanha,
gravando cenas no ambiente da Copa do Mundo para o programa da Globo. Na noite
de sexta-feira 16, ele participou de uma pelada com colegas e amigos no hotel
em que estava hospedado, nos arredores de Munique. Sentiu um mal-estar e chegou
a abandonar a partida, mas não deu importância ao episódio.
Voltou para o hotel, jantou e foi dormir sem procurar um médico. Esse foi
seu erro. O mal-estar que o ator sentira, ao que tudo indica, era um início
de infarto. Fotos
divulgação/TV Globo
 |  | | Bussunda:
retratos anárquicos do país nas sátiras ao presidente Luiz "Inércio" Lula da Silva
e ao jogador Ronaldo "Fofômeno" |
Na manhã seguinte, Bussunda contou a um dos diretores do Casseta &
Planeta, com quem tomou café-da-manhã, que havia passado mal
a noite toda. Minutos depois, enquanto era examinado por médicos no hotel,
o humorista sofreu um ataque cardíaco e morreu. A direção
do hotel não quis comentar detalhes do caso e limitou-se a dizer que todos
os esforços para revivê-lo foram tentados, mas falharam. "Bussunda
sofria de asma, e é provável que tenha atribuído à
doença o mal-estar que sentiu", disse a VEJA Flávio Cure Palheiro,
cardiologista carioca que acompanhava o humorista. Esse é um engano cometido
por muitas vítimas de ataques cardíacos. Vários sintomas
da iminência do infarto, como falta de ar, náuseas, fadiga, tontura,
dores nas costas e no estômago, são facilmente confundidos com indisposições.
Por isso mesmo os médicos advertem que, para prevenir o infarto ou identificar
seus sintomas, é necessário levar em conta os fatores de risco (veja
o quadro abaixo). Embora
Bussunda nunca tenha recebido um diagnóstico de doença coronária,
entre os oito principais fatores de risco do infarto ele apresentava cinco. Tinha
mais de 40 anos, idade a partir da qual os homens ficam mais suscetíveis
a ataques cardíacos. O histórico familiar do humorista também
sinalizava perigo sua mãe, a psicanalista Helena Besserman Vianna,
morreu de infarto há quatro anos. Bussunda, embora tenha emagrecido 20
quilos nos últimos sete meses, ainda estava acima do peso e acumulava gordura
abdominal o que triplica os riscos de infarto e derrame cerebral. Os outros
dois fatores de risco que o humorista apresentava eram colesterol alto e hipertensão.
Altas taxas de LDL, o chamado colesterol ruim, no sangue contribuem para a formação
das placas de gordura que entopem as artérias. A pressão alta lesa
as paredes dos vasos sanguíneos e obriga o coração a trabalhar
mais para bombear o sangue para o corpo.
Bussunda controlava o colesterol e a pressão alta com medicamentos. Nos
últimos tempos, exercitava-se diariamente e fazia check-ups preventivos
a cada seis meses. O último deles foi em janeiro passado e não acusou
nenhuma alteração significativa. Na ocasião, o humorista
foi submetido a uma cintilografia miocárdica, exame para detectar obstruções
nas artérias, e não foram detectadas anormalidades. "A lição
que fica da súbita morte de Bussunda é clara: quem apresenta fatores
de risco de infarto e se sente mal de repente deve procurar um médico na
mesma hora", conclui o cardiologista Protásio da Luz, do Instituto do Coração,
de São Paulo. Os companheiros de Bussunda no Casseta & Planeta
anunciaram na semana passada que pretendem continuar com o programa. É
uma decisão audaciosa, já que Bussunda, embora dividisse com os
colegas a redação das piadas e dos esquetes, era o símbolo
do programa, o rosto e o corpo roliços que vêm à mente quando
se pensa nas estripulias da trupe. O historiador Elias Thomé Saliba, da
Universidade de São Paulo, autor do livro Raízes do Riso,
sobre a história do humor no Brasil, avalia que Bussunda pertence à
linhagem de humoristas como Grande Otelo e Oscarito. Diz Saliba: "No fundo, ríamos
não do Bussunda, mas das cenas brasileiras que ele nos fazia enxergar,
com sua adiposidade e sua anarquia".
Com reportagem de Érica
Chaves |