Edição 1962 . 28 de junho de 2006

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Medicina
Sinais ignorados

A morte fulminante de Bussunda
mostra como os fatores de risco
do infarto agem em silêncio


Leoleli Camargo

André Nazereth/Strana
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Como sempre ocorre quando um astro popular morre no auge da carreira, a notícia do infarto que fulminou o comediante Bussunda, aos 43 anos, provocou nos brasileiros um misto de espanto e consternação. Ator de maior talento do programa Casseta & Planeta Urgente, da Rede Globo, Bussunda, cujo nome real era Cláudio Besserman Vianna, deixa o humor brasileiro mais pobre sem suas sátiras impagáveis do presidente Luiz "Inércio" Lula da Silva e do jogador Ronaldo "Fofômeno", vazadas no mais típico humor carioca. Por suas circunstâncias, a morte do humorista também mostra como os ataques cardíacos podem ser traiçoeiros e a importância de ficar atento aos fatores de risco relacionados a eles. Bussunda estava na Alemanha, gravando cenas no ambiente da Copa do Mundo para o programa da Globo. Na noite de sexta-feira 16, ele participou de uma pelada com colegas e amigos no hotel em que estava hospedado, nos arredores de Munique. Sentiu um mal-estar e chegou a abandonar a partida, mas não deu importância ao episódio. Voltou para o hotel, jantou e foi dormir sem procurar um médico. Esse foi seu erro. O mal-estar que o ator sentira, ao que tudo indica, era um início de infarto.

 

Fotos divulgação/TV Globo
Bussunda: retratos anárquicos do país nas sátiras ao presidente Luiz "Inércio" Lula da Silva e ao jogador Ronaldo "Fofômeno"

Na manhã seguinte, Bussunda contou a um dos diretores do Casseta & Planeta, com quem tomou café-da-manhã, que havia passado mal a noite toda. Minutos depois, enquanto era examinado por médicos no hotel, o humorista sofreu um ataque cardíaco e morreu. A direção do hotel não quis comentar detalhes do caso e limitou-se a dizer que todos os esforços para revivê-lo foram tentados, mas falharam. "Bussunda sofria de asma, e é provável que tenha atribuído à doença o mal-estar que sentiu", disse a VEJA Flávio Cure Palheiro, cardiologista carioca que acompanhava o humorista. Esse é um engano cometido por muitas vítimas de ataques cardíacos. Vários sintomas da iminência do infarto, como falta de ar, náuseas, fadiga, tontura, dores nas costas e no estômago, são facilmente confundidos com indisposições. Por isso mesmo os médicos advertem que, para prevenir o infarto ou identificar seus sintomas, é necessário levar em conta os fatores de risco (veja o quadro abaixo).

Embora Bussunda nunca tenha recebido um diagnóstico de doença coronária, entre os oito principais fatores de risco do infarto ele apresentava cinco. Tinha mais de 40 anos, idade a partir da qual os homens ficam mais suscetíveis a ataques cardíacos. O histórico familiar do humorista também sinalizava perigo – sua mãe, a psicanalista Helena Besserman Vianna, morreu de infarto há quatro anos. Bussunda, embora tenha emagrecido 20 quilos nos últimos sete meses, ainda estava acima do peso e acumulava gordura abdominal – o que triplica os riscos de infarto e derrame cerebral. Os outros dois fatores de risco que o humorista apresentava eram colesterol alto e hipertensão. Altas taxas de LDL, o chamado colesterol ruim, no sangue contribuem para a formação das placas de gordura que entopem as artérias. A pressão alta lesa as paredes dos vasos sanguíneos e obriga o coração a trabalhar mais para bombear o sangue para o corpo.

Bussunda controlava o colesterol e a pressão alta com medicamentos. Nos últimos tempos, exercitava-se diariamente e fazia check-ups preventivos a cada seis meses. O último deles foi em janeiro passado e não acusou nenhuma alteração significativa. Na ocasião, o humorista foi submetido a uma cintilografia miocárdica, exame para detectar obstruções nas artérias, e não foram detectadas anormalidades. "A lição que fica da súbita morte de Bussunda é clara: quem apresenta fatores de risco de infarto e se sente mal de repente deve procurar um médico na mesma hora", conclui o cardiologista Protásio da Luz, do Instituto do Coração, de São Paulo. Os companheiros de Bussunda no Casseta & Planeta anunciaram na semana passada que pretendem continuar com o programa. É uma decisão audaciosa, já que Bussunda, embora dividisse com os colegas a redação das piadas e dos esquetes, era o símbolo do programa, o rosto e o corpo roliços que vêm à mente quando se pensa nas estripulias da trupe. O historiador Elias Thomé Saliba, da Universidade de São Paulo, autor do livro Raízes do Riso, sobre a história do humor no Brasil, avalia que Bussunda pertence à linhagem de humoristas como Grande Otelo e Oscarito. Diz Saliba: "No fundo, ríamos não do Bussunda, mas das cenas brasileiras que ele nos fazia enxergar, com sua adiposidade e sua anarquia".

 

Com reportagem de Érica Chaves

 
 
 
 
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