Edição 1962 . 28 de junho de 2006

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Ambiente
A matança pode voltar

Resolução abre caminho para o fim
da moratória da caça às baleias


Ruth Costas

A caça às baleias foi proibida em 1986, quando os cientistas chegaram à alarmante conclusão de que, se a matança não cessasse, várias espécies iriam desaparecer. Vinte anos depois, a boa notícia é que o número de baleias voltou a crescer, ainda que nem todas as espécies estejam livres da ameaça de extinção. A má é que um grupo de países liderados pelo Japão está usando isso como pretexto para acabar com a moratória que protege esses mamíferos gigantes e pacíficos. Na semana passada, pela primeira vez em duas décadas, os caçadores obtiveram uma vitória na Comissão Baleeira Internacional (CBI), o colegiado de setenta países que tem a última palavra sobre o assunto. Por escassa maioria, a CBI aprovou uma resolução que declara desnecessária a manutenção da moratória e adverte que a atual quantidade de baleias ameaça o estoque de peixes em algumas regiões. Ainda não é a liberação, mas um passo em direção à matança sem restrições.

O Japão nunca se conformou com a moratória. A restrição causa prejuízo à frota de baleeiros e tira da mesa um prato tradicional da culinária nipônica. Aproveitando-se de uma brecha na convenção internacional, os japoneses continuam a matar por volta de 1.000 animais por ano a pretexto de pesquisas científicas. A desculpa é que, como as baleias precisam ser mortas para ter suas entranhas devidamente estudadas, nada mais natural que depois sejam esquartejadas, embaladas, congeladas e vendidas aos restaurantes. A Noruega, que não aderiu à convenção da CBI, e a Islândia matam livremente as baleias. Numa rara coincidência de interesses diplomáticos, o Brasil e os Estados Unidos fazem parte do grupo que se opõe ao fim da proibição. Para mudar a convenção internacional, o Japão precisa obter o apoio de 53 países-membros. Por enquanto, só conseguiu 33 votos, mas os diplomatas japoneses acreditam que a nova resolução abriu o caminho para negociar o voto de outros países e pôr fim à moratória da caça comercial de baleias. "A resolução não tem efeitos práticos, mas seu significado simbólico e político é bastante forte", diz a bióloga Karina Groch, chefe da delegação brasileira no comitê científico da CBI.

A estratégia japonesa para aumentar o seu poder de fogo na comissão é obscura. Há indícios de que o Japão está pagando a países pequenos e sem tradição na pesca baleeira, como a Guatemala, para que ingressem na CBI para votar a favor de suas propostas. Isso explicaria por que o número de países-membros quase dobrou nos últimos cinco anos e por que países como Mali – que fica a quilômetros do mar – resolveram participar das decisões que irão definir o futuro das baleias.

 

 

 
 
 
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