Edição 1962 . 28 de junho de 2006

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Tecnologia
Liberdade de bolso

A memória flash e novos programas
permitem carregar o conteúdo do
PC num pen drive


Rafael Corrêa

 

Lee Jae Won/Reuters
Chip flash de 32 gigabytes (acima): potência suficiente para começar a substituir os discos rígidos em laptops

Os laptops tornaram o PC portátil e facilitaram a vida de quem precisa levar grandes quantidades de informação embaixo do braço. Um novo recurso pode agora transformar essa maravilha da tecnologia em pré-história da mobilidade digital. Trata-se do pen drive, que, além do uso habitual como memória auxiliar, pode rodar parte do sistema operacional Windows. Ou seja, com a ajuda de softwares especialmente desenvolvidos para essa tarefa, como o PowerToGo, esse aparelho de dimensões minúsculas não leva mais apenas arquivos, mas também programas. Dessa forma, não se fica mais preso a um único computador, pois tudo o que é necessário para o uso pessoal está no pen drive. O computador se torna apenas um hospedeiro, que empresta sua memória e capacidade de processamento para o pen drive executar os programas.

Essa manobra só é possível devido à memória flash, um chip que vem revolucionando o mundo dos aparelhos portáteis. Esse chip, que equipa os pen drives, também é encontrado nos iPod nano e em outros tocadores de MP3 que se tornaram sonho de consumo até mesmo dos não aficionados de tecnologia digital. São os cartões de memória flash que armazenam as fotos tiradas nas últimas férias com a câmera digital. Celulares que fotografam, tocam músicas e servem de agenda pessoal também se valem da memória flash para funcionar. O tamanho reduzido e a funcionalidade, aliados à grande capacidade de armazenamento, tornam a memória flash uma opção melhor do que disquetes e CDs para transportar arquivos. Por isso, os pen drives se popularizaram tanto nos últimos anos. Só em 2005, segundo a consultoria americana Gartner, as vendas em escala global desses dispositivos ultrapassaram 2 bilhões de dólares. A estimativa é a de que elas cresçam pelo menos 15% ao ano até 2010. Boa parte dessa previsão otimista tem por base os pen drives dotados de softwares capazes de transformá-los numa espécie de PC portátil. "O hábito de ter tudo guardado num disco rígido, preso num PC ou num laptop, está mudando", diz Kate Purmal, presidente da U3, empresa que desenvolve pen drives com softwares operacionais. "Cada vez mais gente instala os programas em seus pen drives porque eles são minúsculos e permitem que se escolha em qual computador se quer trabalhar."

O funcionamento desses softwares é relativamente simples. Quando o pen drive é conectado ao PC, o próprio programa abre uma interface de navegação no monitor do computador hospedeiro. Isso permite acesso aos arquivos e programas armazenados na memória flash. A impressão de quem utiliza o pen drive é a de estar sempre usando o mesmo computador, ainda que migre de um hospedeiro para outro. Os programas transportados no pen drive mantêm as configurações pessoais, como a lista de sites favoritos do browser de internet e a relação de contatos do programa de chat. Quando um programa é executado, o pen drive utiliza a capacidade de processamento do computador hospedeiro, mas não seu disco rígido. As informações são gravadas apenas no chip de memória flash. Retirando-se o pen drive, não resta no computador hospedeiro nenhum vestígio do conteúdo que ele executou. Essa propriedade garante boa margem de segurança no caso de o pen drive ser acoplado a computadores públicos, como aqueles instalados em lan houses, cibercafés ou aeroportos. Evidentemente, a conexão entre um PC e um pen drive não é uma operação livre de riscos. Os computadores hospedeiros podem conter programas maliciosos especialmente projetados para roubar as informações contidas nos dispositivos.

Criados no começo dos anos 80 pelo japonês Fujio Masuoka, da Toshiba, os chips de memória flash são um produto da nanotecnologia. Esse campo de pesquisa trabalha com dispositivos medidos em nanômetros. Um nanômetro é 80.000 vezes menor que a espessura de um fio de cabelo. Cada chip de memória flash contém bilhões de pequenos transistores, construídos em escala nanométrica. Quanto menores forem os transistores, maior é a capacidade de armazenamento da memória flash. Os transistores das primeiras versões mediam 220 nanômetros. Hoje, alguns fabricantes conseguem produzir transistores de 50 nanômetros. A evolução é tão rápida que supera a célebre Lei de Moore. Esse cânone da informática, cunhado por Gordon Moore, um dos fundadores da Intel, estabelece que a capacidade de processamento de um chip dobra a cada dezoito meses. Os fabricantes de memória flash têm conseguido fazer isso em apenas doze meses.

O chip de maior capacidade atualmente é o de 32 gigabytes da coreana Samsung, com 35 bilhões de transistores. É o suficiente para armazenar 8.000 músicas ou 32 horas de vídeo em alta resolução. "Essa capacidade de armazenamento deve aumentar logo, pois os fabricantes já estão testando chips com 20 nanômetros", diz o físico Euclydes Marega Júnior, professor do Grupo de Semicondutores do Instituto de Física de São Carlos, da Universidade de São Paulo. A evolução na capacidade de armazenamento é inversamente proporcional ao preço. De acordo com a consultoria americana Semico, 1 gigabyte de memória flash custava 1.900 dólares seis anos atrás. Hoje, sai por 50 dólares. Estima-se que caia para 9 dólares em 2009.

A memória flash está menos sujeita aos problemas que afetam o funcionamento do disco rígido. Para fazer a leitura ou a gravação de arquivos de forma rápida, ele precisa girar em velocidades superiores a 4.200 rotações por minuto. As peças se desgastam com o uso, comprometendo o desempenho do disco. Movimentos bruscos também podem danificar o HD de laptops ou PCs. Como não tem partes móveis, a memória flash consome menos energia. Por tudo isso, seus fabricantes acreditam que ela é uma ótima candidata a substituir os discos rígidos de tamanho reduzido usados em aparelhos portáteis como os tocadores de MP3 e laptops. O primeiro sinal dessa substituição é o surgimento dos HDs híbridos. Eles combinam a memória flash com o mecanismo convencional dos discos rígidos. No HD híbrido, informações requisitadas com muita freqüência, como os arquivos do sistema operacional ou programas pesados, ficam armazenadas no chip flash. Assim, o acesso a essas informações pode ser 50% mais rápido e o consumo de energia diminui, visto que o disco rígido é menos solicitado. Uma das versões do Windows Vista, o próximo sistema operacional da Microsoft, será especialmente preparada para tirar proveito do potencial desses HDs. Já há quem acredite que, num futuro relativamente próximo, a memória flash assumirá totalmente as funções atuais do HD. Quando isso acontecer, ninguém sentirá saudade do velho e encrenqueiro disco rígido.

 

A revolução flash

 
Fotos divulgação

O DEDO DO DONO
Garantir que ninguém acesse informações valiosas guardadas no pen drive é um problema para os donos desses aparelhos. No Bio Drive da Kanguru, parte do conteúdo armazenado é protegida por um código e só pode ser acessada depois que a impressão digital do dono é reconhecida pelo dispositivo. Armazena até 2 gigabytes de informação e pesa só 19 gramas. Custa 280 dólares

GUARDADO PARA SEMPRE
Um tipo de cartão de memória flash de baixo custo oferece uma nova possibilidade de uso: serve para guardar de forma permanente as fotos feitas com câmeras digitais. Substitui os CDs graváveis, que estragam com facilidade. Também poupa tempo, pois não é preciso baixar as imagens primeiro no computador. Elas ficam armazenadas direto no cartão, que funciona como um arquivo pessoal. O modelo da Sandisk de 128 megabytes custa 18 dólares

AGORA, NO NOTEBOOK
A Samsung lançou o primeiro notebook com memória flash no lugar do HD. O Q30-SSD tem 32 gigabytes de capacidade de armazenamento. A memória flash é mais veloz, mais leve e gasta menos energia do que os HDs tradicionais. O Windows carrega 50% mais rápido com a memória flash. O melhor de tudo: não tem aquele barulhinho irritante do disco rígido girando. Custa 3 700 dólares

 

 

Montagem sobre ilustração The New York Times e fotos divulgação
 
 
 
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