Edição 1962 . 28 de junho de 2006

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Copa
A diferença que
a idade faz

Após os 30, o corpo do
jogador já não é mais o
mesmo. Mas ninguém quer
pendurar as chuteiras


Duda Teixeira

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Aposentadoria tardia

Treinos na medida certa, suplementos alimentares e cirurgias que recuperam totalmente os membros e as articulações. Os avanços da medicina esportiva esticaram a vida útil dos jogadores de futebol. Entre os escalados para a Copa do Mundo, nada menos que um em cada quatro atletas tem mais de 30 anos. A descoberta da fonte da juventude, porém, trouxe um efeito colateral indesejado: a dificuldade em encontrar o momento oportuno de se aposentar do futebol e se dedicar a outros assuntos, como família ou uma nova carreira. Se antes uma lesão ou o cansaço eram os principais motivos para pendurar as chuteiras, hoje a realidade é outra. "Poucos são os que têm a dignidade para interromper a carreira quando ela ainda está no auge", diz Regina Brandão, psicóloga do esporte da Universidade São Judas Tadeu, em São Paulo, que já realizou trabalhos para o Internacional de Porto Alegre e para o Cruzeiro de Belo Horizonte. "A maioria dos jogadores atua até não agüentar mais, mesmo que já tenha acumulado muitos milhões no banco."

Na seleção brasileira, há cinco veteranos: Cafu, 36 anos, Roberto Carlos, 33, Dida, 32, Zé Roberto, 31, e Emerson, 30. Cada um deles sofre, a seu modo, as conseqüências da idade. Depois dos 30, a freqüência cardíaca máxima que o coração atinge por minuto diminui em um batimento a cada aniversário. O hormônio masculino testosterona inicia seu declínio, o que afeta a velocidade de arranque, a força do chute e a resistência a lesões. A sobrevida esportiva do trio nacional e de outros trintões como Figo, 33, de Portugal, e Claudio Suárez, 37, do México, deve-se a uma grande mudança no preparo dos atletas. Os treinamentos excessivos, que incluíam subidas e descidas na arquibancada e corridas ininterruptas de mais de 15 quilômetros na década de 70, foram substituídos por sessões de musculação, que preparam o corpo de forma harmônica e protegem as articulações. Suplementos alimentares de carboidrato e de proteína ingeridos no vestiário, logo após o jogo, ajudam a evitar danos aos músculos. Cirurgias artroscópicas, que dispensam cortes, permitem que muitos jogadores voltem a campo com o mesmo desempenho de antes. Cafu, que ainda pode tornar-se o atleta com mais atuações pela seleção nacional em Mundiais, sofreu uma lesão no menisco do joelho esquerdo no início deste ano e voltou a jogar em trinta dias. "Se fosse com a tecnologia de dez anos atrás, ele ficaria pelo menos seis meses parado", diz o fisiologista Turibio Leite de Barros, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). "Certamente não estaria nesta Copa."

O lateral-direito da seleção brasileira é um dos mais conhecidos exemplos de como a idade pode ser contornada. Na posição que exige mais velocidade e resistência, ele não decepciona. Embora muitos considerem que a entrada de Cicinho na última quinta-feira deu mais velocidade ao jogo, o capitão tem muito a somar quando é escalado. "Cafu tem vigor físico comparável ao de muitos laterais de 20 anos. Além disso, sua constituição genética dá a ele uma condição muito boa de jogo", diz Ivan Piçarro, fisiologista que já treinou o craque no Palmeiras. O segredo de Cafu está na motivação, exatamente o ponto em que os outros atletas costumam falhar. Normalmente, a perda da vontade de jogar é oriunda da rotina estressante desses profissionais. Partidas a cada três ou quatro dias, fins de semana longe da família e regras sociais rígidas são os itens que mais induzem o cansaço mental. Quando esse sentimento fica mais intenso, a perda de flexibilidade e o aumento de peso são as conseqüências mais imediatas.

Enquanto adiam a aposentadoria, esses atletas exercem impactos decisivos sobre o restante da equipe. Com eles, o time pode ficar mais apático, com reduzida vontade de jogar. "Antes de tentarem recuperar uma bola perdida, os mais experientes avaliam o lance para saber qual é a probabilidade de tomarem a bola ou não", afirma a psicóloga Regina. Os novatos, por sua vez, tentam todas. Perdem muitas, mas ganham algumas também, e dão sua contribuição para o moral da equipe. Em contrapartida, a ausência dos veteranos diminui o equilíbrio emocional do grupo. Numa tese de doutorado defendida na Universidade Estadual de Campinas, em 2000, Regina avaliou o stress em boleiros de diferentes faixas etárias e notou que os mais velhos se abalam muito menos com a pressão decorrente do favoritismo ou de placares desfavoráveis. Com tantos trintões brigando por vaga, dosar a presença deles nas seleções tornou-se um dos principais desafios dos técnicos deste Mundial.

 

 
 
 
 
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