Edição 1962 . 28 de junho de 2006

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Copa
Mercado negro

Cambistas vendem entradas no hotel da seleção, algumas com o nome da CBF. VEJA comprou uma


Carlos Maranhão e André Fontenelle, de Munique

 
Fotos André Fontenelle
Torcedores no metrô de Munique e, abaixo, o bilhete com a identificação da CBF, de 100 euros, que VEJA adquiriu por sete vezes mais

Faltavam quarenta minutos para o início da partida entre o Brasil e a Austrália, em Munique, no último dia 18, quando VEJA comprou um ingresso para esse jogo de um cambista espanhol por 700 euros (2.000 reais), sete vezes mais que o valor original. Seria apenas mais uma de milhares de entradas que têm sido vendidas no mercado negro nesta Copa do Mundo não fosse pelo nome do destinatário original, impresso na face: Confederação Brasileira de Futebol. As normas da Fifa, entidade máxima do futebol internacional, proíbem que os bilhetes entregues às federações nacionais sejam revendidos a cambistas. Quem fizer isso está sujeito a punição.

VEJA rastreou o caminho que levou o tíquete CBF 525268 até as mãos do cambista espanhol. Cinco minutos antes ele fora vendido a 450 euros (1 300 reais) por Renato Bahia, credenciado para a Copa do Mundo como colunista do Diário de Natal, do Rio Grande do Norte. Bahia afirma que recebeu três ingressos, para ele, a mulher e o filho, por intermédio de um empresário de turismo chamado Alberto Belotti, o Tuca. As entradas teriam sido entregues no dia da partida contra a Austrália, no hotel Hilton Park de Munique, onde a seleção brasileira estava hospedada. "Os cambistas circulam livremente pelo saguão e negociam discretamente", diz Bahia. Amigos seus compraram ingressos no hotel por 350 euros, mais do que o triplo do preço oficial.

Um beneficiário do esquema contou a VEJA detalhes do método de desvio, que funcionaria desde a Copa de 1994. Segundo essa versão, na antevéspera de cada jogo um homem com credencial da Copa e broche da CBF na lapela, conhecido apenas pelo nome provavelmente falso de Martins, reúne-se no hotel da seleção com um grupo de cambistas. Sempre de acordo com ele, ingressos a que a CBF tem direito, e que deveriam destinar-se a convidados e às agências de viagens para venda aos turistas brasileiros, seriam entregues a esses cambistas. Eles tratam de revendê-los pelo maior preço possível, até poucas horas antes do jogo. Ficam com 15% a 20% do que arrecadam e devolvem o dinheiro restante. A CBF distribui antes de suas partidas um ingresso gratuito para cada jogador e para os membros da delegação, do técnico ao roupeiro. Além disso, os jogadores têm direito a comprar outras nove entradas pelo preço de face, quatro delas da categoria 1 (100 euros), e os demais integrantes do grupo, quatro da categoria 2 (60 euros).

 
Etienne RothBart/AFP
O dirigente Bhamjee, punido pela Fifa (à esq.), e um cambista espanhol em ação (de cinza, à dir.)

A CBF afirma que a entrada número 525268, adquirida por VEJA, não saiu da cota da delegação. "Eu acho muito estranho isso aí", afirmou o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, em Berlim, ao tomar conhecimento da denúncia. "Como alguém pode vender ingressos na porta da nossa delegação?" Na noite de sexta-feira, a CBF anunciou que pediu à polícia alemã para investigar o caso. No dia 7, no hotel Bayerischer Hof de Munique, numa cena testemunhada por VEJA, Teixeira devolveu a um funcionário da Fifa vinte ingressos da cota de trinta que havia recebido para o jogo inaugural da Copa.

A venda de entradas no mercado negro é sujeita a severas sanções da Fifa. Na semana retrasada, um repórter do jornal inglês The Mail on Sunday, fazendo-se passar por torcedor, comprou um pacote delas diretamente de Ismail Bhamjee, um dos 24 membros do comitê executivo da própria Fifa, e publicou as provas. Bhamjee, dirigente esportivo de Botsuana, pequeno país da África, foi afastado do comitê. A Federação Paraguaia de Futebol se viu igualmente em maus lençóis quando ingressos pertencentes a ela foram parar nas mãos de torcedores ingleses, no jogo entre Inglaterra e Paraguai, pela primeira rodada da Copa. Não houve punição. Há ainda uma suspeita de troca-troca de ingressos entre federações de diferentes países. Entradas em nome da Federação Mexicana de Futebol eram vendidas por cambistas brasileiros no dia do jogo entre Brasil e Japão. Dezenas de brasileiros e japoneses entraram no Westfalenstadion de Dortmund com esses tíquetes, que teoricamente caberiam a torcedores mexicanos.

Tais contravenções mostram a complicação da venda de bilhetes para a Copa do Mundo. É difícil prever com antecedência a demanda de cada país. Desta vez os alemães tentaram pôr em prática um sistema teoricamente igualitário e à prova de cambistas. As entradas foram sorteadas entre interessados do mundo todo, inscritos pela internet. Cada uma tem marcado o nome do comprador e é (supostamente) intransferível. Na catraca, seu dono teria de apresentar um documento para comprovar a identidade. Na prática, deu tudo errado. É impossível controlar dezenas de milhares de torcedores na porta do estádio sem provocar filas intermináveis. Assim, apenas um em cada 100 torcedores tem sido obrigado a provar que é a mesma pessoa cujo nome está escrito no tíquete verde de cartolina. Nas estações de metrô junto aos estádios é fácil encontrar cambistas negociando os tais ingressos "intransferíveis". A Fifa, porém, elogiou o sistema de comercialização dos anfitriões.

Outro problema é o grande número de entradas de cortesia. Em cada jogo, 16% dos bilhetes são entregues às duas federações nacionais envolvidas na partida, 16% aos patrocinadores oficiais da Copa e outros 11% a convidados (batizados de hospitality guests). Só isso já representa 43% do total dos assentos no estádio. Parte desses ingressos tem caído no mercado paralelo, no qual é vendida a preços entre 300 e 1.000 euros, conforme a importância do jogo, o setor e o horário (os preços sobem à medida que o pontapé inicial se aproxima). No jogo entre Holanda e Sérvia e Montenegro, 2.000 cadeiras reservadas a patrocinadores estavam vazias, provavelmente porque os ingressos nem chegaram a ser distribuídos – e escaparam, desse modo, do risco de cair na mão dos cambistas.

 
 
 
 
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