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Copa Mercado
negro
Cambistas vendem entradas no hotel
da seleção, algumas com o nome da CBF. VEJA comprou uma
 Carlos
Maranhão e André Fontenelle, de Munique Fotos
André Fontenelle
 | | Torcedores
no metrô de Munique e, abaixo, o bilhete com a identificação
da CBF, de 100 euros, que VEJA adquiriu por sete vezes mais |  |
Faltavam quarenta minutos para o início da partida entre o Brasil e a Austrália,
em Munique, no último dia 18, quando VEJA comprou um ingresso para esse
jogo de um cambista espanhol por 700 euros (2.000 reais), sete vezes mais que
o valor original. Seria apenas mais uma de milhares de entradas que têm
sido vendidas no mercado negro nesta Copa do Mundo não fosse pelo nome
do destinatário original, impresso na face: Confederação
Brasileira de Futebol. As normas da Fifa, entidade máxima do futebol internacional,
proíbem que os bilhetes entregues às federações nacionais
sejam revendidos a cambistas. Quem fizer isso está sujeito a punição.
VEJA rastreou o caminho que levou
o tíquete CBF 525268 até as mãos do cambista espanhol. Cinco
minutos antes ele fora vendido a 450 euros (1 300 reais) por Renato Bahia, credenciado
para a Copa do Mundo como colunista do Diário de Natal, do Rio Grande
do Norte. Bahia afirma que recebeu três ingressos, para ele, a mulher e
o filho, por intermédio de um empresário de turismo chamado Alberto
Belotti, o Tuca. As entradas teriam sido entregues no dia da partida contra a
Austrália, no hotel Hilton Park de Munique, onde a seleção
brasileira estava hospedada. "Os cambistas circulam livremente pelo saguão
e negociam discretamente", diz Bahia. Amigos seus compraram ingressos no hotel
por 350 euros, mais do que o triplo do preço oficial.
Um beneficiário do esquema contou a VEJA detalhes do método de desvio,
que funcionaria desde a Copa de 1994. Segundo essa versão, na antevéspera
de cada jogo um homem com credencial da Copa e broche da CBF na lapela, conhecido
apenas pelo nome provavelmente falso de Martins, reúne-se no hotel da seleção
com um grupo de cambistas. Sempre de acordo com ele, ingressos a que a CBF tem
direito, e que deveriam destinar-se a convidados e às agências de
viagens para venda aos turistas brasileiros, seriam entregues a esses cambistas.
Eles tratam de revendê-los pelo maior preço possível, até
poucas horas antes do jogo. Ficam com 15% a 20% do que arrecadam e devolvem o
dinheiro restante. A CBF distribui antes de suas partidas um ingresso gratuito
para cada jogador e para os membros da delegação, do técnico
ao roupeiro. Além disso, os jogadores têm direito a comprar outras
nove entradas pelo preço de face, quatro delas da categoria 1 (100 euros),
e os demais integrantes do grupo, quatro da categoria 2 (60 euros). Etienne
RothBart/AFP
 |  | | O
dirigente Bhamjee, punido pela Fifa (à esq.), e um cambista espanhol
em ação (de cinza, à dir.) |
A CBF afirma que a entrada número 525268, adquirida por VEJA, não
saiu da cota da delegação. "Eu acho muito estranho isso aí",
afirmou o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, em Berlim, ao tomar conhecimento
da denúncia. "Como alguém pode vender ingressos na porta da nossa
delegação?" Na noite de sexta-feira, a CBF anunciou que pediu à
polícia alemã para investigar o caso. No dia 7, no hotel Bayerischer
Hof de Munique, numa cena testemunhada por VEJA, Teixeira devolveu a um funcionário
da Fifa vinte ingressos da cota de trinta que havia recebido para o jogo inaugural
da Copa. A venda de entradas no mercado
negro é sujeita a severas sanções da Fifa. Na semana retrasada,
um repórter do jornal inglês The Mail on Sunday, fazendo-se
passar por torcedor, comprou um pacote delas diretamente de Ismail Bhamjee, um
dos 24 membros do comitê executivo da própria Fifa, e publicou as
provas. Bhamjee, dirigente esportivo de Botsuana, pequeno país da África,
foi afastado do comitê. A Federação Paraguaia de Futebol se
viu igualmente em maus lençóis quando ingressos pertencentes a ela
foram parar nas mãos de torcedores ingleses, no jogo entre Inglaterra e
Paraguai, pela primeira rodada da Copa. Não houve punição.
Há ainda uma suspeita de troca-troca de ingressos entre federações
de diferentes países. Entradas em nome da Federação Mexicana
de Futebol eram vendidas por cambistas brasileiros no dia do jogo entre Brasil
e Japão. Dezenas de brasileiros e japoneses entraram no Westfalenstadion
de Dortmund com esses tíquetes, que teoricamente caberiam a torcedores
mexicanos. Tais contravenções
mostram a complicação da venda de bilhetes para a Copa do Mundo.
É difícil prever com antecedência a demanda de cada país.
Desta vez os alemães tentaram pôr em prática um sistema teoricamente
igualitário e à prova de cambistas. As entradas foram sorteadas
entre interessados do mundo todo, inscritos pela internet. Cada uma tem marcado
o nome do comprador e é (supostamente) intransferível. Na catraca,
seu dono teria de apresentar um documento para comprovar a identidade. Na prática,
deu tudo errado. É impossível controlar dezenas de milhares de torcedores
na porta do estádio sem provocar filas intermináveis. Assim, apenas
um em cada 100 torcedores tem sido obrigado a provar que é a mesma pessoa
cujo nome está escrito no tíquete verde de cartolina. Nas estações
de metrô junto aos estádios é fácil encontrar cambistas
negociando os tais ingressos "intransferíveis". A Fifa, porém, elogiou
o sistema de comercialização dos anfitriões.
Outro problema é o grande número de entradas de cortesia. Em cada
jogo, 16% dos bilhetes são entregues às duas federações
nacionais envolvidas na partida, 16% aos patrocinadores oficiais da Copa e outros
11% a convidados (batizados de hospitality guests). Só isso já
representa 43% do total dos assentos no estádio. Parte desses ingressos
tem caído no mercado paralelo, no qual é vendida a preços
entre 300 e 1.000 euros, conforme a importância do jogo, o setor e o horário
(os preços sobem à medida que o pontapé inicial se aproxima).
No jogo entre Holanda e Sérvia e Montenegro, 2.000 cadeiras reservadas
a patrocinadores estavam vazias, provavelmente porque os ingressos nem chegaram
a ser distribuídos e escaparam, desse modo, do risco de cair na
mão dos cambistas. |