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Copa
Os melhores reservas do mundo
Com
Juninho Pernambucano, Robinho e Cicinho e Ronaldo outra vez artilheiro,
o Brasil desencanta e cria um ótimo problema para Parreira 
Carlos Maranhão e André Fontenelle,
de Dortmund
Toshifumi Kitamura/AFP  |
| Juninho e Ronaldo comemoram um dos quatro gols do Brasil
contra o Japão: a melhor atuação na primeira fase |
Uma piada espalhou-se pela internet
às vésperas do jogo entre Brasil e Japão. Desesperado com
a iminente desclassificação de sua equipe, o técnico Zico
ligou para o colega Carlos Alberto Parreira.
Por favor, Parreira, me ajude.
Tudo bem, Zico, vou escalar os reservas contra vocês.
Não, pelo amor de Deus! Os reservas não...
Os reservas entraram mesmo em campo
na quinta-feira passada, em Dortmund. E, nove dias depois de estrear na Copa do
Mundo, a seleção brasileira finalmente fez o que dela se espera:
começou a jogar o seu futebol. Com Cicinho, Gilberto, Gilberto Silva, Juninho
Pernambucano e Robinho no lugar de Cafu, Roberto Carlos, Emerson, Zé Roberto
e Adriano, o Brasil derrotou o Japão por 4 a 1. A participação
dos (ex?) suplentes foi decisiva. Gilberto e Juninho marcaram gols. Cicinho deu
de cabeça o passe para o primeiro gol. Gilberto Silva esteve à altura
do titular Emerson e Robinho foi para Ronaldo um companheiro de ataque mais ágil
que Adriano.
Shinya Haga/AFP  |
| Cicinho (à esq.) festeja o gol de Gilberto: os
reservas substituíram bem os ídolos Cafu e Roberto Carlos |
Parreira guardou mistério quanto à escalação até
o último momento. Horas antes do jogo, a Rede Globo chegou a anunciar que
Ronaldo seria poupado. A divulgação dessa notícia, que se
revelou infundada, desagradou a Parreira e à comissão técnica.
Só às 12h45 de Brasília, durante a preleção,
ou seja, a três horas da entrada em campo, a escalação verdadeira,
com Ronaldo, seria anunciada pelo treinador a seus comandados. Parreira não
colocou os reservas para ajudar Zico, é lógico, tampouco por estar
insatisfeito com todos os titulares. Em parte, as mudanças tinham a ver
com o regulamento da Copa. Cafu e Emerson haviam levado um cartão amarelo.
Se tomassem outro, estariam fora da partida seguinte, das oitavas-de-final. Se
não tomassem, o cartão anterior seria perdoado. Ronaldo e Robinho
também tinham um cartão, mas o técnico decidiu correr o risco
de escalá-los. Manteve Ronaldo porque ele precisa jogar para recuperar
a forma e o peso. Colocou Robinho porque a partida contra o Japão era uma
boa oportunidade de testar uma nova dupla de ataque. O Brasil entrou em campo
classificado e perderia o primeiro lugar do grupo F unicamente se ocorresse uma
improvável combinação de resultados.
Com coragem e para a surpresa dos que o consideram um teimoso conservador, o que
Parreira fez, de certa forma, é comparável ao que há muito
se faz em outro esporte, o basquete. Nele, o banco de reservas é tão
importante que, nos Estados Unidos, a cada jogo se divulga o total de pontos marcados
pelos substitutos, uma estatística conhecida como bench scoring
(literalmente, pontuação do banco). No encontro de quinta-feira,
o bench scoring do Brasil foi de 50%, pois dois dos quatro gols se deveram
aos reservas Juninho e Gilberto. Parreira, aliás, detesta usar o termo
"reservas" para se referir aos doze atletas sentados a seu lado à margem
do gramado. Prefere "opções". Ou "grupo".
"Copa se ganha com um time só, e não com dois,
mas isso não quer dizer que você possa vir com apenas onze jogadores",
afirma. "É preciso ter um grupo preparado e opções, como
nós temos." Contra o Japão, a seleção exibiu tantas
delas que o treinador passou a ter diante de si um problema. Aliás, um
ótimo e necessário problema. Será inevitável a cobrança
para que algumas dessas opções sejam mantidas diante de Gana, na
terça-feira 27, no mesmo estádio de Dortmund. Robinho é o
que tem mais chances de ficar. Saltou aos olhos a diferença entre ele e
Adriano. "Acho que fiz um bom trabalho", diz Robinho. "Mas se eu vou sair jogando
ou não é o professor Parreira quem sabe." O discurso de Juninho
Pernambucano, que deixou crescer a barba e está igualmente cotado para
mais uma vez ser escolhido, é semelhante: "Quero continuar jogando bem
e estar à disposição do treinador".
Vanderlei Almeida/AFP  |
| Robinho passa pelo japonês Ogasawara: o camisa 23 não
esconde que quer ser titular | Se
os reservas deram uma demonstração de competência contra o
Japão, quem brilhou foi o mais discutido dos titulares. Aos 29 anos e 90,5
quilos, Ronaldo marcou dois gols. O primeiro com uma cabeçada, fundamento
em que ele próprio reconhece ser deficiente. O segundo veio numa de suas
jogadas características, o chute preciso e indefensável de fora
da área. "É maravilhoso voltar a fazer gols. Espero ter a mesma
sorte e atuação nos próximos jogos", vibrou Ronaldo, que
entrou em campo calçando um par de chuteiras amarelas com o nome do filho,
Ronald, inscrito nelas. O menino, que tem 6 anos, foi pela primeira vez ao estádio
para ver o pai jogar em uma Copa do Mundo. Presenciou um feito histórico.
Com seus dois gols, Ronaldo alcançou catorze em Mundiais. Igualou-se assim
ao alemão Gerd Müller, das Copas de 1970 e 1974, até quinta-feira
o recordista isolado. O camisa 9 do Brasil também superou os doze gols
de Pelé, que assistiu à partida da tribuna de honra.
A vitória fez o Brasil recuperar a primeira posição como
favorito nos sites de aposta britânicos, um lugar que tinha sido perdido
na véspera para a Argentina (veja
o quadro). Ciclotímica como é a torcida brasileira
e a imprensa, é claro , a boa atuação contra
o Japão periga desencadear um novo ciclo de euforia, semelhante ao que
antecedeu a Copa e na razão inversa do pessimismo que tomou conta do país
depois das atuações inconvincentes contra a Croácia e a Austrália.
É bom, porém, conter o excesso de otimismo. O time japonês
era visivelmente limitado, e mesmo assim fez um gol e criou jogadas perigosas.
Ronaldo teve uma atuação que chegou a lembrar seus bons momentos
do passado, mas ele é o primeiro a reconhecer que continua pesado. "Tenho
total conhecimento do meu corpo e das minhas condições", disse após
a partida. O peso de Ronaldo foi
revelado pelo preparador físico Moraci Sant'Anna na véspera do jogo
ao jornal esportivo Lance!. Pelo que se pôde entender das declarações
de Moraci, o Fenômeno apresentou-se à seleção com 94,7
quilos, cerca de 12 a mais que o declarado em sua ficha oficial. É muita
coisa para um atleta de 1,83 metro, cujo peso ideal não poderia ultrapassar
os 87 quilos. Ronaldo ficou sem jogar por um mês, pouco antes da Copa, devido
a uma lesão na coxa direita. Se já não estava propriamente
magro, engordou mais um pouco. A
quebra de um dos segredos mais bem guardados da seleção, sem a prévia
autorização do jogador, causou mal-estar. Por isso, Moraci Sant'Anna
fez questão de elogiá-lo no dia seguinte. "O maior mérito
é dele", afirmou. "Vem se dedicando muito, fazendo tudo e até mais
um pouco. Trabalha até de manhã, quando os outros estão de
folga", acrescentou. "Cheguei com o nível físico abaixo do de meus
companheiros e sabia que teria de ralar muito", contou Ronaldo. A torcida brasileira
em Dortmund reconheceu esse esforço, gritando nas arquibancadas: "Eu, eu,
eu, o Ronaldo emagreceu!". |