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Negócios
Os passageiros
pagam a conta
Com seus aviões no chão,
a Varig vai se desmantelando
e os clientes ficam à deriva

Ronaldo França
Oscar Cabral
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| Aviões da Varig arrestados e, abaixo, confusão
nos aeroportos: desrespeito |
Odival Reis/Diário de São
Paulo/Ag. O Globo
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Maior empresa aérea brasileira
de todos os tempos, a Varig se tornou uma referência mundial
justamente por oferecer a seus passageiros o que havia de melhor
em conforto, segurança e confiabilidade. Graças a
esses quesitos, projetou uma imagem positiva do país por
onde voou. Paradoxalmente, talvez não seja tão contraditório
que, nos estertores da companhia, os passageiros estejam sendo tão
maltratados: é o sinal mais eloqüente de que a Varig
que se conheceu um dia já não existe mais. Centenas
de pessoas passaram horas a fio nos aeroportos. Muitas se viram
obrigadas a esperar até três dias para embarcar, em
meio à sucessão de cancelamentos de vôos, que
chegou à inédita marca de mais de metade das viagens
canceladas em uma semana. Quem já viveu essa situação
sabe o constrangimento que traz. Enquanto isso, longe dos salões
de embarque, os envolvidos na terapia intensiva que se tornou o
processo de recuperação judicial da empresa deram
uma inconteste demonstração de falta de respeito pelos
clientes. A começar pela própria direção
da Varig, que deixou de repassar à Empresa Brasileira de
Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero) as taxas de embarque
pagas pelos passageiros durante um mês. O rombo chegou a 31
milhões de reais, dinheiro usado na manutenção
dos aeroportos. A isso se dá o nome de apropriação
indébita.
Do lado do governo houve displicência.
O ministro da Defesa, Waldir Pires, partiu para o terrorismo verbal
quando aconselhou os passageiros a simplesmente voltar para casa.
Isso não é uma decisão simples quando se depende
do transporte aéreo para resolver problemas pessoais ou para
retornar ao país. A Agência Nacional de Aviação
Civil (Anac) também não fez o papel que dela se espera.
Não conseguiu apresentar um plano de emergência consistente,
apesar de a quebra da Varig estar a cada dia mais visível.
As companhias concorrentes comprometeram-se a realocar os passageiros,
mas não havia informações suficientes ou um
plano consistente em ação. Durante a semana, aumentaram
as dificuldades para o endosso das passagens por outras companhias.
Na quarta-feira, a Iata, agência internacional que garante
a compensação de bilhetes trocados entre as companhias,
descredenciou a Varig. Jogou-se mais combustível no incêndio
e a empresa encerrou a semana a um milímetro da falência
total. Faltam-lhe aviões. Alguns porque foram arrestados
em ações que se desenrolam na Justiça da cidade
de Nova York, nos Estados Unidos. Outros porque simplesmente estão
parados à espera das manutenções periódicas
obrigatórias. No ano passado, a Varig investiu apenas 40%
do mínimo necessário à manutenção,
o que fez com a frota fosse parando aos poucos. Graças à
rígida legislação aeronáutica, sem as
revisões preventivas um avião é incondicionalmente
retirado da escala de vôos.
A data final do processo de recuperação
da empresa é a quarta-feira desta semana, quando a falência
deverá ser decretada. O grupo de trabalhadores que havia
feito a única proposta no leilão de venda da companhia,
há duas semanas, finalmente admitiu que não tinha
o dinheiro para comprar a empresa. "A Varig de hoje não é
a mesma pela qual demos o lance. Os investidores ficaram com medo
de entrar agora", afirmou aos jornais o porta-voz do grupo, Márcio
Marsillac. Trata-se de uma farsa. A resistência em revelar
os compradores é desculpa inaceitável. E, além
disso, a situação da companhia é quase tão
difícil agora quanto antes. A empresa tem perdas diárias
de 2,5 milhões de dólares, mas seus ativos mais importantes
são seus espaços e horários em aeroportos estrangeiros,
a estrutura de operação de vôo e a marca, que,
embora prejudicada, se mantém forte. São justamente
esses os atrativos que levaram a empresa Volo, cujo capital provém
basicamente do fundo americano Matlin Patterson, a fazer uma proposta
de compra da empresa, na semana passada. A oferta esbarra na legislação.
Empresas aéreas não podem ter capital estrangeiro
em proporção superior a 20% do total. De qualquer
forma, já se sabe que a Volo entrou no jogo pela porta errada.
Contratou como advogado Roberto Teixeira, o notório compadre
de Lula, o que evidencia a tentativa de influenciar o negócio
da pior forma possível. A falta de perspectivas parece mesmo
levar a Varig a desaparecer dos céus. O que não se
pode deixar é que seus passageiros, que estão em terra,
sofram todas as conseqüências, como aconteceu na semana
passada.
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RETRATO DO CAOS
Engolida pela
crise, a Varig está ferida de morte. Os números
mostram a extensão
dos estragos
Neste momento, quarenta aviões dos 61 de que
dispõe estão parados.
A Agência Nacional de Aviação Civil
(Anac) calcula que 28 000 pessoas que detêm passagens
Varig estão no exterior e precisam voltar ao
país até o dia 30.
Os funcionários não recebem salários
há dois meses.
No ano passado, investiu apenas 40% do necessário
para manutenção da frota, o que fez com
que muitos aviões parassem de voar.
A dívida total é de 7,9 bilhões
de reais, oito vezes maior do que o preço oferecido
por ela em leilão.
Estima-se que a cada dia a companhia perca 2,5 milhões
de dólares devido à crise.
As dívidas trabalhistas e com o plano de previdência
dos funcionários alcançam 2,5 bilhões
de reais.
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