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Brasil A
maçã podre que ninguém quer ver Nenhum
candidato parece incomodar-se com a deterioração da Previdência,
o maior nó da economia 
Giuliano Guandalini e Fábio Portela
A economia brasileira avançou
bastante nos últimos anos e deverá navegar o período eleitoral
com muito mais tranqüilidade do que em 2002. Mas a robustez dos indicadores
oculta uma maçã podre que os candidatos à Presidência
evitam encarar de frente. Trata-se da Previdência Social, responsável
pelo pagamento das aposentadorias do setor privado e dos trabalhadores rurais.
Há dez anos, o sistema operava no azul. O total arrecadado era suficiente
para honrar todos os benefícios e sobrava dinheiro em caixa. De lá
para cá, a Previdência apodreceu e tornou-se de longe a maior vulnerabilidade
das finanças nacionais. O déficit deste ano ficará em torno
de 50 bilhões de reais, uma bolada suficiente para multiplicar por sete
os investimentos em educação e cultura do governo federal. O que
explica essa reversão nas contas? Em parte, isso ocorreu porque os brasileiros
estão vivendo mais e por esse motivo recebem aposentadoria durante
um maior período de tempo. Mas, de acordo com um novo estudo, o principal
motivo do estrago na contabilidade do INSS foram os sucessivos aumentos reais
(acima da inflação) concedidos ao salário mínimo durante
os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso e os quatro anos de Lula.
Nos últimos doze anos, o valor real do mínimo dobrou. Se os reajustes
tivessem seguido a inflação, o mínimo seria pouco mais da
metade dos atuais 350 reais. Como dois terços dos aposentados recebem um
salário mínimo, as despesas do INSS explodiram, enquanto as receitas
permaneceram praticamente estáveis. O Brasil tornou-se o único país
do mundo onde aposentados recebem reajuste acima da inflação. Não
fosse a política populista de dar aumentos cada vez mais gordos ao mínimo,
o déficit previdenciário seria bem menor teria ficado em
12 bilhões de reais no ano passado, em vez dos 38 bilhões de reais
registrados. Consertar o estrago não será
fácil e demandará uma reforma mais profunda do que os pequenos reparos
feitos por Fernando Henrique (1999) e Lula (2003). O tema é impopular e
pouco palatável aos falatórios de palanque. Em vez de tratarem do
assunto, candidatos e seus caciques têm preferido fazer o discurso fácil
de criticar os juros elevados e o câmbio desfavorável aos exportadores.
Como diz o economista Dionísio Dias Carneiro, a agenda política
insiste em prometer investimentos sem poupança e renda sem produtividade.
O governo Lula emite sinais contraditórios. O presidente mencionou recentemente
a necessidade de uma reforma da Previdência, mas ajudou a aprofundar o buraco
ao aumentar o mínimo em 35% acima da inflação. O tucano Geraldo
Alckmin também erra no discurso apesar de defender o corte dos gastos
públicos, prefere chamar o Banco Central de "covarde" por não reduzir
mais rapidamente a taxa de juro. A crise da Previdência
não pode ser creditada a um só governo. Foi Fernando Henrique que
armou a bomba-relógio. Lula, em vez de desarmá-la, jogou mais pólvora.
O estudo sobre o impacto do mínimo foi feito pelo Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea), órgão subordinado ao Ministério
do Planejamento. Uma de suas conclusões é que o custo acumulado
da política de aumentar o mínimo acima da inflação
foi de 250 bilhões de reais. Não fosse essa despesa adicional, a
dívida pública, hoje em 1 trilhão de reais, estaria em 750
bilhões de reais. O secretário de Política Econômica,
Júlio Gomes de Almeida, desqualificou a metodologia e afirmou que o impacto
do mínimo foi pequeno se considerados os aspectos positivos em termos de
redução da desigualdade social. É questionável: o
Bolsa Família custa menos (10 bilhões ao ano) e é mais eficiente
na redução de desigualdade. O economista Fabio Giambiagi, do Ipea,
diz que a intenção não foi defender a redução
do mínimo, e sim mostrar o custo dessa política e sua trajetória
explosiva. Disputas metodológicas à parte, o fato é que o
sistema quebrou e terá de ser reformado. Segundo o mexicano Mauro Leos,
vice-presidente da agência de classificação de crédito
Moody's, sem estancar o ralo da Previdência o Brasil não conseguirá
o investment grade selo de qualidade na administração
das finanças que possibilita ao país pagar taxas de juro mais baixas.
Afirma Leos: "O sistema não se sustenta. Consome mais dinheiro do que o
razoável. Sem reformar a Previdência, será muito difícil
que o nível de endividamento se reduza. Sem a reforma, não haverá
o tão esperado investment grade". Ou seja, sem reforma o Brasil
continuará a ser visto como um país de risco maior do que nossos
rivais na economia mundial. O primeiro passo para
estancar a sangria é parar de reajustar os benefícios acima da inflação.
Depois, corrigir suas inúmeras distorções. Apenas 30 milhões
dos 90 milhões de trabalhadores do país contribuem para o INSS
são 23 milhões de aposentados vivendo à custa da contribuição
desses 30 milhões. Nos Estados Unidos, onde os desequilíbrios são
menores, a crise previdenciária que se avista por causa da aposentadoria
dos baby boomers (a geração do pós-guerra) faz parte do debate
nacional. O mesmo deveria ocorrer aqui. Com a palavra, os candidatos.
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