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Brasil
Ele quer fazer escola
Cristovam, do PDT, disputa a Presidência
para pôr a educação na pauta nacional

Policarpo Junior
Ana Araujo
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| Cristovam Buarque, em pose de campanha e com
a mulher e as duas filhas: para barrar a "tentação
autoritária" de Lula |
Acervo pessoal
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Num país em que a taxa
de analfabetismo ainda gira em torno de 11% e que há pouco
tempo conseguiu dar escola a praticamente todas as crianças
de até 14 anos, a candidatura presidencial do senador Cristovam
Buarque, do PDT do Distrito Federal, talvez seja um bom sinal. Aos
62 anos, Cristovam Buarque passou mais tempo envolvido com educação
do que com política. Durante quinze anos, foi professor e
reitor da Universidade de Brasília (UnB) e começou
a dividir a carreira acadêmica com as urnas há doze
anos, quando, concorrendo pelo PT, foi eleito governador do Distrito
Federal (1995-1998). Embora suas chances eleitorais estejam expressas
no quase-traço que tem nas pesquisas (na última, tinha
1% das intenções de voto), Cristovam Buarque vem com
uma disposição dupla. A primeira é fazer de
tudo para evitar que Lula ganhe no primeiro turno. "Vencer uma eleição
com 60 milhões de votos no primeiro turno pode despertar
a tentação autoritária do presidente", diz.
A segunda é colocar a educação na pauta nacional.
"O grande capital do Brasil não é uma fábrica,
e sim os centros de pesquisa", afirma o candidato.
Acervo pessoal
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| Com Paulo Freire: admiração |
Durante um ano, período em que foi ministro da Educação,
Cristovam Buarque teve sucessivos choques com Lula e descobriu que
a educação, no atual governo, era tratada como tema
de segunda classe. "Lula não dava a mínima para os
projetos que eu apresentava e o José Dirceu só dizia
que não tinha dinheiro", rememora. As trombadas começaram
logo cedo. Ao tomar posse, Cristovam Buarque disse que, em vez do
Fome Zero, programa que merecia então todas as atenções
de Lula, o Brasil precisava era do Bolsa Escola programa
que ele próprio implantou no Distrito Federal e que acabou
adotado pelo governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Mais tarde, ele anunciou a criação de um programa
que obrigava os prefeitos a garantir vagas nas escolas para crianças
que completassem 4 anos. Lula telefonou para perguntar de onde ele
tinha tirado tal idéia. "Do seu programa de governo, presidente",
provocou Cristovam. Numa solenidade, ele pediu aumento nas verbas
para a educação, e Lula passou-lhe uma descompostura
em público. O então ministro chegou a sugerir a estudantes
que cercassem o Congresso para reivindicar mais recursos para a
educação, deixando Lula irritado. Até que,
em janeiro de 2004, Lula, por telefone, demitiu seu ministro da
Educação. "O que mais me magoa é que, até
hoje, o presidente não me procurou para dar nem uma palavra
de conforto", diz.
Casado, pai de duas filhas e
admirador do educador Paulo Freire, que morreu em 1997, Cristovam
Buarque, como candidato presidencial, parece a personificação
de suas propostas além do nome, ele tem apenas papel
e lápis. Sua campanha ainda não tem tesoureiro nem
marqueteiro. Para viajar o país sem gastar muito, Cristovam
pensa em usar ônibus em alguns de seus deslocamentos. "Preciso
de no mínimo 5 milhões de reais para fazer a campanha",
diz. O próprio PDT está dividido entre os que defendem
sua candidatura e os que preferiam não ter concorrente na
disputa presidencial. Mas, em seus três minutos no horário
eleitoral gratuito, Cristovam quer mostrar que é um político
diferente. "Lula e Alckmin são dois candidatos iguais. Vão
ficar discutindo quem fez mais, quem errou mais", diz ele. Seu primeiro
objetivo é desfazer a impressão generalizada de que
é uma usina de idéias mas incapaz de executá-las.
Por isso, quer divulgar que, além de professor, é
diplomado em engenharia mecânica. "O estereótipo do
homem que tem idéias prejudica. As pessoas acham que ele
não é capaz de realizar. Já o engenheiro é
um realizador." Exemplo? Cristovam Buarque conta, orgulhoso, que
é um recordista em construção de salas de aula.
Em seu governo em Brasília, construiu duas salas e meia por
dia. Tentou ser reeleito, não conseguiu, mas as escolas continuam
de pé.
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